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[RN] O FUTURO DO SAGRADO

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  • Medeiros, Alexandre Pimentel Cabral de
    O futuro do sagrado CAIO LIUDVIK COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Professor da Universidade de Concórdia, Montréal, Michel Despland é um dos pesquisadores de
    Message 1 of 1 , Oct 3, 2005
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      O futuro do sagrado

      CAIO LIUDVIK
      COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

      Professor da Universidade de Concórdia, Montréal, Michel Despland é um dos pesquisadores de destaque no campo da história das religiões na atualidade. Ele esteve no Brasil em agosto, por ocasião do lançamento no país de um clássico das ciências sociais, "Sobre o Sacrifício", livro do antropólogo Marcel Mauss, co-assinado por Henri Hubert (ed. Cosacnaify).

      Despland considera o legado de Mauss fundamental na medida em que, não só em "Sobre o Sacrifício", mas sobretudo no "Ensaio sobre a Dádiva", o sobrinho de Durkheim estabelece uma maneira fecunda de elucidar o aspecto simbólico -e não meramente utilitário- das transações econômicas e das relações sociais em geral.

      A "dádiva" é um regime de trocas que, operante desde os grupos arcaicos -e supostamente em crise nas modernas sociedades de mercado- , implica a obrigatoriedade do dar, receber e retribuir; ela se fundaria numa lógica simbólica sintetizada por Mauss na seguinte fórmula: "Le lien importe plus que le bien" (ou seja, a relação, o trocar importa mais que o bem trocado).

      Segundo Despland, Mauss ensina a ver que o simbolismo das ações e interações concretas seria, para o estudo das religiões, uma chave de leitura mais pertinente do que a noção de "sagrado", estabelecida por nomes como Durkheim e Mircea Eliade. Na entrevista a seguir, ele fala da obra de Mauss e das perspectivas que se põem para o estudo das religiões neste início de milênio. Canadense de origem suíça, ele é autor, entre outros livros, de "La Religion en Occident" [A Religião no Ocidente] e "Les Hiérarchies Sont Ébranlées - Politiques et Théologies au 19 Siècle" [As Hierarquias Estão Abaladas - Política e Teologia no Século 19].


      Folha - Quais são hoje, a seu ver, as tendências e temas em voga no campo da história das religiões?

      Michel Despland - Tem havido grande interesse pelos novos movimentos religiosos e pelos rituais (sua gênese, mudanças e morte). Isso leva os pesquisadores a darem uma maior atenção para o que fazem as mulheres -em muitas religiões, elas sempre foram experts em rituais domésticos, mas o mundo acadêmico prestava pouca ou nenhuma atenção a isso.

      Folha - Uma de suas grandes contribuições foi uma abordagem sistemática das transformações do conceito de religião no Ocidente ao longo dos tempos. O sr. poderia sintetizar o seu modo de recontar esse processo histórico?

      Despland - Para os romanos, a religião era uma virtude. Eles não pensavam ter uma religião. Os cristãos medievais -e judeus e muçulmanos- também não. Eles tinham um Deus. Quando observadores olharam esses três grupos, disseram que eles tinham "leges", isto é, leis.

      Foi no século 16 que viajantes começaram a se indagar sobre os novos povos que eles encontraram e a discussão se iniciou. Era comumente aceito que havia alguma religião, ou "religião", entre eles, como um instinto. A noção de que havia no mundo uma variedade de religiões, no plural, se tornou comum no século 17.

      Inevitavelmente, os autores que falam sobre "as religiões" tomam certa distância de sua própria, pois a vêem como uma entre muitas (embora sempre achassem maneiras de afirmar que as suas eram as melhores). Eu relaciono essa nova mentalidade com a ascensão do Estado e com a esperança de que ele viesse a ser um árbitro entre católicos e protestantes e assim garantisse a paz na Europa.

      Folha - Quanto a este início de milênio, a noção de religião precisa ser redefinida?

      Despland - Sim, não temos mais confiança em fronteiras da religião, onde ela acaba e onde começa o que é não-religioso. A diferenciação entre sagrado e profano não parece mais ser de muita utilidade. A noção de sagrado está em questão, a despeito da sobrevida que Mircea Eliade garantiu para ela. Espaços sagrados são menos duráveis. Muitos grupos prestam pouca atenção a isso. Ação e interação simbólicas se tornam um conceito básico alternativo. Daí a importância de Marcel Mauss. A interação é importante, pois nela aparecem os fenômenos de dominação e resistência.

      Folha - O senhor deu, aliás, durante sua recente visita ao Brasil, uma palestra a respeito da obra de Mauss. Qual é a importância e atualidade desse autor para os estudos em história da religião?

      Despland - Eu acho que o legado de Mauss está se tornando mais profundo do que o de Durkheim, por conta da trilha que ele abriu para a compreensão da função simbólica [na vida social]. Mauss é especialmente importante quando você entra em questões de segunda ordem, ou questões epistemológicas.

      Folha - Como o senhor avalia as perspectivas da Igreja Católica na atualidade?

      Despland - Não sou um vaticanista, mas posso apontar o dado de que, em todas as denominações cristãs, os adeptos são em menor número, e mais desanimados (se não integrantes apenas nominalmente), no caso do hemisfério Norte, e em maior número, e mais fervorosos, no hemisfério Sul. A demografia do cristianismo mudou radicalmente no século 20 e podemos notar agora que, enquanto líderes teológicos do Norte falam de ecumenismo e justiça social, as vozes hegemônicas na África e Ásia têm ideais mais conservadores. A composição do Colégio de Cardeais está pendendo para o Sul.

      Folha - Um dos alvos constantes das pregações do papa Bento 16 tem sido a tendência, mesmo entre pessoas que se dizem católicas, a estarem abertas a "combinações" subjetivas de diferentes doutrinas, valores, mitos. Esse tipo de "pluralismo religioso interior" pode ser refreado pela igreja? Representa para ela uma ameaça real?

      Despland - Abertura a combinações subjetivas: um bom argumento. A igreja, ao longo de sua história, lidou com isso de modo muito eficaz. Quando, no século 4º, cristãos perfeccionistas foram para o deserto para levar uma vida ascética, a igreja organizou monastérios para domá-los, cooptá-los. Quando no século 13 são Francisco e são Domingos falaram da pobreza, eles também foram trazidos para ordens religiosas.

      Essa tática não funcionou com os protestantes do século 16, então o papado adotou táticas mais defensivas. O que funcionou até o fim do século 20.

      Os protestantes normalmente permitiram liberdade de pensamento para os teólogos e pluralismo em suas igrejas. Mas as denominações que fizeram isso estão agora em declínio. Aquelas que prosperam são as que pregam a unanimidade. A igreja poderá refrear essa tendência? A sua bola de cristal é tão boa quanto a minha. [i]

      http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0210200534.htm
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