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[RN] NÃO À TRANSPOSIÇÃO AGORA É DOGMA CATÓLICO

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  • Daniel Sottomaior
    VEJA, 19-12-2007 A FANFARRA CATÓLICA André Petry A greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra a transposição do Rio São Francisco está se
    Message 1 of 1 , Jan 1, 2008
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      VEJA, 19-12-2007

      A FANFARRA CATÓLICA
      André Petry

      A greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra a transposição do
      Rio São Francisco está se transformando numa maiúscula palhaçada –
      com todo o respeito aos palhaços profissionais. No início da greve de
      fome, tudo se resumia a um protesto meio biruta do bispo, que, com o
      mesmo propósito de impedir as obras de transposição do rio, já fizera
      jejum por onze dias em 2005. Depois de uns dias a mais e uns quilos a
      menos, o bispo subiu o tom: denunciou a súbita existência de
      uma "ditadura declarada" no país e informou que sua saúde era
      desimportante e o fundamental mesmo era "o estado de saúde da
      democracia brasileira". (O leitor já reparou que, hoje em dia,
      qualquer um que levanta uma bandeira, ainda que prepotente e
      totalitária, sempre o faz em nome da democracia?)

      Pois, enquanto o bispo transitava da condição inicial de mártir do
      rio para a de mártir da democracia, deu-se o lance triunfal da
      pantomima: a direção da CNBB, entidade que reúne a nata do clero
      católico, lançou uma nota conclamando "os cristãos e pessoas de boa
      vontade" a se unirem "em jejum e oração" ao bispo em "solidariedade à
      causa por ele defendida". Ou seja: a cúpula da Igreja Católica ficou
      oficialmente contra a transposição do São Francisco. Mas, engraçado,
      não se viu nenhum bispo da CNBB entrando em greve de fome.

      Qualquer brasileiro – padre, pedreiro, médico ou bombeiro – tem o
      direito de achar o que quiser da transposição do São Francisco, mesmo
      debaixo da "ditadura declarada". O cômico é que o tema esteja sendo
      tratado como se fosse um dogma do catolicismo. É mais ou menos como
      dizer que, de agora em diante, os milhões de católicos brasileiros
      devem acreditar em Deus e na virgindade de Maria, evitar a carne na
      Sexta-Feira Santa e repudiar a transposição do rio. Será só a do São
      Francisco ou a de qualquer rio? Afetaria o Rubicão? O Amazonas? Tigre
      e Eufrates? Haverá uma encíclica papal prescrevendo sobre
      transposições de rios?

      Com todo o respeito aos católicos, profissionais ou não, a coisa
      evoluiu para um pastelão monumental – mas, no fundo, faz um tremendo
      sentido. É, mais uma vez, a Igreja Católica se metendo onde não é nem
      pode ser chamada. Pode-se ser contra ou a favor da mudança do curso
      do São Francisco, mas certamente isso não é uma decisão de natureza
      católica, atéia, budista ou agnóstica. Nem de fé hidráulica.

      Ao entrar com seu peso institucional num tema que não lhe diz
      respeito como guardiã da fé católica, a Igreja volta a exibir sua
      propensão a tutelar a todos, policiar a todos, e não apenas seu
      rebanho – como faz no caso do aborto, do casamento gay, da pílula do
      dia seguinte, das células-tronco... Quando isso acontece de modo
      discreto, já é inconveniente, mas nem todo mundo nota. Quando vem
      acompanhado de greve de fome e conclamações ao jejum nacional, vira
      fanfarra.

      DEUS, O VICE

      Na derrubada da CPMF, ficou evidente a arrogância de Lula e dos
      petistas, que parecem ainda hoje ignorar que, em política, a
      arrogância é a véspera do erro. Para definir esse vício, fica a
      lapidar frase que o jornalista Ricardo Noblat escreveu em seu
      blog: "Se um dia o PT se coligar com Deus será para tê-Lo como vice".
      [i]

      http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=84104&a=111
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