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DISCRIMINAÇÃO da MULHER no PORTUGUES

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  • ro_magellan
    ... Este artigo é particulasrmente para o Conte e que gosta de discutir linguagem e, claro, para quem gosta de discutir questões de gênero. Pepe INDÍCIOS
    Message 1 of 1 , Mar 3, 2003
    • 0 Attachment
      --- Em TrotskyDebate@y..., "Pepe" <peprg@u...> escreveu



      Este artigo é particulasrmente para o Conte e que gosta de discutir
      linguagem e, claro, para quem gosta de discutir questões de gênero.

      Pepe


      INDÍCIOS DE DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MULHER NA LÍNGUA PORTUGUESA(*)


      José Lemos Monteiro
      jolemos@u...

      "molher se chama porq e molle" (Fernão de Oliveira, 1536:64)


      Introdução


      É ponto pacífico que há uma íntima relação ente língua e cultura,
      admitindo-se até que a língua não tem uma finalidade em si mesma,
      desde que só existe enquanto funciona como veículo e expressão da
      cultura de um povo.


      Tal relação, porém, é muito mais profunda do que se imagina. O
      próprio sistema lingüístico acompanha de perto a evolução da
      sociedade e reflete de certo modo os padrões de comportamento, que
      variam em função do tempo e do espaço. Assim se explicam os fenômenos
      de diversidade e até mesmo de mudança lingüística. E, inversamente, é
      possível interpretar que certas atitudes sociais ou manifestações do
      pensamento sejam influenciadas pelas características que a língua de
      uma dada comunidade apresenta.1


      É verdade que, quando se discute essa última hipótese, dificilmente
      se chega a um consenso. Mas, por outro lado, toda vez que se pretende
      mostrar que as línguas refletem as estruturas ou padrões sociais, os
      fatos que emergem como ilustração parecem irrefutáveis. Basta pensar
      na organização do léxico (enquanto o português, por exemplo, tem
      apenas uma palavra para neve, o esquimó tem várias) ou em fenômenos
      como o dos tabus lingüísticos.2


      Assim sendo, partindo dessa idéia tão simples de que a língua é um
      espelho da sociedade e de uma constatação tão óbvia de que a nossa
      cultura é extremamente machista, não nos será difícil encontrar
      indícios da discriminação contra a mulher enraizados na forma como as
      pessoas costumam usar o português. São alguns desses indícios que
      iremos alistar e analisar logo a seguir.



      As regras de concordância nominal


      Concorrendo dois ou mais substantivos de gêneros distintos, o
      adjetivo preferencialmente deve ir para o masculino plural. Por que
      não se dá o contrário ou por que não dispõe a língua portuguesa de um
      gênero indiferenciado que englobasse, em tais casos, tanto o
      masculino quanto o feminino?


      É lógico que essa questão não deve ser respondida de forma tão
      simplista. Se compararmos o inglês e o português, perceberemos que o
      comportamento do adjetivo não é igual nas duas línguas: em inglês é
      invariável e por isso, se relacionado a substantivos de gêneros
      distintos, não há como privilegiar o masculino. Mas só isto talvez
      não seja suficiente para concluir que os falantes nativos do inglês
      sejam menos machistas do que os falantes do português.



      A relação gênero e espécie


      Em português, em muitas situações, o masculino mantém com o feminino
      uma relação do tipo gênero e espécie. Assim, sob o aspecto do
      significado, pode-se entender que, enquanto o nome no masculino tem
      um sentido genérico, o do feminino quase sempre tem um sentido mais
      específico. É o que se verifica, por exemplo, no par fruto - fruta,
      em que o primeiro elemento é não-marcado. Ou seja: o masculino é
      visto como o termo mais geral ou abrangente, enquanto o feminino não
      passa de uma espécie de masculino. É por esse motivo que, numa frase
      do tipo "Todo homem é mortal", obviamente se interpreta que o lexema
      homem inclui as noções de masculino e feminino: é mortal qualquer
      homem e qualquer mulher. Se, pelo contrário, dissermos que toda
      mulher é mortal, a referência ao masculino estará necessariamente
      excluída. O fato é tão curioso que se usa o masculino até em
      enunciados do tipo "Aquela mulher está esperando um filho", mesmo na
      hipótese de se ter conhecimento prévio de que na realidade ela está
      esperando uma filha... E há expressões contraditórias como o ovo de
      pato, quando se sabe obviamente que o ovo é de pata...



      A ordem dos termos na frase


      Numa seqüência em que há um nome masculino e outro feminino, em geral
      enuncia-se em primeiro lugar o masculino: Adão e Eva, o rapaz e moça,
      o boi e a vaca, o galo e a galinha, os dias e as noites. De modo
      igual, quando se usam as fórmulas de saudação, é bem mais freqüente
      enunciar-se primeiro o homem: meus senhores e minhas senhoras, meus
      alunos e minhas alunas, e assim por diante. Sente-se o desvio quando
      um político diz "brasileiras e brasileiros" e fica-se até com a idéia
      de que, ao expressar-se assim, em última análise ele não tem só a
      intenção de privilegiar a mulher.



      A degradação semântica


      É bastante comum que determinados nomes referentes à mulher sofram
      degradação de sentido: rapariga, madame, puta, piranha. E isso
      decorre talvez do fato de se conceber a mulher como objeto sexual,
      facilmente sujeito a desvalorizar-se. É interessante mesmo observar
      que, comparando algumas expressões, pode-se perceber que o masculino
      não guarda tais conotações e, portanto, tem menos possibilidades de
      sofrer uma degenerescência semântica.


      A título de ilustração, enquanto homem público diz respeito a alguém
      que merece elogios por devotar-se aos interesses do povo, mulher
      pública se associa até com a cena de apedrejamento... Ou seja, quando
      se pensa em mulher, pensa-se não raro em sexo ou em depravação. É por
      isso que alguns adjetivos têm sentidos diversificados, conforme
      estejam determinando nomes masculinos ou femininos. Referir-se a um
      homem como honrado ou honesto alude a sua atividade nos negócios; já
      quando se diz que uma mulher é honrada ou honesta, a referência é
      feita ao comportamento sexual.3 Um homem bom é generoso ou de
      princípios nobres; uma mulher boa é a que tem um corpo provocante.


      Os exemplos na língua são incontáveis. Observemos como no feminino
      muitos substantivos ou adjetivos se traduzem por 'prostituta',
      enquanto no masculino têm outro significado. Citemos: aberto (homem
      que se dispõe ao diálogo) e aberta; aventureiro (viajante,
      desbravador) e aventureira; vadio ou vagabundo (homem que não
      trabalha) e vadia ou vagabunda; garoto de rua (menino pobre que vive
      na rua) e garota de rua; pistoleiro (aquele que é pago para matar) e
      pistoleira; dado (homem de bom trato) e dada; safado (indivíduo que
      não age corretamente) e safada. E assim indefinidamente...



      O registro nos dicionários


      Nos nomes, principalmente os adjetivos, que apresentam masculino e
      feminino, os dicionários costumam registrar só a forma do masculino.
      É evidente que, por uma questão de economia, não se deve esperar que
      funcionem como entradas de um dicionário todas as flexões de uma
      palavra.


      Pode-se argumentar que a opção pelo masculino se liga à convicção de
      ser ele a forma básica de onde se tira o feminino. Mas, se fosse o
      contrário, seria pouco provável que os dicionários mudassem de
      procedimento. Assim, por exemplo, muitos estudiosos da morfologia do
      francês entendem que, num par de adjetivos como petit - petite, é o
      feminino a forma básica de onde se tira o masculino, e não o
      contrário. E, apesar disso, os dicionaristas franceses continuam a
      considerar como entrada a forma do masculino.



      As expressões de insultos e ofensas


      Com freqüência, os insultos expressos por meio de palavrões aparecem
      no feminino, mesmo em referência a homens: "aquilo é um filha da
      puta" (às vezes adulterado até para fela da puta), "um filha da
      mãe..." É de notar, pois, a insistência com que os palavrões assumem
      formas femininas: por que não existem expressões pejorativas do
      tipo "filho do pai", "filho do puto" ou mesmo "filho de um cavalo" em
      vez de "filho de uma égua"? Muitas interjeições obscenas aparecem
      também no feminino: Boceta!; Pomba!; Puta que pariu!; Arre égua! E
      assim por diante...



      A freqüência de termos de conotação sexual


      Romaine (1994 ) comenta que no inglês há uma quantidade bem maior de
      termos relacionados à promiscuidade sexual feminina (220 palavras) do
      que a que se refere à promiscuidade masculina (apenas 20). Em
      português, se a quantidade não for ainda maior, não deve ser muito
      diferente. Basta dizer que o Dicionário Aurélio registra quase cem
      termos sinônimos de meretriz, sem nem de longe dar conta de todos os
      que se usam diariamente, e a maioria sugere conotações de deboche,
      desprezo ou obscenidade. Entre eles se encontram: rameira, bagageira,
      bagaxa, bruaca, catraia, cuia, culatrão, dadeira, frega, frincha,
      fuampa, jereba, marafaia, quenga, rongó, tronga, zabaneira, zoina
      etc. É curioso que para o verbete prostituto, logicamente forma
      masculina de prostituta, o mesmo dicionário apresenta apenas três
      sinônimos (desonrado, prostituído, aviltado), nenhum dos quais
      considerado chulo ou obsceno. E, ainda como prova de que ao feminino
      se atribuem conotações negativas sob o aspecto da sexualidade, o
      homossexual do sexo masculino é qualificado de efeminado. E aí o
      Aurélio, embora também esteja longe de esgotar o repertório,
      apresenta uma série bem sugestiva de termos depreciativos, muitos dos
      quais no gênero feminino, tais como: bicha, bichoca, bicharoca, bicha-
      louca, bichona, boneca, maricas etc. Estranhamente para nós, cita até
      mulherengo.


      As metáforas de nomes de animais


      Quando se usa metaforicamente um nome de animal em relação à mulher,
      a base das associações é o apelo ao sexo ou o intuito de destacar
      algum defeito ou valor negativo. Assim, por exemplo, em "ela é uma
      galinha, uma vaca, uma piranha, uma jararaca, uma baleia...". Já com
      relação ao homem, embora haja exemplos óbvios de depreciação, há um
      largo emprego de termos usados no sentido de ressaltar a força ou
      potência do macho: "ele é um touro, um tigre, um galo, um
      garanhão..."


      É curioso que, se um mesmo termo serve para simbolizar tanto o homem
      quanto a mulher, as conotações variam de positivas no masculino para
      negativas no feminino. A palavra cobra tanto ressalta a virulência de
      uma mulher ("ela é uma cobra") quanto enfatiza a inteligência ou
      sagacidade de um homem ("ele é cobra no assunto"). O mesmo se passa
      com fera ("ela é uma fera" em oposição a "os feras do vestibular"). A
      forma gato, aplicada a um homem, entre outras coisas sugere
      jovialidade e masculinidade; se dita em relação a uma mulher,
      significa "prostituta" ou "amante", pelo menos em alguns registros ou
      dialetos ("ela é o gato de fulano").


      É sintomático ainda que, com muita freqüência, quando se quer
      atribuir conotações pejorativas ao sexo masculino, se usem formas
      femininas de nomes de animas ("ele é uma égua, uma besta, uma lesma,
      uma preguiça, uma bicha..."). Vale ressaltar que, com relação a esse
      último exemplo, a forma masculina bicho apenas se refere a um animal
      qualquer, sem nenhum intuito de desprezo, ou pode carregar-se de
      valores afetivos no tratamento íntimo (falou, bicho!). Já a forma
      bicha (talvez mais intensamente no derivado bichona), revela pelo
      contrário uma forte aversão ou preconceito.


      Se refletirmos nas conotações de outras metáforas, do mesmo modo
      chegaremos à conclusão de que as formas do feminino em geral são
      usadas em referência a pessoas do sexo masculino quando existe uma
      intenção depreciativa. Por que se emprega cabra, às vezes reforçado
      na expressão cabra da peste, e não bode? Note-se, além disso, que não
      são apenas nomes designativos de animais femininos que são aplicados
      ao homem quando se quer depreciá-lo. Inúmeras formas femininas,
      usadas ou não com determinante masculino, produzem efeito semelhante
      ("ele é um banana, um maria-vai-com-as-outras, um pamonha, um goiaba
      etc.).



      O emprego de pronomes de tratamento


      Enquanto para o homem, tanto solteiro quanto casado, num tratamento
      cerimonioso se usa a forma o senhor, para a mulher existem as formas
      a senhora (se for casada) e a senhorita (se for solteira). Isto é, a
      forma de tratamento senhor é geral para todos os homens adultos e não
      indica estado civil, enquanto para marcar o estado civil da mulher
      adulta há necessidade do uso das palavras senhora e senhorita. Na
      Alemanha, em que se verifica uma situação análoga, muitas jovens hoje
      em dia rejeitam o tratamento fräulein.



      Os termos designativos de cargos ou profissões


      Diversos ofícios, cargos, ocupações ou profissões que a mulher
      atualmente exerce são designados no masculino. Se mulher deputada já
      não estranha tanto, apesar do risco das conotações decorrentes da
      possível colisão homonímica, evita-se dizer que uma jovem é soldada,
      pilota ou caba. Até formas como chefa, mestra ou presidenta, que não
      apresentam motivo algum para não serem usadas quando em referência a
      mulheres, são de vez em quando preteridas pelas do masculino.



      A anulação da identidade feminina


      O nome próprio é o primeiro e principal símbolo que identifica uma
      pessoa. Mas a mulher brasileira muitas vezes perde a sua própria
      identidade, passando a ser conhecida pelo nome do cônjuge. O fato de,
      ao casar-se, poder incorporar em seu nome o do marido revela seu
      estado de dependência ou a concepção de que passou a ser posse de
      alguém. Dificilmente se imagina que um homem adote o sobrenome de sua
      esposa...


      Mas não é só a adoção do sobrenome do marido que indicia a assimetria
      na relação conjugal. Freqüentemente, como se lê nas colunas sociais,
      a esposa é citada pelo nome do cônjuge: a Senhora Fulano de Tal. É o
      caso de lembrar que uma escritora brasileira se fez conhecida, pois
      assim assinava os livros que publicava, como Senhora Leandro Dupré.
      Posteriormente, talvez por ter-se dado conta de que existia como
      mulher, passou a assinar Maria José Dupré.



      As conotações de largura e tamanho


      Pode-se supor que certas conotações de maior largura estejam
      associadas ao feminino, enquanto a referência às formas do masculino
      expressaria as noções opostas. Ora, se bem que isso esteja sujeito a
      variações, em nossa cultura o senso de proporções é a base do
      conceito de beleza plástica. Um objeto muito largo parece disforme,
      quando não chega a ser grotesco.


      Pois bem: embora se devesse esperar o contrário, em português há
      muitos pares de nomes em que a terminação do feminino funciona como
      uma espécie de sufixo aumentativo, sugerindo a noção de maior largura
      com um certo matiz de desdém face à forma do masculino. Seria mais
      uma prova de sexismo na língua portuguesa, desde que as formas
      femininas se opõem às do masculino na base de conotações negativas.


      A título de ilustração, constatemos que uma caneca é sempre
      visualizada como mais larga do que um caneco; um tampo relativamente
      é menor do que uma tampa; uma barca é bem mais larga do que um barco;
      uma sapa é mais acachapada do que um sapo; um chinelo se imagina como
      menos aberto ou talvez mais aristocrático do que uma chinela (com
      esta se mata uma barata...); um bolso não tem a largura de uma bolsa;
      um cinto é mais elegante e mais estreito do que uma cinta; numa bacia
      cabe mais água do que num bacio; uma braça vale pela extensão de dois
      braços; uma saca sempre se imagina cheia, enquanto o saco parece mais
      estreito; num jarro se colocam flores e, se pensarmos na oposição de
      conteúdos, uma jarra deve ser cheia de água; um ovo não tem a
      depreciação de uma ova, tanto que a frase feita é uma ova designa
      algo que não presta. Mas talvez onde mais o feminino indica noções
      pejorativas é no par fosso / fossa (o fosso dá idéia de profundidade,
      a fossa é menos profunda e tem uma função não muito nobre...). Aliás,
      não deve ser por simples acaso que o vocábulo privada também seja do
      gênero feminino...


      As associações não param nesses exemplos. Conotações análogas se
      percebem em maior ou menor grau com os pares cesto / cesta, horto /
      horta, poço / poça (de novo: o poço é profundo, a poça é
      superficial), mato / mata, quadro / quadra, ponto / ponta, porto /
      porta, sapato / sapata, tamanco / tamanca, copo / copa, etc. Note-se
      que, referindo-se a Jesus Cristo, dizemos o manto de Cristo, e não a
      manta. E, como metonímia para a cruz, dizemos o madeiro. A forma do
      feminino madeira não tem evidentemente as mesmas conotações. De modo
      igual, faz-se também referência à cruz mediante o vocábulo lenho.
      Seria quase blasfêmia empregar no caso lenha.


      Aliás, o fato de ser o morfema /a/ usado para marcar diferenças de
      dimensão entre o masculino e o feminino tem sido interpretado por
      alguns lingüistas, entre os quais Lang (1990), como se essa
      desinência funcionasse como um verdadeiro sufixo aumentativo. Mas,
      curiosamente, os derivados com o sufixo /-dor/ parecem manter essa
      distinção. Assim, secador e secadora se distinguem pela noção de
      tamanho ou forma, menor para o masculino, maior para o feminino.
      Parece ser esta a razão da escolha entre as formas feminina e
      masculina do sufixo na produção de um derivado. Por isso, tem-se
      abridor (objeto pequeno) e lavadora (máquina de lavar). Acrescentamos
      que o morfema /a/ pode igualmente sugerir a idéia de coletivo, nas
      oposições feminino e masculino, em que este expressa a noção de
      unidade. É o que se percebe, por exemplo, nos pares o galho / a
      galha, o grito / a grita, o mato / a mata ou, de certo modo, em o
      lenho / a lenha.


      Se quisermos estender o raciocínio, constataremos que a noção de
      maior largura ou tamanho também está presente na forma feminina
      quando se aplica o mecanismo derivacional: muralha, por oposição a
      muro, montanha face a muro etc.


      A marca de feminino nos derivados apreciativos


      Observando a formação de hipocorísticos, constatamos que é prática
      comum usar a forma feminina de um sufixo diminutivo para referentes
      do sexo masculino. Citemos alguns exemplos: Zeca, Zequinha, Juca,
      Juquinha (de José); Pedroca (de Pedro); Manduca, Manduquinha, Neneca,
      Manoca, Manuca (de Manuel); Toca, Tota, Tonca, Tuca (de Antônio);
      Duduca, Duquinha, Dudoca (de Eduardo); Tutuca, Tuca, Tuquinha (de
      Artur); Tibica (de Tibério); Serjuba, Sergiba, Serjoca, Serjota (de
      Sérgio). Por que não se diz Zeco, Zequinho, Juco, Juquinho etc.? Por
      vezes, a marca do feminino também aparece sem ser no sufixo: Bena
      (Benedito), Tetéia (Marcelo), Mansa (Mansueto), Tutúia (Catulo),
      Santa (Santiago) etc.


      De modo análogo, determinados adjetivos masculinos que aludem a
      alguma deficiência de percepção ou de capacidade mental finalizam
      por /a/: boboca, babaca, babeca, panaca, lorpa, babaquara, biroba,
      pateta, etc. Por que não boboco, babaco ou pateto? Seria uma
      conseqüência do sexismo na língua portuguesa? Tudo leva a crer que
      sim. A terminação /a/, em geral marca do feminino, seria aplicada a
      referentes masculinos, sempre que houvesse o intuito de atribuir-lhes
      valores considerados do sexo feminino (fragilidade, ingenuidade etc.)
      pela cultura machista. Romaine (1994) enfatiza a observação de que a
      mulher é sempre vista como o sexo frágil, o segundo sexo. Daí, a
      conotação de afetividade presente nos hipocorísticos termina sendo
      contaminada pelas noções de inferioridade e fragilidade.



      A formação de nomes próprios femininos


      Não se estudou ainda devidamente o processo de formação dos nomes
      próprios. Uma questão relevante seria, por exemplo, a de saber quando
      o primitivo é o masculino ou o feminino. Diante de um par como José /
      Josefa, não temos dúvidas de que o feminino é tirado do masculino.
      Mas, se pensarmos em Sandra / Sandro, já cremos que o feminino é que
      é a forma primitiva. Por outro lado, vale notar que em muitos caos se
      opera um bloqueio, havendo nomes que só possuem masculino (Guilherme,
      Rodrigo, Meton), ao lado de outros que são exclusivamente femininos
      (Ana, Margarida, Violeta). Às vezes, porém, quando parece existir
      esse bloqueio, a formação do feminino se processa mediante um sufixo
      que coincide com o formador de diminutivos: Ernesto > Ernestina,
      Guilherme > Guilhermina, Leopoldo > Leopoldina, Adolfo > Adolfina,
      Pedro > Pedrina, César > Cesarina, Alfredo > Alfredina. A idéia de
      pequenez ou de inferioridade passa então a se tornar implícita nesses
      prenomes.



      Os provérbios e ditos


      Os indícios de discriminação contra a mulher podem também ser
      inferidos de frases feitas, em que se ressaltam vários preconceitos.
      Um deles é o que atribui à mulher um nível de inteligência mais baixo
      que o do homem: "Cabelos longos, idéias curtas".4 Outro se refere à
      falta de habilidade para dirigir: "Mulher no volante, perigo
      constante". E, se pararmos para recordar, encontraremos inúmeros
      outros ditos que expressam uma imagem desvalorizada da mulher.



      Considerações finais


      Diante de fatos como esses, há uma corrente ligada ao movimento
      feminista que luta para que se opere uma mudança nos hábitos
      lingüísticos, prevendo-se que com isso o comportamento social também
      mudará. Nesse sentido, várias tentativas já foram esboçadas,
      principalmente para o inglês. A título de ilustração, Romaine (1994)
      informa que na Inglaterra se publicou a primeira Bíblia não sexista,
      em cujo texto os revisores modificaram sistematicamente as expressões
      tais como any man por anyone. Ficou também famoso o eslogan Deus é
      negra, em que a forma feminina do predicativo ataca de uma só vez
      dois preconceitos: a divindade é em nossa cultura personificada como
      um ser do sexo masculino e de raça branca.


      As feministas partem do pressuposto de que as línguas ocidentais
      foram literalmente feitas para o homem e ainda continuam sob o
      controle masculino. Por isso, só uma reforma radical é capaz de criar
      uma situação em que as mulheres não sejam obrigadas a usar uma
      linguagem que as obrigue a expressar-se como se fossem machos
      deficientes. Ou seja, segundo essa concepção, a liberação da mulher
      requer uma liberação lingüística (Romaine, 1994).


      O assunto não deixa de ser polêmico. Se as feministas pregam que a
      transformação da sociedade não deve prescindir de um esforço
      deliberado de mudança lingüística, há por outro lado quem não veja
      qualquer resultado em tais tentativas. Assim se expressa Fernández:


      No que se refere ao sexismo, não há lugar para equívoco: se a língua
      é sexista, é porque a cultura é sexista. Deve-se, pois, eliminar o
      mal, atacando a sua causa, e não a sua conseqüência. Tão absurdo é
      buscar a liberação da mulher alterando as línguas naturais, como
      tentar secar uma superfície, sem desviar ou cortar o fluxo de água
      que corre por ela.5


      E o autor prossegue qualificando como pouco frutífera esta linha de
      investigação, assinalando que ela parte de pressupostos absolutamente
      errôneos e, o que é mais grave, tenta manipular critérios
      lingüísticos para deixar patente a necessidade de mudanças que, em si
      mesmas, só podem produzir-se através da língua. E conclui:


      No dia em que as sociedades mudarem, as línguas também o farão com
      toda a naturalidade.6


      Aliás, Fernández não aceita a idéia de que a linguagem seja sexista.
      Para ele, afirmar isso é o mesmo que sustentar que uma língua é
      regionalista, porque nela se observam diferenças dialetais. As
      diferenças entre a fala dos homens e a das mulheres, bem como as
      variações de ordem diatópica ou diacrônica, não implicam que a língua
      seja necessariamente um instrumento de opressão sexual, geográfica ou
      histórica.


      Seja como for, os fatos por nós apresentados permitem concluir que,
      se os padrões sociais se refletem na língua, o português não oferece
      o mesmo tratamento para as noções de masculino e feminino. Se tais
      fatos não nos inquietam, ou os julgamos plenamente aceitáveis ou
      admitimos que nada podemos fazer contra eles. Mas, pelo menos,
      devemos reconhecê-los, a fim de sabermos um pouco mais acerca da
      configuração de nossa língua.



      Referências bibliográficas


      BAYLON, Christian (1991). Sociolinguistique; Société, langue et
      discours. Poitiers, Nathan. 304 p.
      BOYER, Henri (1991). Eléments de sociolinguistique. Paris, Dunod. 147
      p.

      COULTHARD, M. (1991). Linguagem e sexo. São Paulo, Ática.

      FERNÁNDEZ, F. Moreno (1988). Sociolingüística en EE.UU. (1975-1985).
      Guía bibliográfica crítica. Málaga, Editorial Librería Ágora. 166 p.

      FERREIRA, Aurélio B. de H. (1986). Novo dicionário da língua
      portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1.838 p.

      KASSAÏ, Georges (1988). La différence sexuelle dans le langage et ses
      interpretations. In: Contrastes - La différence sexuelle dans le
      langage (Actes du Colloque de l'Association pour le Développement des
      Etudes Contrastives). Université Paris III, pp. 3-10.

      LANG, Mervyn F. (1990). Formación de palabras en español. Madrid,
      Cátedra. 323 p.

      MESEGUER, Álvaro García (1994). Es sexista la lengua española? Una
      investigación sobre el género gramatical. Barcelona, Buenos Aires,
      México, Paidos. 254 p.

      OLIVEIRA, Fernão de (1536). Grammatica da lingoagem portuguesa. 3ª
      ed. prep. por Rodrigo de Sá Nogueira, seguida de um estudo e de um
      glossário de Aníbal Ferreira Henriques. Lisboa, José Fernandes Jr.,
      1933. 142 p.

      ROMAINE, Suzanne (1994). Language in Society - An Introduction to
      Socio-linguistics. Oxford, Oxford University Press, 1994. 235 p.
      SCHILIEBEN-LANGE, Brigitte. Iniciación a la sociolingüística. Madrid,
      Gredos, 1977.

      THORNE, Barrie & HENLEY, N. (eds.)(1978). Language and sex: diference
      and dominance. Massachusetts, Newbury House Publ.
      TRUDGILL, Peter (1979). Sociolinguistics; an Introduction. Great
      Britain, Penguin Books. 189 p.

      WARDHAUGH, Ronald (1993). An Introduction to Sociolinguistics. 2a.
      ed. Oxford / Cambridge, Blackwell. 400 p.


      * Fonte - MONTEIRO, José Lemos. Indícios de discriminação contra a
      mulher na Língua Portuguesa. In: Letras. Campinas. 19 (1/2): 17-28,
      2000.


      1. Essa é a hipótese de Sapir-Whorf, cuja explicação e fundamentação
      pode ser lida em inúmeros autores. Veja, só a título de citação,
      Kassaï (1988) e Schilieben-Lange (1977).


      2. Para um estudo mais detido do assunto, podemos mencionar, entre
      outros, os manuais de Trudgill (1979) e Wardhaugh (1993).


      3. O mesmo fato foi observado no espanhol por Meseguer (1994).


      4. Este dito, com todo o preconceito que encerra, não deve existir
      somente na língua portuguesa, já que é atribuído a Schopenhauer.
      Aliás, outros pensadores e escritores definiram a mulher de forma
      extremamente preconceituosa. Eis algumas dessas definições: "A mulher
      é um demônio sumamente aperfeiçoado" (Victor Hugo). "A mulher é um
      macho imperfeito" (Aristóteles). "A mulher é o que em nós resta do
      macaco" (Strindberg). "As mulheres acertam tudo; só erram quando
      refletem um pouco" (Karr).


      5. Pero, en lo que se refiere al sexismo, no hay lugar para el
      equívoco: si el lenguaje es sexista, es porque la cultura es sexista.
      El mal, pues, se sana atacando a su causa, no a su consecuencia. Tan
      absurdo es buscar la liberación de la mujer alterando las lenguas
      naturales, como intentar secar una superfície, sin desviar o cortar
      el chorro de agua que la está mojando (Fernández 1988:150).


      6. Cuando las sociedades cambien, las lenguas del mundo lo harán con
      toda naturalidad (Fernández, 1988:150).


      FONTE - MONTEIRO, José Lemos. Indícios de discriminação contra a
      mulher na Língua Portuguesa. In: Letras.
      Campinas. 19 (1/2): 7-28, 2000.
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