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[RN] O MERCADO DA RELIGIÃO

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  • Daniel Sottomaior
    ISTOÉ, 03-09-2003 O LEGADO DOS CÉUS No dia 12 de outubro chega às telas dos principais cinemas do País o filme Maria, a mãe do filho de Deus. Seria apenas
    Message 1 of 1 , Sep 1, 2003
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      ISTOÉ, 03-09-2003

      O LEGADO DOS CÉUS

      No dia 12 de outubro chega às telas dos principais cinemas do País o
      filme Maria, a mãe do filho de Deus. Seria apenas mais um lançamento
      cinematográfico não fosse por um detalhe: a película é estrelada pelo
      padre Marcelo Rossi, o maior garoto-propaganda da Igreja Católica. O
      projeto de R$ 7,5 milhões (uma superprodução para os padrões
      brasileiros) dá bem a medida da força do "produto" religião nos
      vários segmentos da economia. A fé, mais do que nunca, está movendo
      milhões de reais e atraindo novas empresas ao mercado cristão. A
      fração mais barulhenta, sem dúvida, é a das igrejas evangélicas,
      donas de um rebanho composto por 26 milhões de pessoas espalhadas por
      todas as classes sociais. Consumidores ávidos por produtos com a
      grife "Jesus", eles movimentam uma fatia estimada em R$ 3 bilhões por
      ano, de acordo com empresários que militam na causa. Muitos
      empreendedores estão enchendo os bolsos comercializando artigos como
      roupas, CDs, móveis, cadernos, agendas, jogos, instrumentos musicais,
      games e até mesmo licenciando personagens com "inspiração celestial".
      As 800 empresas que fazem produtos para o rebanho cristão não sabem o
      que é recessão. Suas vendas crescem a taxas de até 30% a cada ano.
      Com tantas companhias explorando esse filão, era uma questão de tempo
      para que alguém criasse uma feira específica para o setor. Foi o que
      fez o pastor Eduardo Pacheco Calissi, diretor da EBF Eventos. A
      segunda edição da Feira Internacional do Consumidor Cristão começa em
      23 de setembro, em São Paulo. A expectativa é que, em seis dias,
      sejam realizados R$ 30 milhões em negócios, aumento de 200% em
      relação a 2002. [e]

      Empresas de telecomunicações também pegam carona. A fabricante
      Ericsson e a operadora de telefonia TIM, por exemplo, aproveitam a
      feira para testar novos serviços, como o envio de mensagens bíblicas
      para a telinha do celular ou toques personalizados com músicas de
      louvor a Deus. A Ericsson saiu na frente e, no início de julho,
      lançou o celular Fiel, em parceria com a Assembléia de Deus. A idéia
      é oferecer o produto em redes de distribuição voltadas ao público
      gospel. Nesse segmento de consumo o mercado editorial continua sendo
      o responsável pelos maiores volumes. Dados preliminares da
      pesquisa "Diagnóstico do setor editorial evangélico brasileiro"
      mostram que as editoras movimentaram R$ 139,1 milhões em 2002. A
      bíblia continua sendo o principal artigo. No ano passado, foram
      vendidos cerca de 8 milhões de "livros sagrados". Metade disto foi
      produzido pela Sociedade Bíblica do Brasil, que exporta para mais de
      30 países.

      Esse terreno fértil despertou também a atenção de multinacionais.
      Desde 1995, a americana Zondervan controla a Editora Vida, líder
      entre as empresas independentes com receitas de R$ 12,6
      milhões. "Vamos crescer 24% este ano", diz o pastor Eudes Martins,
      diretor-executivo da companhia. O número reflete uma estratégia
      agressiva que combina preços baixos e livros de encadernação simples
      mas muito bem cuidados, com até 300 páginas. Além disso, a editora
      também entrou firme na área de "auto-ajuda cristã", investindo em
      ícones como os americanos Philip Yancey e Rick Warren.

      Gospel. A música é outro filão que tem rendido bons dividendos. Até
      meados da década de 90, ninguém imaginaria que o Brasil seria varrido
      pelo fenômeno dos padres cantores. Nem mesmo que a música gospel se
      transformaria no terceiro gênero mais consumido, com uma fatia de
      14%, destronando o pagode e a música sertaneja, segundo pesquisa do
      Instituto Franceschini de Análise de Mercado. A porção evangélica
      movimenta R$ 100 milhões. E é nessa seara que desponta a Line
      Records, ligada à Igreja Universal do bispo Edir Macedo. Já ouviu as
      canções de Jamily, J. Neto ou Donizete? Pois saiba que eles estão na
      linha de frente do cast da gravadora, que vende 25 milhões de CDs por
      ano e fatura R$ 13 milhões.

      O casal Paulo Mauerberg Júnior e Ana Cristina, dono da Hpice, apostou
      no segmento de moda, há 10 anos, e não se arrependeu. Suas camisetas,
      almofadas e chaveiros com mensagens de louvor "Sou 100% Jesus" e a
      clássica "Deus é fiel" fazem sucesso entre os adolescentes. "Nossas
      vendas crescem 30% a cada ano", diz Júnior. Para 2003, a estimativa é
      faturar R$ 1,2 milhão. Fabricantes de instrumentos musicais também
      estão dançando no ritmo da onda evangélica. "Metade das vendas do
      setor é feita para os grupos gospel", conta Ney Nakamura, sócio da
      Marutec Music, que produz guitarras e baixos Tagima.

      Entretenimento, aliás, é uma área promissora no mercado cristão.
      Empresas e igrejas estão investindo pesado no licenciamento de
      personagens infantis. Um dos mais bem-sucedidos é o Smilinguido, da
      Associação das Igrejas do Cristianismo Decidido. A simpática
      forminguinha já estampa milhares de cadernos, agendas, bonés, toalhas
      e até mesmo latas de extrato de tomate. A personagem já atravessou as
      fronteiras do Brasil rumo aos EUA, Japão, além de países da América
      Latina e Oriente Médio. "Em novembro, lançaremos os gibis com a turma
      Smilinguido", diz Neide Regina Dahlke, que responde pelo marketing da
      entidade. A tiragem inicial será de 100 mil cópias. Diante de tanta
      sede de consumo, algumas potências do setor financeiro decidiram dar
      uma ajuda aos fiéis – e aos seus cofres também. O Bradesco e a Visa,
      por exemplo, lançaram cartões de afinidade em parceria com a
      Assembléia de Deus, a Convenção Batista Brasileira e a igreja
      Renascer. "As Igrejas foram as primeiras a enxergar o seu
      rebanho como um mercado consumidor. Agora é a vez dos empreendedores
      arriscarem seu capital", diz o pastor Eduardo Calissi, da EBF
      Eventos. Arriscar, na verdade, é uma força de expressão. A
      experiência demonstra que o lucro neste segmento é líquido e certo.
      Amém! [e]

      http://www.terra.com.br/istoedinheiro/314/negocios/314_legado_ceu.htm
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