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[OI] ISTO E ATACA DE TRANSCOMUNICACAO... DE NOVO

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  • Daniel Sottomaior
    ... OBSERVATORIO DA IMPRENSA, 01-08-2006 CIÊNCIA PAGA O PATO DA INCOMPETÊNCIA JORNALÍSTICA Luiz Carlos Damasceno Jr. Impossível bater os olhos na capa da
    Message 1 of 1 , Aug 2, 2006
      --- Em sbcr@..., "rmtakata" <rmtakata@y...> escreveu

      OBSERVATORIO DA IMPRENSA, 01-08-2006

      CIÊNCIA PAGA O PATO DA INCOMPETÊNCIA JORNALÍSTICA

      Luiz Carlos Damasceno Jr.

      Impossível bater os olhos na capa da revista IstoÉ do dia 26 de
      julho e não lembrar do texto publicado por Luiz Cláudio Cunha em
      março deste ano no OI, sob o sugestivo título de "Como a IstoÉ
      tornou-se IstoEra" [1]. A referida edição traz estampada a
      manchete: "Falando com o além" e, abaixo, o subtítulo
      anuncia: "Ciência e médiuns aprimoram a tecnologia e os métodos de
      contato com os que morreram...". O que se segue nas páginas internas
      é, sem meias palavras, um exemplo da pior das crias que a
      preocupante aliança entre a estultice das pseudociências e o
      jornalismo medíocre, para não dizer de má-fé, pode gerar.

      Deixando de lado as questões religiosas e de crença irracional
      envolvidas no infeliz texto de autoria de Celso Fonseca, Eliane
      Lobato e Ricardo Miranda, o que faz a matéria ser merecedora de
      críticas inflamadas, senão do mais puro asco, é a forma
      irresponsável com que a ciência é tratada. Irresponsável e
      temerária. Num mundo em que a ciência e a tecnologia ocupam um
      espaço cultural e detêm influência muito maior do que o cidadão
      comum gostaria de aceitar, é fundamental que instrumentos de
      informação competentes estejam a serviço do interesse público, a fim
      de manter o leitor a par do que se passa por trás dos panos das
      realizações científicas.

      Jornalismo relaxado

      Na reportagem em questão, a IstoÉ atropelou ao menos uma premissa
      básica da ética jornalística: a isenção. Ao dar chance para apenas
      um dos lados falar sobre o tema, a saber, o lado daqueles que
      acreditam piamente na comunicação com o mundo dos mortos e não dão a
      mínima para o que a ciência verdadeira tem a dizer sobre a querela,
      a revista incorreu em falta gravíssima com o método científico, que
      perde cada vez mais espaço para as pseudociências, e com o público,
      que vai engolir a informação errada. E isso na melhor das hipóteses.
      Ao que parece, a IstoÉ julgou-se no direito de estender um pouco
      mais a quantidade de disciplinas e áreas permeadas pela investigação
      científica tomando a liberdade de efetivamente proclamar uma nova
      ciência.

      A título de ilustração, a única das muitas fontes consultadas na
      matéria cujas credenciais remetem a um mínimo conhecimento dos
      rigores científicos é o físico Cláudio Brasil, citado en passant
      apenas para registrar o maior dos clichês do misticismo em
      geral; "Temos que abrir a mente e aceitar que a ciência não tem
      explicação para tudo." Além do fato de que não é preciso ter um
      mestrado na USP para repetir a frase com igual propriedade, há uma
      contradição óbvia entre o que o único cientista entrevistado tem a
      dizer e o que é transmitido pela matéria acerca do reconhecimento
      científico do fenômeno. Ora, se dentre as coisas que a ciência não
      consegue explicar figura a suposta comunicação com mortos através de
      ondas de rádio, então é claro que este objeto não é alvo da
      avaliação científica e, portanto, não é ciência. E, a despeito da
      vontade sincera de terceiros, homens de ciência ou não, assim
      permanecerá até que se encaixe nos rigores necessários para tanto.

      Ainda que o cientista optasse por ser mais claro, ou que a revista
      selecionasse um trecho melhor de seu depoimento, continuaríamos
      longe, muito longe, de ter o direito de erguer um novo campo de
      estudo para a ciência. Isso porque a única fonte com conhecimento de
      causa suficiente e que abaliza o suposto fenômeno faz parte de uma
      pequena minoria em sua categoria. Ao generalizar a afirmação, a
      IstoÉ induz o leitor a crer que o método e a comunidade científica
      corroboram a transcomunicação, ou que nem questionam a sua validade
      dentro dos rigores científicos. Dificilmente a mentira poderia ser
      maior. Se escolher as fontes a dedo para gerar o mínimo possível de
      discussão crítica e sadia no texto não configura um jornalismo
      relaxado e parcial, não sei mais o que pode ser.

      Contradição em termos

      E isso não é tudo. Num dos casos relatados, acerca de uma mãe que
      perdeu a filha adolescente – Edna – de forma trágica, a revista faz
      referência a um certo Laboratório Interdisciplinar de
      Biopscicocibernética, "único na Europa totalmente dedicado ao exame
      e análise científicos de fenômenos paranormais". Um laudo divulgado
      pela instituição é utilizado como evidência da origem além-mundo da
      voz captada por um dos instrumentos, que seria de Edna, e da
      subseqüente validade da transcomunicação como ciência. O fato é
      laureado como "o primeiro caso autenticado por um laboratório
      internacional de um contato com um espírito".

      Em suma, os jornalistas da IstoÉ foram incapazes de desconfiar de
      uma evidência que precisa passar por uma instituição dedicada ao
      estudo de fenômenos paranormais para ser atestada. Eles
      aparentemente desconhecem que um dos parâmetros básicos do método
      científico é a reprodutibilidade dos fenômenos observados e dos
      resultados obtidos. Existem centenas de milhares de laboratórios no
      mundo que poderiam ter examinado o material gravado, mas justamente
      o que surge na reportagem como prova incontestável da aceitação
      científica é um centro especializado em promover o que está em
      dúvida: a paranormalidade.

      Não conheço tal instituição, mas posso dizer com razoável segurança
      que o que lá se produz não é ciência. A partir do momento em que um
      fenômeno paranormal pode ser plenamente estudado, reproduzido e
      falseado, ele deixa de fazer parte da categoria do sobrenatural e
      passa a integrar os livros de ciência. A rigor, a simples existência
      de uma instituição científica que estuda fenômenos paranormais é uma
      contradição em termos. Eu adoraria tomar conhecimento das
      contribuições de tal centro de pesquisas à sociedade que o abriga.
      Que belos serviços devem ser prestados à comunidade com descobertas
      e experimentos que não podem ser reproduzidos em nenhum outro
      laboratório do mundo!

      Questão crucial

      Por questões inerentes a sua formação profissional, o jornalista
      confere altíssima relevância à palavra de suas fontes, a ponto de
      tornar-se este o método mais comumente adotado para apurar a
      realidade. As palavras carregam uma importância exagerada e costumam
      passar sem filtros de análise pelos blocos de nota, chegando à
      redação incólumes, por mais absurdas que sejam suas implicações.

      É preciso estabelecer de uma vez por todas que evidências anedóticas
      não servem para comprovar coisa alguma e, não raro, as pessoas
      mentem deliberadamente, em favor de interesses próprios ou de
      terceiros, ou, simplesmente, erram. Essa é uma lição que não
      precisaria ser ensinada aos jornalistas da IstoÉ caso eles
      prestassem um pouco mais de atenção à própria profissão.
      Freqüentemente, o tema em pauta na mídia envolve áreas em que a
      mentira e a contradição se fazem constantes, a política é o melhor
      dos exemplos. O jornalismo deve pautar-se pela investigação, as
      fontes são mero ponto de partida para a verificação posterior dos
      fatos. Tenho certeza de que os redatores da IstoÉ já sabem disso.

      O problema nos remete a uma questão crucial: como pode um
      profissional cujo currículo de formação desconhece completamente
      todos os referenciais que ajudaram a fazer da ciência o que ela é
      hoje, de Hume a Popper (com a vaga exceção de Descartes, que é
      citado mais pela sua visão ultrapassada do que pelo pioneirismo),
      alguém que não sabe diferenciar um teste duplo-cego de uma evidência
      anedótica, escrever sobre ciência? E, pior, usar as páginas de
      trabalho para efetivamente eleger uma nova área do conhecimento
      humano, pela consulta a "especialistas" no referido método que não
      se atreveriam, garanto, a concorrer ao prêmio de US$ 1 milhão
      oferecido por James Randi[2] a quem comprovar, diante de testes
      científicos controlados, a existência de fenômenos paranormais?

      Gestão do saber

      O mal que afeta as revistas nacionais não é novidade, nós já
      conhecemos o caminho da perdição. As dificuldades financeiras e a
      concorrência pesada com os meios eletrônicos, em especial a
      internet, obrigam as publicações impressas a se diversificarem. A
      tentação de lucro fácil e retorno imediato é forte demais para que a
      maioria das redações possa resistir ao jornalismo rasteiro. As
      revistas perdem seu caráter analítico e reflexivo, justamente as
      qualidades que deveriam diferenciá-las no ecossistema jornalístico e
      que acabam por se perder em meio à superficialidade de temas
      esdrúxulos.

      A IstoÉ não é a primeira e, infelizmente, não será a última revista
      a enredar-se no lamaçal do jornalismo oportunista, mais preocupado
      com as vendas do que com o interesse público. A SuperInteressante,
      por exemplo, outrora conceituada revista de divulgação científica,
      já passou por este processo há tempos. Nela, as pautas têm sempre um
      quê de espetáculo, apelando vez por outra a assuntos que costumam
      agradar à maior parte do público, cujo mote é a especulação pura.
      Muito antes de servir à educação científica, o jornalismo praticado
      por este tipo de publicação beira a literatura ou ao absurdo e,
      quando muito, arrisca pequenas curiosidades científicas,
      selecionadas mais por sua essência excêntrica do que pela
      importância dos fatos. A freqüente divulgação de informações erradas
      na mídia, o sensacionalismo, a priorização de aspectos pitorescos da
      ciência e pautas recorrentes e viciadas contribuem para ampliar o
      fosso existente entre a população e o extenso rol do conhecimento
      científico. Paralelamente, reforçam os já tradicionais pontos de
      conflito entre jornalistas e cientistas, reiterando a má fama dos
      primeiros como divulgadores da ciência.

      O jornalismo científico tem como objetivo ser o intermediador entre
      a ciência e a sociedade. É o porta-voz do conhecimento humano,
      concebido de forma a popularizar a ciência, tornando-a compreensível
      e permitindo que o público possa criar juízo a respeito. Sua missão
      é atender às necessidades do cidadão de compreender como e por que
      as descobertas científicas e tecnológicas afetam, para melhor ou
      para pior, o seu dia-a-dia. O caráter de formador e educador
      científico dos meios de comunicação não é apenas reconhecido pelos
      profissionais da área, é admitido como legítimo há um tempo
      considerável, no mínimo desde 1978, quando a Comissão Internacional
      para o Estudo dos Problemas da Comunicação apontou em seu informe
      provisional: "A função principal da comunicação em ciência e
      tecnologia é a gestão do saber humano – da memória coletiva – de
      toda a informação que a sociedade necessita para progredir no mundo
      moderno."

      Honrem seus diplomas

      No Brasil cultiva-se o tabu de que certos assuntos são
      impenetráveis, que não podem ser decifrados ou compreendidos senão
      por um grupo pequeno de homens, no caso, sábios detentores do
      conhecimento científico. Este pensamento culturalmente enraizado
      revela-se extremamente prejudicial aos interesses da sociedade. É de
      grande importância que o cidadão conheça o potencial de seu país
      numa área que é estratégica em todos os frontes. Não é concebível
      que o interesse público se afaste de tal maneira do motor da
      sociedade moderna a ponto de a atenção com o assunto beirar o
      descaso. É ainda menos aceitável que os veículos de informação
      ajudem a agravar o quadro, prestando um desserviço à população,
      quando deveriam concentrar-se em divulgar o assunto com um mínimo de
      qualidade e seriedade.

      Vale lembrar que o jornalista tem, entre suas atribuições
      profissionais, um compromisso com o público que supera em muito a
      ânsia de entretê-lo e de vender edições a todo custo. Entre os
      parâmetros éticos adotados para garantir a informação embasada e de
      cunho informativo ou reflexivo, a isenção e o cuidado com a
      informação deveriam estar acima de todos os outros valores. Não
      pretendo exigir da IstoÉ uma postura ativa em relação à divulgação
      científica. Não nutro esperanças de que a dita revista tenha algum
      potencial para especializar-se em jornalismo científico. O que se
      pede é apenas o mínimo; se a revista não tem condições
      profissionais, técnicas ou de qualquer outra ordem para escrever
      sobre ciência com alguma propriedade, então é melhor que não o faça.

      Em suma, peço que os jornalistas da IstoÉ honrem os seus diplomas. A
      ciência por si só já reúne dificuldades suficientes para difundir-se
      entre a população, ainda que seus inúmeros resultados benéficos
      sejam abraçados com rapidez voraz. É necessário deixar claro que o
      conhecimento científico não precisa enfrentar mais este obstáculo,
      principalmente vindo de quem deveria ser um de seus mais fortes
      aliados. (i)

      [1] http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?
      cod=374IMQ004
      [2] http://www.randi.org/
      ------
      http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=392OFC002
      ==========================

      []s,

      Roberto Takata

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