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#7001 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Dec 8, 2009 3:13 pm
Subject: Leila Lopes:"Eu nao me suicidei, eu parti para junto de Deus."
jocaxx
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Família divulga trechos de carta deixada por Leila Lopes

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#7000 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Dec 8, 2009 11:45 am
Subject: Missionario devorado
jocaxx
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08/12/2009 - 08h01

Descendentes de canibais pedem perdão a família de missionário devorado

Briony Leyland 
Em Erromango
Os herdeiros de um homem que foi devorado por canibais em uma pequena ilha do Pacífico há 170 anos voltaram pela primeira vez ao local da morte de seu ancestral para fazer parte de uma singular cerimônia de reconciliação.

O ritual se deu na pequena ilha de Erromango, uma das ilhas que compõem a nação de Vanuatu, onde em 1839 os indígenas mataram e devoraram o reverendo John Williams, um dos mais reconhecidos missionário de seu tempo, e seu colega James Harris.
  • Ahmad Al-Rubaye/ AFP

    Parentes de John Williams participam de cerimônia de reconciliação na ilha de Erromango, Vanuatu



Desde então os nativos crêem ser vítimas de uma "maldição", que querem desfazer agora que o catolicismo é cada vez mais forte na ilha.

"O povo de Erromango sempre teve sobre si o peso de ter matado um missionário. Eles acham que foram amaldiçoados e é por isso que essa reconciliação é tão importante", disse à BBC o presidente de Vanuatu, Iolo Johnson Abbil.

"Desde que passamos a nos considerar como um país cristão, era necessário que Erromango passasse por isso." 

Canibalismo
Em 1816, aos 20 anos de idade, John Williams abraçou a vida de missionário dedicando-se à catequização de indígenas da Polinésia sob os auspícios da Sociedade Missionária de Londres.

Dedicou-se à atividade por mais de duas décadas. Em sua última viagem, ele aportou em 1839 a bordo do navio Camden na baía de Dillons, no arquipélago a mais de 1,5 mil quilômetros a leste da Austrália que ainda viria a se tornar Vanuatu.

Ali, dias antes, nativos de Erromango haviam sido mortos por comerciantes europeus de sândalo. Em meio à hostilidade, os dois foram mortos e canibalizados pelos nativos, assim que puseram os pés em terra.

"Harris, que estava mais adiante, foi abatido a clavas e morto. John Williams se virou e tentou correr para o mar. Eles o alcançaram na costa. Ele também foi abatido, atingido por uma flecha e morreu nas águas rasas", contou um dos descendentes do missionário, Charles Milner-Williams, 65.

O antropólogo Ralph Regenvanu, membro do Parlamento de Vanuatu e um dos que propuseram a reconciliação, disse que os homens provavelmente foram mortos porque representavam a "incursão" do homem branco na terra indígena.

"O canibalismo era praticado de forma de ritual e considerada uma atividade sagrada. Muitas vezes era uma maneira de derrotar uma ameaça, de absorver o poder do inimigo", disse o antropólogo.

"John Williams pode ter sido morto e devorado porque representava essa ameaça, essa incursão da civilização europeia que estava chegando a Erromango naquela época."

Reconciliação
Na cerimônia de reconciliação, à qual compareceram 18 descendentes do missionário Williams, a morte dos dois homens foi reencenada. Dezenas de descendentes dos moradores de Erromango à época fizeram fila para pedir o perdão da família.

Como demonstração de afeto e respeito, a baía de Dillons, onde ocorreu o incidente, foi renomeada de baía de Williams. "A reconciliação é parte da nossa cultura. Pedir perdão é uma parte do cerimonial, mas não a única", disse Regenvanu. "A reconciliação requer algo de ambos os lados, há sempre o elemento da troca."

A família de Williams concordou em amparar a educação de uma garota de sete anos de idade, que foi ritualmente "entregue" à família como compensação pela perda do missionário.

Para o parente de Williams, Charles, o ritual foi emocionante. 
"Vim sem saber o que esperar e saio, curiosamente, com minha fé restaurada e me sentindo renovado", afirmou Milner-Williams, que vive em Hampshire, no sul da Inglaterra.

"Pensei que após 170 anos eu não sentiria nenhuma emoção, mas a pureza dos sentimentos, o arrependimento genuíno e a tristeza, de partir o coração, foram bastante tocantes."

#6999 From: "Jocax" <jocax@...>
Date: Sun Dec 6, 2009 4:17 pm
Subject: Infeccao memetica: a influencia do grupo
jocaxx
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Folha de São Paulo, domingo, 06 de dezembro de 2009



O vírus da obesidade

Para cientistas, ela se espalha de maneira contagiosa; o mesmo vale para
felicidade, solidão e até hábitos sexuais

RICARDO MIOTO
DA REPORTAGEM LOCAL

É cruel: se você quer emagrecer, talvez o melhor a fazer seja dizer aos seus
amigos gordos que fiquem longe. Porque um único grande amigo gordo aumenta em
57% as suas chances de engordar, segundo os cálculos de cientistas sociais
americanos. A obesidade, dizem, espalha-se de maneira tão contagiosa quanto um
vírus.
Não só ela, na verdade. O mesmo acontece com a felicidade, a agressividade, o
hábito de fumar, a solidão.
Alguns exemplos podem ser até chocantes. Quando surge entre uns poucos
adolescentes populares a noção de que o sexo oral é socialmente aceitável, é
provável que o hábito se espalhe rápido entre os outros, dizem Nicholas
Christakis e James Fowler, cientistas sociais de Harvard e da Universidade da
Califórnia, respectivamente.
Justamente pelo fato de as pessoas serem influenciáveis, suas decisões não são
sempre racionais. Comportamentos são adotados só porque todo mundo os adota
também. Os economistas erraram, diz a dupla, que está lançando um livro sobre o
assunto no Brasil -"O Poder das Conexões", pela editora Campus-Elsevier.

Você engorda, eu engordo
"Os economistas acham que as pessoas têm desejos e então tentam maximizá-los.
Mas de onde surgem os desejos? Por que você quer uma BMW e não uma Mercedes?
Eles vêm, com frequência, de outras pessoas. Somos influenciáveis. Tentar
entender grupos entendendo apenas os indivíduos é estúpido", diz Christakis.
Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que as conexões sociais fossem
poderosas. É óbvio que humanos são, de alguma maneira, influenciados por quem
está ao redor. Mas não se sabia que era tanto -e nunca foi possível calcular
algo assim. Como quantificar?
O ideal seria acompanhar um grupo grande de pessoas que se relacionassem ao
longo de décadas. Aí, observar como tendências surgiam e se espalhavam dentro
dele.
Christakis achou algo assim em 2002, em um cidade americana cheia de brasileiros
-gente de Governador Valadares (MG), em especial.
Trata-se de Framingham, em Massachusetts, hoje com pouco mais de 60 mil
habitantes. Desde 1948 pesquisadores preenchem, ano após ano, um monte de
formulários sobre como anda a vida de boa parte deles. Queriam saber desde peso
até hábitos alimentares. Mais de 15 mil pessoas de três gerações já
participaram.
A ideia, inicialmente, era estudar quais hábitos propiciavam doenças cardíacas.
Mas os pesquisadores tinham medo de que as pessoas mudassem de endereço, fazendo
com que não pudessem mais ser encontradas. Por isso, pediam a todos que
fornecessem os nomes dos seus amigos mais próximos, que poderiam dizer onde é
que eles tinham se metido.
O que Christakis percebeu, portanto, é que, mesmo que não tenha sido projetado
para isso, o estudo era um banco de dados perfeito para saber como certas
características se espalhavam entre as pessoas ao longo do tempo.
Na análise, descobriram que um amigo obeso aumenta em 57% as suas chances de
também ficar gordo. Mesmo amigos magros com conhecidos gordos influenciam seu
peso.
Como em 1948, quando os dados começam, existiam bem menos gordos nos EUA, é
possível perceber a epidemia da obesidade surgindo. Fica nítido, dizem os
cientistas, que as pessoas engordam em grupos. Um piscar de olhos e todo um
círculo social fica pesado.
Isso acontece porque são as pessoas mais próximas a você que criam a sua noção
de normal e de bizarro.
Ou seja, amigos de gordos não ficam gordos porque comem junto com eles. Ganham
peso porque, influenciados, aos poucos passam a parar de ver problemas em se
alimentar mal nas suas próprias casas.
O contrário também é válido: vire uma modelo, mude de amizades e entre em um
mundo repleto de magreza. Qualquer dobra mínima na barriga vai parecer uma
questão de vida ou morte -você fará um enorme esforço para acabar com ela.

Tristeza não tem fim?
Aos poucos, Christakis e Fowler foram percebendo que as suas conclusões não
valiam apenas para a obesidade. A felicidade, por exemplo, também foi estudado
pela dupla. Cada amigo feliz aumentava em 15% a chance de que alguém também se
declarasse feliz.
A infelicidade, claro, também é contagiosa. Tenha, então, uma meia dúzia de
amigos tristes e será improvável que você consiga sorrir muito.
O ambiente ao redor, então, é fundamental para moldar o que alguém é. Ao ser
questionado se isso faz com que os genes não sejam tão importantes, Christakis
diz que não.
"Pode haver uma base genética mesmo para a quantidade de amigos que você tem ou
para o quanto você está no centro da sua rede social. Algumas pessoas nascem
tímidas e outras muito sociáveis, por exemplo."

#6998 From: "Ade.Reis" <zenartez@...>
Date: Sun Dec 6, 2009 2:28 am
Subject: Re: Repensando o Big Bang
zenartez
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Amigo,
Eu penso que não houve ou só exista um big-bang, mas que ele acontece o tempo inteiro em todas as dimensões  e direções assegurando assim a expansão infinita do Universo.

Paz & Bem, Ade
 RADEIR  http://radeir.blogspot.com/
ARTE VIDA POESIA  http://zemartez.blogspot.com/ 
...CANTA'RES...   -  http://avosc2009.blogspot.com/

                   
 

--- Em seg, 30/11/09, Jocax <jocax@...> escreveu:

De: Jocax <jocax@...>
Assunto: [Genismo] Repensando o Big Bang
Para: "Genismo" <Genismo@yahoogroups.com>
Data: Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009, 16:34

 

Folha de São Paulo, domingo, 29 de novembro de 2009





+Marcelo Gleiser

Repensando o Big Bang


A interpretação sobre o que é a expansão do cosmo está mudando


Imagino que a maioria dos leitores de desta coluna esteja familiarizada com a ideia do Big Bang, a explosão que marca o início do tempo, o início da expansão cósmica que, pelo que sabemos, continua firme e forte até hoje. Porém, quando começamos a pensar seriamente na questão do início de tudo, surgem tantas dúvidas e confusões que é bom revisitá-la de tempos em tempos.
Antes de mais nada, o que significa expansão do Universo? Quando Edwin Hubble descobriu que as galáxias estavam se afastando umas das outras em 1929, a interpretação mais imediata era que o Universo estava em expansão. Quando mencionamos que a expansão é uma consequência do Big Bang, é muito comum pensar numa espécie de explosão, com as galáxias voando pelo espaço como detritos.
Na verdade, a expansão do Universo não é isso; quem expande, ou estira como uma tira de elástico, é o próprio espaço. As galáxias são carregadas pela expansão como se fossem rolhas boiando num rio. Quando olhamos em torno, vemos que todas as galáxias se afastam umas das outras. Não existe um centro da expansão, como no caso de uma explosão. De outra manteira, existiria um centro do Universo, um ponto mais especial do que os outros. Mas esse ponto não existe.
O cosmo é muito democrático: todos os pontos são iguais. Mas o que causou o Big Bang?
Esta questão, que tradicionalmente era relacionada com a questão da "Primeira Causa", também foi revisada nos últimos anos. Até meados da década de 1980, era comum pensar que o Big Bang marcava o estágio inicial da expansão cósmica, uma época no passado remoto onde o cosmo era tão quente e denso que a matéria estava dissociada nos seus componentes mais básicos, as partículas elementares. Partindo disso, é de se esperar que a matéria à altas pressões e temperaturas expanda; ou melhor, que ela tenha provocado a expansão do espaço.
Quando se perguntava "Mas o que causou este estado inicial?", a resposta era meio vaga: a teoria que usamos para descrever o Universo, a teoria da relatividade geral de Einstein, não funciona nesses momentos iniciais.
Precisamos de uma nova teoria, que seja aplicável nessas condições extremas. Isto continua sendo verdade: não temos uma teoria quântica para explicar a gravidade. Mas a interpretação do Big Bang mudou.
Segundo as teorias atuais, o Universo passou por uma fase de expansão extremamente rápida, mais rápida do que a velocidade da luz. Isso é possível com a geometria do espaço, mesmo que a matéria não possa viajar mais rápido do que a luz. E o que causou essa expansão? Acredita-se que tenha sido um "campo escalar", um tipo de matéria hipotético que tem a incrível propriedade de provocar esse tipo de comportamento. Pode parecer mágica, mas não é.
Campos escalares são muito plausíveis. Por exemplo um de seus primos chamado campo de Higgs poderá ser descoberto em 2010 ou 2011 no LHC, o grande acelerador de partículas na fronteira da Suíça com a França.
Quando está fora de sua posição de equilíbrio, feito uma bola rolando uma ladeira, esse campo gera a expansão ultra-rápida do espaço. Ao descer, sua energia e pressão alimentam a expansão cósmica. Chegando perto do fim, o campo libera sua energia explosivamente, criando um mar de partículas de matéria. (O truque vem de E=mc2, que diz que é possível converter energia em matéria.)
O processo violento em que a matéria surge desse campo é como a maioria dos físicos hoje interpreta o Big Bang. Em outras palavras, o Big Bang não foi o começo de tudo! Mas então o que foi? Disso, falamos numa outra semana.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"




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#6997 From: Jocax <jocax@...>
Date: Thu Dec 3, 2009 10:52 am
Subject: Aprendizagem forma sinapses
jocaxx
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JC e-mail 3902, de 02 de Dezembro de 2009.

*22. Aprendizagem forma sinapses*


Novas conexões entre neurônios começam a se formar logo após o
aprendizado de uma nova tarefa, indica estudo publicado no domingo
(29/11) no site da revista Nature

A pesquisa envolveu observações detalhadas do processo de alteração nas
ligações nervosas em animais que ocorre no cérebro durante a
aprendizagem motora. Os pesquisadores estudaram camundongos que foram
condicionados a se deslocar por uma passagem em uma gaiola para alcançar
sementes.



Foi observado um rápido crescimento das sinapses, as estruturas que
formam conexões entre neurônios no córtex motor, a parte do cérebro que
controla os movimentos musculares.



"Verificamos uma formação robusta e quase imediata de sinapses, menos de
uma hora após o início do condicionamento", disse o coordenador da
pesquisa Yi Zuo, professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz,
nos Estados Unidos.



O grupo de Zuo observou a formação de estruturas chamadas espinhas
dendríticas que crescem em neurônios piramidais (grandes células que
ligam as camadas do cérebro) no córtex motor.



As espinhas dendríticas formam sinapses com outras células nervosas.
Nessas sinapses, os neurônios piramidais recebem sinais de outras
regiões do cérebro envolvidas na memória motora e nos movimentos dos
músculos. Os cientistas verificaram que o crescimento de novas espinhas
dendríticas foi seguido pela eliminação seletiva de espinhas
pré-existentes, de forma que a densidade geral das espinhas retornou ao
nível original.



"Trata-se de um processo de remodelagem por meio do qual as sinapses que
se formam durante o aprendizado se consolidam, enquanto outras se
perdem. A aprendizagem motora imprime uma marca permanente no cérebro.
Quando aprendemos a andar de bicicleta, por exemplo, uma vez que a
memória motora é formada, não esquecemos o que foi aprendido. O mesmo
ocorre quando um camundongo aprende uma nova habilidade motora: o animal
aprende como fazer e não esquece mais", explicou Zuo.



Comprender a base da formação de memórias de longo prazo é um desafio
importante para a neurociência, com implicações no desenvolvimento de
terapias que possam auxiliar pacientes na recuperação de habilidades
perdidas em acidentes ou em derrames.



"Iniciamos nosso estudo com o objetivo de entender melhor os processos
que ocorrem após um acidente vascular cerebral, quando os pacientes têm
que reaprender a fazer determinadas atividades. Queremos descobrir se há
algo que podemos fazer para acelerar o processo de recuperação", disse Zuo.



O artigo "Rapid formation and selective stabilization of synapses for
enduring motor memories", de Yi Zuo e outros, pode ser lido por
assinantes da Nature em www.nature.com <http://www.nature.com/>

(Agência Fapesp, 2/12)

#6996 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Dec 1, 2009 12:02 pm
Subject: The Jocaxian Nothingness [Nada Jocaxiano]
jocaxx
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II.3 – The Jocaxian Nothingness [Nada Jocaxiano]

João Carlos Holland de Barcellos
translated by Debora Policastro



The “Jocaxian Nothingness” (JN) is the “Nothingness” that exists. It is a physical system devoid not only of physical elements and physical laws, but also of rules of any kind. [1]

In order to understand and intuit JN as an “existent nothingness”, we can mentally build it as follows: we withdraw all the matter, energy and the field they generate from the universe. Then we can withdraw dark energy and dark matter. What is left is something that is not the nonexistent. Let us continue our mental experiment and suppress elements of the universe: now, we withdraw physical laws and spatial dimensions. If we do not forget to withdraw anything, what is left is a JN: an existent nothingness.

JN is different from the Nothingness we generally think of. The commonly believed nothingness, which we might call “Trivial Nothingness” to distinguish it from the JN, is something from which nothing can arise, that is, the “Trivial Nothing” follows a rule: “Nothing can happen”. Thus, the “Trivial Nothingness”, the nothingness people generally think of when talking about “nothingness”, is not the simpler possible nothingness, it has at least one restriction rule.

Jocax did not define the JN as something in which nothing exists. Such definition is dubious and contains some contradictions as: “If in the nothingness nothing exists, then, nothingness itself does not exist”. No. First, Jocax defined what it means to exist: “Something exists when its properties are fulfilled within reality”. Therefore, JN has been defined as something that:

1-     Has no physical elements of any kind (particles, energy, space, etc.)

 

2-     Has no laws (mainly the law embedded in “Trivial Nothingness”).

Being so, JN could have physically existed. JN is a construction that differs from the “trivial nothingness” since it does not contain the rule “Nothing can happen”. That way, Jocax liberates his JN from semantic paradoxes like: “If it exists, then it does not exist” and claims that this nothingness is SOMETHING that could have existed. That is, JN is the simpler possible physical structure, something like the minimal state of nature. And also the natural candidate for the origin of the universe.

We must not confuse the definition of the NJ with rules to be followed. It is only the declaration of a state. If nature is in the state defined by conditions 1 and 2 above, we say it is a “Jocaxian-Nothingness”. The state of a system is something that can change, differently from the rule that must be followed by the system (otherwise it would not be a rule). For example, the state “has no physical elements”; it is a state, not a rule because, occasionally this state may change. If it was a rule it could not change (unless another rule eliminated the first one).

Being free of any elements, JN does not presume the existence of any existing thing but its own and, by the “Occam’s Razor” [2], it must be the simpler state possible of nature, therefore with no need for explanations about its origin. JN, of course, does not currently exist, but may have existed in a distant past. That is, JN would be the universe itself – defined as a set of all existing things – in its minimal state. Thus we can also say the Universe (being a JN) has always existed.

JN, as well as everything that can be understood by means of logic, must follow the tautology: “it may or may NOT happen”. This tautology – absolute logical truth – as we shall see, has also a semantic value in JN: it allows things to happen (or not).

We cannot say that events in the JN must necessarily occur. Eventually, it is possible that nothing really happens, that is, JN may continue “indefinitely” (time does not exist in a JN) without changing its initial state and with no occurrences. But there is a possibility that random phenomena can derive from this absolute nothingness. This conclusion comes logically from the analysis of a system without premises: as JN, by definition, does not have laws, it can be shaped as a logical system WITHOUT PREMISES.

We shall interrupt a little in order to open up an explanatory digression. We are dealing with two types of “Jocaxian-Nothingness”: the physical object named “JN”, which was the universe in its minimal state with the properties described above; and the theory which analyses this object, the JN-Theory. The JN-Theory, the theory about the JN-object (this text), uses logical rules to help us understand the JN-Object. But JN-object itself does not follow logical rules, once there are no laws it must obey. Nevertheless, I do not believe we will let possibilities to JN-object escape if we analyze it according to classic logic. However, we must be aware that this logical analysis (JN-Theory) could maybe limit some potentiality of JN-Object.

Within a system without premises, we cannot conclude that something cannot happen. There are no laws from which we can draw this conclusion. That is, there is no prohibition for anything to happen. If there is no prohibition for anything to happen, then, eventually, something may happen. That is, the tautological logics remain true in a system without premises: “something happens or not”. If something occasionally happens, this something must not obey rules and, therefore, would be totally random and unpredictable.

[All of this may sound really weird, and it actually is. But I can put clear evidence that JN is not an absurd: first, go search the following on a search engine on the Internet: “virtual particles” or singular “virtual particle”. Virtual particles occur in our universe as spontaneous creation from the quantum vacuum, from one particle and its anti-particle. Science considers the generation of this pair of particles an event without physical causes, something genuinely random. This is a scientific fact and can be explained by quantum mechanics. Now, let us move a bit from the facts and imagine each one of these particles contains a tiny miniature universe. That way, in this mental experience, we have a clue, a little evidence that the emergence of a universe out of nothing is so out of purpose as we could once believe…]

We call the first JN randomizations Schizo-Creations. This schizo-creations, once they come from something without laws, are totally random and, if we could watch them, they would seem completely “schizophrenic”.  Of course with the first randomizations, JN is no longer the original JN as now it owns something, that is, the JN transforms. Because JN is not limited by any laws, it may eventually also generate laws, to which its elements - now itself – would have to obey.

Let us show how the random generation of laws can produce a logical universe: suppose laws are generated randomly in a sequence. If a new law is generated and does not conflict with the others, all of them remain undamaged in the set of generated laws. However, if a law that conflicts with other laws previously generated appears, it replaces (kills) the previous laws that are inconsistent with it, since it must be obeyed (until a newer law opposes to it). Thus, in a true “natural selection” of laws, only a little set of laws compatible to each other would last. That answers a fundamental philosophical question about our universe: “Why does the universe follow logical rules?”

Thereby, the Jocaxian Nothingness is the natural candidate for the origin of the universe, since it is the simpler possible state nature could present: a state of such simplicity there would not be the need to explain its existence. And, by logical consequence of this state, anything could be (or not) randomized, even our physical laws and elementary particles.

 

 

 


#6995 From: mthnrl@...
Date: Mon Nov 30, 2009 7:31 pm
Subject: Re: Repensando o Big Bang
mnraszl
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O Universo é estático, não houve big bang. 2.8 K que o digam.

>
>
>
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>
>
>
> <font size="1">Folha de S&atilde;o Paulo, domingo, 29 de novembro de
> 2009</font>
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>       </td>
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> width="500"><br>
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>       </td>
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>       <b><font color="#000080" size="+1">&#43;Marcelo
> Gleiser</font></b><br>
>       <br>
>       <font size="5"><b>Repensando o Big Bang</b></font>
>       <p>
>       <table width="250">
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> interpreta&ccedil;&atilde;o
> sobre o que &eacute; a expans&atilde;o do cosmo est&aacute; mudando
> </i></b>
>             <hr noshade="noshade" size="2"></td>
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>       <br>
> Imagino que a maioria dos leitores de desta coluna esteja familiarizada
> com a ideia do Big Bang, a explos&atilde;o que marca o in&iacute;cio do
> tempo, o
> in&iacute;cio da expans&atilde;o c&oacute;smica que, pelo que sabemos,
> continua firme e
> forte at&eacute; hoje. Por&eacute;m, quando come&ccedil;amos a pensar
> seriamente na quest&atilde;o
> do in&iacute;cio de tudo, surgem tantas d&uacute;vidas e confus&otilde;es
> que &eacute; bom
> revisit&aacute;-la de tempos em tempos.<br>
> Antes de mais nada, o que significa expans&atilde;o do Universo? Quando
> Edwin
> Hubble descobriu que as gal&aacute;xias estavam se afastando umas das
> outras
> em 1929, a interpreta&ccedil;&atilde;o mais imediata era que o Universo
> estava em
> expans&atilde;o. Quando mencionamos que a expans&atilde;o &eacute; uma
> consequ&ecirc;ncia do Big
> Bang, &eacute; muito comum pensar numa esp&eacute;cie de explos&atilde;o,
> com as gal&aacute;xias
> voando pelo espa&ccedil;o como detritos. <br>
> Na verdade, a expans&atilde;o do Universo n&atilde;o &eacute; isso; quem
> expande, ou estira
> como uma tira de el&aacute;stico, &eacute; o pr&oacute;prio espa&ccedil;o.
> As gal&aacute;xias s&atilde;o
> carregadas pela expans&atilde;o como se fossem rolhas boiando num rio.
> Quando
> olhamos em torno, vemos que todas as gal&aacute;xias se afastam umas das
> outras. N&atilde;o existe um centro da expans&atilde;o, como no caso de
> uma explos&atilde;o.
> De outra manteira, existiria um centro do Universo, um ponto mais
> especial do que os outros. Mas esse ponto n&atilde;o existe.<br>
> O cosmo &eacute; muito democr&aacute;tico: todos os pontos s&atilde;o
> iguais. Mas o que
> causou o Big Bang?<br>
> Esta quest&atilde;o, que tradicionalmente era relacionada com a
> quest&atilde;o da
> "Primeira Causa", tamb&eacute;m foi revisada nos &uacute;ltimos anos.
> At&eacute; meados da
> d&eacute;cada de 1980, era comum pensar que o Big Bang marcava o
> est&aacute;gio
> inicial da expans&atilde;o c&oacute;smica, uma &eacute;poca no passado
> remoto onde o cosmo
> era t&atilde;o quente e denso que a mat&eacute;ria estava dissociada nos
> seus
> componentes mais b&aacute;sicos, as part&iacute;culas elementares.
> Partindo disso, &eacute;
> de se esperar que a mat&eacute;ria &agrave; altas press&otilde;es e
> temperaturas expanda; ou
> melhor, que ela tenha provocado a expans&atilde;o do espa&ccedil;o. <br>
> Quando se perguntava "Mas o que causou este estado inicial?", a
> resposta era meio vaga: a teoria que usamos para descrever o Universo,
> a teoria da relatividade geral de Einstein, n&atilde;o funciona nesses
> momentos iniciais. <br>
> Precisamos de uma nova teoria, que seja aplic&aacute;vel nessas
> condi&ccedil;&otilde;es
> extremas. Isto continua sendo verdade: n&atilde;o temos uma teoria
> qu&acirc;ntica
> para explicar a gravidade. Mas a interpreta&ccedil;&atilde;o do Big Bang
> mudou. <br>
> Segundo as teorias atuais, o Universo passou por uma fase de
> expans&atilde;o
> extremamente r&aacute;pida, mais r&aacute;pida do que a velocidade da luz.
> Isso &eacute;
> poss&iacute;vel com a geometria do espa&ccedil;o, mesmo que a
> mat&eacute;ria n&atilde;o possa
> viajar mais r&aacute;pido do que a luz. E o que causou essa
> expans&atilde;o?
> Acredita-se que tenha sido um "campo escalar", um tipo de mat&eacute;ria
> hipot&eacute;tico que tem a incr&iacute;vel propriedade de provocar esse
> tipo de
> comportamento. Pode parecer m&aacute;gica, mas n&atilde;o &eacute;. <br>
> Campos escalares s&atilde;o muito plaus&iacute;veis. Por exemplo um de
> seus primos
> chamado campo de Higgs poder&aacute; ser descoberto em 2010 ou 2011 no
> LHC, o
> grande acelerador de part&iacute;culas na fronteira da Su&iacute;&ccedil;a
> com a Fran&ccedil;a. <br>
> Quando est&aacute; fora de sua posi&ccedil;&atilde;o de equil&iacute;brio,
> feito uma bola rolando
> uma ladeira, esse campo gera a expans&atilde;o ultra-r&aacute;pida do
> espa&ccedil;o. Ao
> descer, sua energia e press&atilde;o alimentam a expans&atilde;o
> c&oacute;smica. Chegando
> perto do fim, o campo libera sua energia explosivamente, criando um mar
> de part&iacute;culas de mat&eacute;ria. (O truque vem de E=mc2, que diz
> que &eacute;
> poss&iacute;vel converter energia em mat&eacute;ria.)<br>
> O processo violento em que a mat&eacute;ria surge desse campo &eacute;
> como a maioria
> dos f&iacute;sicos hoje interpreta o Big Bang. Em outras palavras, o Big
> Bang
> n&atilde;o foi o come&ccedil;o de tudo! Mas ent&atilde;o o que foi? Disso,
> falamos numa
> outra semana. <br>
>       <br>
>       <font size="-1">
>       <b>MARCELO GLEISER</b> &eacute; professor de f&iacute;sica
> te&oacute;rica no Dartmouth
> College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
> Mundo"</font></p>
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#6994 From: Jocax <jocax@...>
Date: Mon Nov 30, 2009 6:34 pm
Subject: Repensando o Big Bang
jocaxx
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Folha de São Paulo, domingo, 29 de novembro de 2009




+Marcelo Gleiser

Repensando o Big Bang


A interpretação sobre o que é a expansão do cosmo está mudando


Imagino que a maioria dos leitores de desta coluna esteja familiarizada com a ideia do Big Bang, a explosão que marca o início do tempo, o início da expansão cósmica que, pelo que sabemos, continua firme e forte até hoje. Porém, quando começamos a pensar seriamente na questão do início de tudo, surgem tantas dúvidas e confusões que é bom revisitá-la de tempos em tempos.
Antes de mais nada, o que significa expansão do Universo? Quando Edwin Hubble descobriu que as galáxias estavam se afastando umas das outras em 1929, a interpretação mais imediata era que o Universo estava em expansão. Quando mencionamos que a expansão é uma consequência do Big Bang, é muito comum pensar numa espécie de explosão, com as galáxias voando pelo espaço como detritos.
Na verdade, a expansão do Universo não é isso; quem expande, ou estira como uma tira de elástico, é o próprio espaço. As galáxias são carregadas pela expansão como se fossem rolhas boiando num rio. Quando olhamos em torno, vemos que todas as galáxias se afastam umas das outras. Não existe um centro da expansão, como no caso de uma explosão. De outra manteira, existiria um centro do Universo, um ponto mais especial do que os outros. Mas esse ponto não existe.
O cosmo é muito democrático: todos os pontos são iguais. Mas o que causou o Big Bang?
Esta questão, que tradicionalmente era relacionada com a questão da "Primeira Causa", também foi revisada nos últimos anos. Até meados da década de 1980, era comum pensar que o Big Bang marcava o estágio inicial da expansão cósmica, uma época no passado remoto onde o cosmo era tão quente e denso que a matéria estava dissociada nos seus componentes mais básicos, as partículas elementares. Partindo disso, é de se esperar que a matéria à altas pressões e temperaturas expanda; ou melhor, que ela tenha provocado a expansão do espaço.
Quando se perguntava "Mas o que causou este estado inicial?", a resposta era meio vaga: a teoria que usamos para descrever o Universo, a teoria da relatividade geral de Einstein, não funciona nesses momentos iniciais.
Precisamos de uma nova teoria, que seja aplicável nessas condições extremas. Isto continua sendo verdade: não temos uma teoria quântica para explicar a gravidade. Mas a interpretação do Big Bang mudou.
Segundo as teorias atuais, o Universo passou por uma fase de expansão extremamente rápida, mais rápida do que a velocidade da luz. Isso é possível com a geometria do espaço, mesmo que a matéria não possa viajar mais rápido do que a luz. E o que causou essa expansão? Acredita-se que tenha sido um "campo escalar", um tipo de matéria hipotético que tem a incrível propriedade de provocar esse tipo de comportamento. Pode parecer mágica, mas não é.
Campos escalares são muito plausíveis. Por exemplo um de seus primos chamado campo de Higgs poderá ser descoberto em 2010 ou 2011 no LHC, o grande acelerador de partículas na fronteira da Suíça com a França.
Quando está fora de sua posição de equilíbrio, feito uma bola rolando uma ladeira, esse campo gera a expansão ultra-rápida do espaço. Ao descer, sua energia e pressão alimentam a expansão cósmica. Chegando perto do fim, o campo libera sua energia explosivamente, criando um mar de partículas de matéria. (O truque vem de E=mc2, que diz que é possível converter energia em matéria.)
O processo violento em que a matéria surge desse campo é como a maioria dos físicos hoje interpreta o Big Bang. Em outras palavras, o Big Bang não foi o começo de tudo! Mas então o que foi? Disso, falamos numa outra semana.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"



#6993 From: Jocax <jocax@...>
Date: Fri Nov 27, 2009 6:01 pm
Subject: As 11 maes mais singulares do mundo
jocaxx
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ALESSANDRA NOGUEIRA em 25.11.2009 as 17:46

O amor materno vem em muitos jeitos diferentes: mesmo com oito filhos ou 69, o carinho e cuidado é o mesmo. Nesta lista, destacamos 11 mulheres que se destacam, pela idade, número de filhos ou até mesmo o primeiro homem grávido do mundo. Não deixe de conferir!

11. A MÃE COM O MAIOR NÚMERO DE FILHOS SOBREVIVENTES DE UM ÚNICO PARTO


A estadunidense Nadya Denise Doud-Suleman Gutierrez, a octomãe, deu à luz a oito bebês em janeiro de 2009. Os óctuplos são o segundo caso registrado de um número tão grande de bebês que sobrevivem ao parto. O caso levou a uma polêmica no campo da tecnologia de fertilidade assistida, já que Gutierrez, que é solteira, já tinha seis filhos, e ficou grávida dos óctuplos a partir de tratamentos contra infertilidade, assim como seus outros filhos. » “Eu tive quatro orgasmos ao dar a luz” [Foto]

10. A MÃE MAIS JOVEM DO MUNDO


Em 1939, surgiu em um hospital em Pisco, no Peru, um dos casos mais assombrosos de gravidez: uma índia das proximidades levou ao hospital uma garota de cinco anos, com um abdome enorme. A mulher acreditava que ela estava possuída por espíritos malignos, e o médico achou que ela tinha um tumor. Após exames, o médico Geraldo Lozada constatou a gravidez de oito meses na pequena Lina Medina.

O médico então levou a garota para Lima, capital do país, onde outros médicos realizaram exames e confirmaram a gravidez. No dia 14 de maio de 1939, Medina deu à luz a um bebê por meio de uma cesárea. O filho da jovem garota pesava 2,7 quilos, e recebeu o nome do médico que cuidou da sua mãe. Ele foi criado achando que sua mãe era sua irmã, mas descobriu a verdade aos dez anos. » São os filhos que educam os pais

9. A MÃE DE PRIMEIRA VIAGEM MAIS VELHA DO MUNDO


Rajo Devi Lohan teve seu primeiro filho em novembro de 2008, aos 70 anos. Ela afirmou que tinha esperado por mais de 40 anos para ter este filho, e que planeja amamentá-lo por pelo menos três anos.

8. A MÃE COM O MAIOR NÚMERO DE PARTOS


Feodor Vassilyev era um camponês de Shuya, na Rússia. Embora ele não fosse digno de registros, sua esposa, chamada Valentina Vassilyeva, bateu o recorde do maior número de filhos paridos por uma única mulher. Ela deu à luz a 69 crianças: 16 pares de gêmeos, 7 trigêmeos e 4 quadrigêmeos entre 1725 e 1765, totalizando 27 partos. Dos 69 filhos, 67 sobreviveram.

No mundo moderno, o recorde fica com Leontina Albina, de San Antonio, no Chile. Ela afirma ser mãe de 64 crianças, destas, 55 estão devidamente documentadas. A mulher com o maior número de filhos que não são gêmeos é Lívia Ionce. A mulher romena, de 44 anos, deu á luz ao seu 18° filho em 2008. » Mulheres envelhecem como suas mães

7. A PRIMEIRA MÃE-HOMEM


Thomas Beatie nasceu como mulher mas passou por procedimentos para se tornar um homem. Ele vive em Oregon, nos Estados Unidos, com sua esposa Nancy. Beatie passou por tratamentos hormonais e cirurgias, mas ainda tem seus órgãos reprodutivos femininos. Em 29 de junho, ele deu à luz a uma filha, e tem e já está grávido novamente.

A sua esposa não pode ter filhos porque sofreu uma histerectomia. O casal teve a filha a partir de uma inseminação artificial, utilizando o esperma de um doador e o óvulo de Beatie.

6. A MÃE MAIS VELHA DE GÊMEOS


Omkari Panwar, aos 70 anos, queria ter um filho. Para realizar o sonho da esposa, Charan Singh Panwar, de 77 anos, vendeu seus búfalos e hipotecou a terra em que eles viviam, além de gastar todas as suas economias para pagar para o tratamento que deixaria sua esposa grávida. Assim, Panwar ficou grávida de gêmeos, um garoto e uma garota, que nasceram prematuramente, mas que são saudáveis, segundo médicos. O casal já tinha duas filhas adultas, além de cinco netos.

5. A MÃE DE ALUGUEL MAIS FÉRTIL


Carole Horlock, de 42 anos, deu à luz a 12 bebês em 13 anos, inclusive a trigêmeos. Ela afirma que, quando começou a ser mãe de aluguel, ela pensou em fazer aquilo uma vez, mas que gostou muito da experiência. Ela diz que não tem nenhuma exigência aos pais dos trigêmeos, só pediu que eles mandassem uma carta e uma foto anualmente, para que ela soubesse como eles estão. Entretanto, as experiências desta estadunidense não são todas boas: o pai da mulher não se relaciona com ela, revoltado porque ela está doando seus netos.

4. A MENOR MÃE DO MUNDO


a mãe mais baixinha do mundo está prestes a ter seu terceiro filho, apesar de avisos de que ela pode estar arriscando a própria vida. Stacey Herald tem apenas 70 centímetros de altura e desafiou os médicos que diziam que ela não poderia ter filhos devido à sua diminuta estatura.

Ela e seu marido, que tem uma altura normal, estão aguardando ansiosamente pelo nascimento de seu terceiro filho. Enquanto está grávida, Stacey não consegue segurar sua outra filha, porque a barriga atrapalha muito. Ela admite que ficar grávida é desconfortável, mas afirma que tem vontade de ter mais filhos. » 6 Dicas para mães que trabalham fora

3. A MÃE DO MENOR BEBÊ DO MUNDO


Mahajabeen Sheikh deu à luz a Rumaisa Rahman em setembro de 2004. A bebê pesava menos de 300 gramas e tinha apenas 25 centímetros de comprimento. Ela nasceu prematura, com apenas 26 semanas e seis dias. Rumaisa nasceu com uma irmã gêmea, chamada Hiba, que pesava quase 700 gramas quando nasceu. Agora, as duas bebês estão saudáveis.

2. A MÃE COM O MAIOR INTERVALO ENTRE CADA GRAVIDEZ


Elizabeth Ann Buttle teve dois filhos, Belinda e Joseph, o que, sozinho, não é nada de mais. Porém, Belinda nasceu em 1956, e seu irmão Joseph nasceu em 1997, com um intervalo de 41 anos e 185 dias entre cada nascimento.

1. A MÃE SOLTEIRA SEM BRAÇOS


A artista Alison Lapper nasceu em 1965 com uma condição médica rara, que fez com que ela desenvolvesse as pernas curtas, além de não ter braços. Ela viveu toda a sua vida em uma escola especial na Inglaterra, e aos 26 anos se formou em Belas Artes. Em 2000, após um breve relacionamento, ela descobriu que estava grávida. O homem fugiu da responsabilidade, mas Lapper afirma ter ficado muito feliz com a gravidez. Ela deu à luz a um garoto chamado Parys. » Leite materno fica ainda mais mágico

[Fonte: Oddee, 2]

Veja as FOTOS em :    http://hypescience.com/24951-as-11-maes-mais-singulares-do-mundo/


#6992 From: Jocax <jocax@...>
Date: Fri Nov 27, 2009 3:25 pm
Subject: Os exploradores
jocaxx
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Folha de São Paulo, domingo, 22 de novembro de 2009 


+(a)utores

Os exploradores

SEM DEPENDER DE CARGOS ACADÊMICOS, DARWIN E ALEXANDER VON HUMBOLDT TRANSITARAM POR VÁRIAS ÁREAS DO SABER E DERAM NOVO IMPULSO À CIÊNCIA 

PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

Neste ano, em várias partes do mundo, estão sendo e serão promovidas homenagens a dois cientistas famosos do século 19, Charles Darwin (1809-82) e Alexander von Humboldt (1769-1859).
No caso de Darwin, 2009 é importante por ser o sesquicentenário da publicação de seu célebre livro "A Origem das Espécies" [ed. Itatiaia, trad. Eugênio Amado, 382 págs., R$°70] e, no caso de Humboldt, o que se celebra é o sesquicentenário de sua morte.
Muitos ensaios e artigos lembrando as realizações desses dois homens já foram publicados neste ano, sem falar em exposições, filmes (sobretudo "Creation" [Criação], cinebiografia de Darwin) e programas de televisão.
Em lugar de repetir esses tributos, por mais merecidos que possam ser, o que eu gostaria de fazer aqui é levantar duas questões gerais que emergem do trabalho de ambos os estudiosos. Uma delas diz respeito à segunda era das descobertas e, a outra, ao papel do polímata.
A era das descobertas, por volta de 1500, é associada a Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e outros navegadores, e foi um tempo de viagens marítimas e explorações de regiões não muito distantes da costa.
Contrastando com isso, a chamada "segunda era das descobertas", no século 19, apesar de ter incluído um elemento marítimo, foi essencialmente um período durante o qual os exploradores concentraram suas atenções no interior de continentes: América do Norte (Meriwether Lewis e William Clark), Brasil (Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius), África (Mungo Park e David Livingstone), Austrália (Robert Burke e William Wills), Sibéria e assim por diante.
Pode-se dizer que essa segunda era das descobertas foi inaugurada em 1799, quando Humboldt e seu companheiro de viagens Aimé Bompland iniciaram sua expedição de cinco anos ao México e à América do Sul. (Em um período posterior de sua vida, Humboldt também faria uma expedição ao interior da Rússia.)
Quanto a Darwin, sua teoria da evolução começou a germinar em sua mente após sua passagem pelas ilhas Galápagos [território do Equador no oceano Pacífico], no navio Beagle, em 1835, mas antes disso ele já tinha passado seis meses no Brasil (onde as florestas lhe causaram forte impressão). 
Cientistas e nobres
Seu rival -outro inglês, Alfred Wallace [1822-1913]- chegara a conclusões semelhantes sobre a evolução das espécies após fazer estudos de botânica na região amazônica, no final dos anos 1840.
Hoje, tendemos a enxergar Darwin como zoólogo, mas o uso desse rótulo revela menos sobre o século 19 do que sobre a fragmentação do conhecimento e a profissionalização da sociedade em nosso tempo.
Darwin não era um cientista profissional, mas um cavalheiro dotado de recursos suficientes para sustentar tanto sua família quanto suas pesquisas no campo conhecido, à época, como "história natural" -uma descrição geral para o que, mais tarde, passaria a ser conhecido como mineralogia, geologia, zoologia e botânica.
Ele não precisava se apressar para publicar artigos com a finalidade de conseguir uma cadeira em uma universidade nem se limitar a um único campo intelectual.
Na verdade, Darwin tinha muita consciência das pesquisas que estavam sendo feitas e das conclusões às quais estavam chegando os estudiosos em vários campos tão distintos e separados como economia política, história, fisiologia, psicologia e literatura.
Cada uma dessas disciplinas (como hoje chamamos), ao lado de todos os tipos diferentes de história natural, deixou sua marca em algum lugar do texto de "A Origem das Espécies".
Seu autor escreveria livros sobre a origem do homem, a expressão das emoções ["A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais", Cia. das Letras] e o efeito das minhocas sobre o solo em que vivem.
Humboldt também foi um nobre diletante, dotado de recursos suficientes para financiar seus cinco anos de viagens e a vida de estudioso que levou após retornar a sua Alemanha natal (ou, mais precisamente, à Prússia, já que ele morreu antes da unificação da Alemanha, em 1871).

Fim de uma espécie
Humboldt foi talvez o último dos grandes polímatas. Ele morreu justamente na época em que as universidades europeias e norte-americanas começaram a fragmentar-se em departamentos ou institutos cada vez mais especializados.
Ele se queixou certa vez de que "as pessoas frequentemente dizem que sou curioso sobre coisas demais ao mesmo tempo", mas não precisava preocupar-se com as opiniões alheias.
Sua curiosidade intensa abrangia geologia, astronomia, meteorologia, botânica, fisiologia, química, geografia, arqueologia, economia política e etnografia. Por incrível que isso possa parecer hoje, ele conseguiu fazer contribuições originais em todos esses campos.
Por exemplo, Humboldt e Bompland descobriram espécies de plantas e pássaros até então desconhecidas (do mundo acadêmico ocidental, mesmo que não o fossem aos habitantes indígenas das regiões que explorou), além de terem estudado o comportamento de enguias elétricas.
Humboldt classificou vulcões, estudou o campo magnético da Terra, descobriu o uso do guano como fertilizante e descreveu os costumes de povos indígenas americanos como os maipures.
Seus "insights" sobre as razões da distribuição geográfica de plantas foram incorporados pela ecologia, uma disciplina que ainda não existia em sua época.
Não se satisfez em fazer contribuições dispersas ao conhecimento, mas também incentivou a cooperação científica internacional (a criação de uma cadeia de estações meteorológicas, por exemplo).
Ele procurou enxergar as coisas como um todo e escrever uma obra de síntese, muito adequadamente intitulada "Kosmos".
Não chegou a concluir esse livro ambicioso, baseado em palestras que fez na Universidade de Berlim, mas os dois volumes que publicou -em 1845 e 1847, quando estava no final da casa dos 70 anos- proporcionam a seus leitores uma impressão vívida dos talentos de seu autor.

Divisão
Nos dias atuais, sabe-se muito mais sobre o mundo natural do que se sabia no tempo de Humboldt. O problema é que esses conhecimentos estão divididos entre muitas pessoas diferentes, pessoas que são especialistas, não generalistas.
Hoje, quando celebramos as realizações de Darwin e Humboldt, é difícil deixar de sentir pelo menos um pequeno toque de nostalgia pela última era dos diletantes.
Eram indivíduos de talento, que não exerciam uma profissão definida que pudesse impedi-los de seguir o rumo de seus interesses aonde quer que estes os pudessem conduzir -da etnografia à geologia ou da Sibéria à Amazônia.


PETER BURKE é historiador inglês, autor de "A Tradução Cultural" (ed. Unesp).
Tradução de Clara Allain. 


#6991 From: Jocax <jocax@...>
Date: Fri Nov 27, 2009 11:50 am
Subject: A CONSCIENCIA COMO FRUTO DA EVOLUCAO E DOFUNCIONAMENTO DO SISTEMA NERVOSO
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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol. 8 n. 2 São Paulo  1997

doi: 10.1590/S0103-65641997000200010 

A CONSCIÊNCIA COMO FRUTO DA EVOLUÇÃO E DOFUNCIONAMENTO DO SISTEMA NERVOSO

 

Alexandre de Campos, Andréa M. G. dos Santos e Gilberto F. Xavier
Departamento de Fisiologia
Instituto de Biociências – USP

 

 

Percepções, individualidade, linguagem, idéias, significado, cultura, escolha, moral e ética, todos existem em decorrência da evolução e do funcionamento do sistema nervoso. Teme-se, por vezes, que a concepção da consciência como resultado de um processo biológico corresponda a uma "profanação do espírito humano", com consequente abandono do comportamento moral e ético. Na verdade, ao se investigar a consciência como fenômeno natural e não místico, ampliam-se nossas possibilidades de entendê-la, com ganhos científicos, teóricos e sociais, além dos éticos e morais. Discute-se como a evolução por seleção natural e a organização biológica do sistema nervoso permitem explicar as bases da individualidade, da intencionalidade, de representações simbólicas e do significado. Fenômenos observados em pacientes com danos neurológicos reforçam a concepção de funcionamento modular do sistema nervoso; a consciência não seria uma propriedade exclusiva de um módulo único do sistema nervoso, mas fruto do funcionamento sincrônico de diferentes módulos. 
Descritores: Consciência. Sistema nervoso. Memória. Distúrbios cerebrais. Percepção.

 

 

A consciência é fruto da evolução do sistema nervoso. Portanto, percepções, individualidade, linguagem, idéias, significado, cultura, escolha (ou livre arbítrio), moral e ética, todos existem em decorrência do funcionamento cerebral.

Há, por vezes, receio de que a investigação científica possa levar a uma "desmistificação" da consciência humana. De fato, são inúmeras, e não triviais, as consequências da conceituação da consciência como fenômeno natural. Uma delas, talvez a mais importante, refere-se à percepção que o ser humano tem de sí próprio e de seus semelhantes: teme-se que a concepção da consciência como resultado de um processo biológico corresponda a uma "profanação do espírito humano", com consequente abandono do comportamento moral e ético.

A tese a ser defendida neste trabalho é que, ao se trazer a consciência "de volta para a natureza" e ao se investigá-la como fenômeno natural e não místico, ampliam-se nossas possibilidades de entendê-la, com ganhos científicos, teóricos e sociais, além dos éticos e morais. Será discutido neste trabalho, como a evolução por seleção natural e a organização biológica do sistema nervoso permitem explicar as bases da individualidade, da intencionalidade, de representações simbólicas e do significado. Diversos fenômenos relacionados a consciência serão então discutidos à luz das descobertas que a ciência vem realizando sobre a organização modular do funcionamento cerebral. Entre eles, (1) o fenômeno da" visão-às-cegas" ("blindsight"), em que pacientes com lesões do córtex estriado negam a percepção de estímulos visuais apresentados em seu campo de visão, ao mesmo tempo em que são capazes de desempenhar ações precisas em relação a esses estímulos, inclusive em relação à sua localização espacial; (2) o fenômeno da dissociação entre memória explícita e memória implícita, em que pacientes com danos no lobo temporal medial negam ter vivenciado uma situação de treino em tarefas motoras, perceptuais e cognitivas, ao mesmo tempo que exibem desempenho normal nessas tarefas; e o fenômeno de pré-ativação ("priming"), que ocorre com pessoas normais e envolve um viés ou facilitação do desempenho em função da apresentação prévia do material de teste, sem que a pessoa tenha conhecimento consciente do fato; (3) o fenômeno da negligência unilateral, caracterizado por um notório prejuízo na percepção de uma das metades do espaço egocêntrico em decorrência de lesão contralateral, usualmente acompanhada de anosognosia, i.e., o desconhecimento completo da própria deficiência, independentemente de quão limitante ela seja; e (4) o fenômeno da dissociação decorrente de comissurotomia (ou desconexão dos hemisférios cerebrais), no qual os pacientes exibem um elaborado processamento de informações apresentadas a apenas um dos hemisférios cerebrais, com comportamentos plenamente adequados às situações apresentadas, acompanhado de uma completa ausência de percepção consciente, por parte do outro hemisfério cerebral, sobre esse processamento. Esses exemplos serão tomados como evidência de que o fenômeno "consciência" não é uma entidade única, mas sim um conjunto de habilidades mediadas pelo processamento paralelo, porém cooperativo, de informações em diferentes módulos do sistema nervoso. Não obstante essa organização modular, o funcionamento cooperativo e integrado dos diferentes módulos produz uma sensação unificada.

 

A concepção dualista de consciência

O obstáculo mais difícil de se transpor na investigação científica da consciência, talvez esteja relacionado à concepção culturalmente arraigada de que percepções conscientes não podem ser consideradas como fruto do funcionamento do sistema nervoso, sendo a consciência considerada uma entidade distinta deste e que apenas manifesta-se através dessa estrutura.

Parte substancial desse viés dualista deve-se a dogmas que estabelecem uma separação entre o espírito e o corpo.

É difícil saber o quanto esses dogmas, associado ao contexto histórico doutrinário e persecutório da época, influenciaram Descartes a defender a noção de que o indivíduo é constituído da matéria ("res extensa"), tal qual definida pela Física, divisível, com dimensões, peso e "funcionamento mecânico", e da mente ("res cogitans"), indivisível, sem dimensões, independente de tempo e espaço, sendo, portanto, intangível. Como em seu livro, "O discurso do método" (1637), Descartes concebe a mente como algo especial, cujas características não possuem espacialidade ou temporalidade nem estão subordinadas às leis físicas, tem-se interpretado que ela não seria passível de investigação objetiva.

A influência dessa doutrina dualista na psicologia expressa-se tanto nas concepções psicanalíticas de mente, quanto na negação taxativa da possibilidade de compreensão dos processos "mentais" defendida pelo "behaviorismo" que advoga a inacessibilidade desses processos ao questionamento científico.

É interessante que Descartes, considerado o pai da filosofia moderna e do método científico, tenha formulado essa conceituação dualista da relação mente/cérebro, promovendo um afastamento dos "fenômenos mentais" da esfera da investigação científica. Mais interessante, no entanto, é que Descartes considerou a interação entre ares cogitans e a res extensa como necessária; declarou que a interação ocorreria na glândula pineal. Isto é, as informações advindas do mundo exterior chegariam até a glândula pineal e, através de mecanismos desconhecidos, seriam transformadas e transmitidas à mente para serem interpretadas e elaboradas. Que métodoteria usado Descartes para obter evidências a favor dessa obscura formulação? Em seu livro "O erro de Descartes", Antonio Damásio questiona-se: ao afirmar "penso, logo existo", Descartes não estaria reconhecendo a superioridade da razão e do sentimento consciente, sem compromissos no que se refere à sua origem, substância ou permanência? Isto é, não estaria Descartes afirmando que pensar e ter consciência de pensar é que constituem os verdadeiros substratos da existência?" Damásio (1996) pergunta-se, ainda, se essa famosa frase de Descartes não se constituiu numa estratégia de redação para evitar as fortes pressões religiosas da época. E finaliza referindo-se à inscrição escolhida por Descartes para sua lápide : "Aquele que se esconde bem viveu bem", como uma possível indicação de contestação discreta ao dualismo.

 

Organização e evolução biológicas

Sistemas biológicos são o produto de um processo histórico altamente peculiar que envolve evolução por seleção natural, sendo essa, na verdade, a origem de sua unicidade. Essa idéia, baseada na formulação proposta por Charles Darwin, em 1859, se constitui no principal paradigma da biologia (Darwin, 1985).

Do ponto de vista teórico, quando um dado ambiente possui simplicidade e regularidade, portanto previsibilidade, a seleção natural pode favorecer a evolução de um sistema adaptado e otimizado para aquele ambiente. Seria essa afirmação" finalista" e, portanto, a evolução pré-direcionada? A resposta é obviamente não. A regularidade do ambiente oferece diversas oportunidades de seleção para mutações que levam o organismo a exibir uma resposta antecipatória ao ambiente. Embora possa parecer que o sistema faz uma "previsão" de que o ambiente é de uma dada maneira, deve-se ter em mente que o processo evolutivo (que o produziu) não é pré-determinado; apenas selecionou o organismo mais apto.

Deve-se enfatizar, neste contexto, que a seleção se faz principalmente ao nível do indivíduo e seu comportamento. Embora trazer uma" resposta pronta" (neste caso, um comportamento inato) possa ser adaptativo, isso só é possível, como vimos, em condições particulares. Quando, no entanto, a complexidade de um sistema aumenta e a imprevisibilidade torna-se um problema, um mecanismo diferente - mais flexível - deve ser selecionado.

Tal sistema deve permitir ao organismo obter o máximo de informações sobre o ambiente, possibilitando a este solucionar os problemas no momento em que surgem de forma não-antecipatória ou de forma antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. Há uma certa indeterminação no funcionamento desse tipo de sistema, mas ele é altamente adaptativo pois completará seu processo de adaptação quando as reais condições de uso da função forem encontradas. Nesse sentido é altamente adaptativo pois o organismo pode lidar com circunstâncias totalmente inesperadas. Este parece ter sido o processo de evolução tanto do sistema de imunidade como do sistema nervoso (incluída a consciência), i.e., sistemas seletivos capazes de lidar com novidade ao longo da vida do indivíduo.

Cabe enfatizar que esses sistemas são fruto de um processo histórico lento e gradual, que ocorre passo-a-passo, na evolução das espécies (para revisão, ver Dennett, 1995).

 

Memória, categorização, escolha e intencionalidade

Ao longo desse processo, teriam surgido organismos capazes de modificar seu comportamento por "tentativa-e-erro", isto é, capazes de identificar que uma determinada resposta de seu repertório produziu consequências favoráveis num determinado contexto sendo, portanto, reforçada; consequentemente haveria um aumento da probabilidade da emissão da mesma resposta em contextos similares. Embora essa aptidão seja vantajosa, a emissão inicial da resposta no contexto apropriado ainda exibe um elevado grau de dependência em relação aos eventos externos casuais.

Sistemas capazes de realizar um "ensaio figurativo" (ou imaginativo) das diversas ações possíveis para um dado contexto seriam, certamente, mais eficazes, pois poderiam reduzir o risco de ações reais inapropriadas, facultando, em função do resultado do ensaio, a escolha de ações com maiores chances de sucesso. Isto é, as consequências das ações destes últimos indivíduos reduziriam consideravelmente a influência do acaso. O funcionamento de um tal sistema requer uma substancial quantidade de informações sobre o ambiente, sobre suas regularidades e sobre os resultados de ações anteriores. Essas informações, armazenadas no sistema nervoso do indivíduo sob a forma de modificações nas conexões entre seus elementos constituintes (as células nervosas), promovidas pela história de interação do indivíduo com o ambiente, envolvem um processo de contínua categorização da informação de modo a identificar um estímulo ou ação e, com base nessa identificação, controlar o comportamento. Essa concepção da memória como um processo de categorização da informação no sistema nervoso envolve a habilidade para desenvolver conceitos que, por sua vez, facultam a realização de inferências sobre um dado contexto. Xavier, Saito e Stein (1991) sugeriram que a antecipação com base na identificação de regularidades ambientais passadas permite reagir mais prontamente à estimulação esperada pois o organismo direciona atenção (com subsequente aumento na capacidade de processamento da informação) para os setores do ambiente que são relevantes. Além disso, faculta a escolha da "ação mais apropriada", o que implica em intencionalidade e significado. Intencionalidade correspondeu à aquisição de significado através de um processo lento e gradual; funcionalidade e propósito dão suporte à interpretação de intencionalidade para as atividades do organismo.

Em outras palavras, um "modelo interno do ambiente" é adaptativo na medida em que permite avaliar as consequências futuras das ações correntes, sem por em risco a integridade do sistema no desempenho da ação. Os mecanismos cerebrais da atenção originaram-se também da pressão sobre o animal que precisa selecionar uma entre várias ações possíveis. A aquisição inicial de uma habilidade requer atenção, mas uma vez adquirida o animal prescinde desta e o seu desempenho torna-se automático. Esses sistemas oferecem ainda a possibilidade de executar ações presentes para favorecer ações futuras que sejam vantajosas.

A vantagem evolutiva dessa, digamos, "consciência primária" (definida como o conhecimento dos estímulos externos e internos) é que ela ajuda a abstrair e organizar mudanças complexas num ambiente envolvendo múltiplos sinais concomitantes. Mesmo que esses sinais não tenham uma relação causal entre eles, podem servir de bons indicadores de perigo ou reforço. Assim, ela oferece meios de corrigir erros eficientemente. Aumenta a capacidade para generalizar, portanto oferece maior adaptabilidade.

O aparecimento desse tipo de consciência estaria, segundo Edelman (1992), relacionada à evolução de 3 funções envolvendo diferentes conjuntos de estruturas do sistema nervoso: (1) o desenvolvimento do sistema tálamo-cortical (um sistema de projeções do diencefálo para o córtex) de modo que quando as funções conceituais apareceram elas puderam ser ligadas fortemente ao sistema límbico (um circuito neural que envolve estruturas talâmicas e corticais supostamente envolvido no comportamento emocional), estendendo as capacidades de aprendizagem; (2) o desenvolvimento de um novo tipo de memória baseada nesta ligação. Diferentemente do sistema de categorização perceptual, este sistema de memória conceitual é capaz de categorizar respostas em diferentes sistemas do sistema nervoso e realizar a categorização perceptual de acordo com as demandas da relação entre o sistema límbico e o tronco encefálico (que incluiria alguns dos principais sistemas neurais envolvidos nas sensações de prazer e dor). Esta memória "valor-categoria" permitiria respostas conceituais em termos de interações mútuas dos sistemas tálamo-corticais e límbico-troncoencefálico; e (3) categorização perceptual em várias modalidades sensoriais e o desenvolvimento de uma memória conceitual de valor e categoria. Essa categorização conceitual de percepções concorrentes pode ocorrer antes que esses sinais perceptuais contribuam de forma duradoura para aquela memória. Segundo Edelman (1992) esse tipo de consciência seria experienciada como uma cena, um quadro, uma imagem mental dos eventos categorizados em curso.

Resumidamente, a consciência primária estaria relacionada ao desenvolvimento do sistema tálamo-cortical (o córtex organizado sob a forma de mapas capazes de processar paralelamente muitas informações), que evoluiu em paralelo com o cerebelo, gânglios basais e hipocampo, envolvidos na manipulação de espaço e tempo, com os quais mantém grande quantidade de conexões. Estes sistemas estariam conectados com o sistema límbico-tronco encefálico (que fornece o valor do estímulo frente a homeostase fisiológica). Aprendizagem, neste caso, pode ser vista como o meio pelo qual a categorização ocorre, tendo por pano de fundo as mudanças adaptativas no comportamento que satisfazem às necessidades fisiológicas do indivíduo.

 

O biológico, o cultural e a consciência

A flexibilidade comportamental e a competência cognitiva de diferentes grupos de animais está diretamente relacionada com a quantidade de tecido nervoso (proporcionalmente ao tamanho corpóreo). Não se entenda essa afirmação como um culto à "escala filogenética". Isto é, a evolução do sistema nervoso não deve ser vista como uma escala contínua, unitária e cumulativa, mas como uma "árvore com diversos ramos" (para usar uma metáfora biológica), cada ramo transformando-se de forma independente dos outros.

Em vertebrados, curiosamente, a quantidade de tecido nervoso relacionado ao controle de ajustes neurovegetativos (que controlam funções orgânicas básicas), situado principalmente nas porções posteriores do sistema nervoso, pouco varia nas diferentes espécies. Já as porções anteriores do sistema nervoso, relacionadas ao processamento de informações provenientes do ambiente, a memória, a antecipação, a atenção, e a produção de respostas, variam enormemente, sendo maiores em primatas, particularmente, em seres humanos.

É interessante mencionar, neste contexto, estudos envolvendo a comparação genética de diferentes grupos de primatas, face às suas notórias diferenças de comportamento. A comparação das sequências de bases nas moléculas de DNA de humanos, chimpanzés e gorilas tem levado autores (e.g., Diamond, 1992) a afirmarem que humanos e chimpazés exibem apenas 1,6% de diferenças ao nível genético (e que provavelmente partilharam um ancestral comum há cerca de 7 milhões de anos), enquanto gorilas diferem de humanos em cerca de 2,3% de seu material genético (e teriam divergido de um ancestral comum há cerca de 10 milhões de anos); já gorilas e chimpanzés difeririam em 2,1%. Portanto, do ponto de vista genético, chimpanzés estariam mais próximos de seres humanos que dos gorilas. Porém, estas evidências genéticas parecem contrastar com evidências anatômicas. Gorilas e chimpanzés partilham pelo menos duas características não presentes em seres humanos: o modo de andar e a estrutura do dente molar, utilizadas pelos adeptos da análise cladística para situá-los num grupo diferente do dos humanos. As substanciais diferenças anatômicas entre humanos e chimpanzés, não obstante a similaridade genética, têm levado à sugestão de que as diferenças estão em genes reguladores e não em genes que codificam proteínas estruturais específicas. As mudanças relacionadas com crescimento encefálico, inserção da musculatura da mandíbula no crânio, espaço supralaríngeo, como órgão relacionado à fala, e postura ereta, com liberação das mãos, aumentando imensamente a capacidade de manipulação e utilização de instrumentos, parecem ter sido decisivas para as características consideradas tipicamente humanas.

Mas, seria possível com tão poucas alterações genéticas, e em tão pouco tempo, produzir tamanha quantidade de mudanças no repertório comportamental desses animais?

De acordo com os antropólogos, o advento do uso de instrumentos foi acompanhado de um aumento na inteligência. É preciso inteligência para utilizar instrumentos, mas seu uso também contribui para o desenvolvimento da inteligência. Isto é, o processo é bidirecional e ocorre uma retroalimentação positiva de um sobre o outro. Inovações culturais mudaram as condições de expressão fenotípica de tal forma, e tão rápido, que teriam levado a diversas alterações comportamentais. Isso talvez permita avaliar por que a espécie humana possui maior heterogeneidade de comportamentos em relação a outras espécies.

Neste contexto, a aquisição de linguagem parece ter desempenhado um papel crucial na evolução da espécie humana, já que levou a um enorme aumento no poder conceitual. Palavras podem ser vistas como instrumentospara manipulação da informação. O armazenamento, de longa duração, de relações simbólicas, adquiridas através de interações com outros indivíduos da mesma espécie, libera o indivíduo do presente imediato. A eficácia desse processo está na possibilidade de interpretar itens como símbolos de forma abstrata e bem definida, de acordo com um grupo inequívoco de regras (sintaxe - manipulação de símbolos através de um procedimento definido). A partir deste substrato, desenvolveram-se capacidades semânticas, representadas pelo processo funcional de manipulação dos símbolos. Para alguns autores, esta última etapa corresponderia ao florescimento da consciência "superior", vista aqui como a capacidade de refletir sobre as próprias experiências ao longo do tempo, como ocorre em seres humanos (e.g., Farthing, 1992). Assim, como linguagem é adquirida pela interação com outros indivíduos da espécie, depreende-se que a consciência decorre também de um processo social.

Do ponto de vista fisiológico, o aparecimento dessas capacidades linguísticas requer novos sistemas de memória, e de produção e audição de sons. A evolução do espaço supra-laríngeo, para a produção de sons, e o aumento de nossa sensibilidade auditiva exatamente na faixa de frequência da voz humana, proporcionaram alguns desses requisitos. Por outro lado, as regiões da fala que medeiam a categorização e memória para linguagem devem interagir com áreas conceituais já evoluidas do sistema nervoso. Essa fala liga fonologia à semântica, usando conexões com áreas conceituais do sistema nervoso para guiar a aprendizagem. Isto origina a sintaxe quando esses mesmos centros conceituais do sistema nervoso tratam símbolos e suas referências e a imagem que eles evocam como um mundo independente para ser adicionalmente categorizado. Pinker e Bloom (1990) demonstraram que as estruturas do sistema nervoso relacionadas com linguagem e gramática constituem uma adaptação que ocorreu de forma gradual sob a pressão da seleção natural, de forma neo-Darwiniana.

Então, uma explosão conceitual e a revolução ontológica tornam-se possíveis pela interação entre centros conceituais e de linguagem. Esses mecanismos facultam o aparecimento de identidade, de passado e de futuro.

Assim, diversos níveis de interações físicas, biológicas e sociais devem ser colocados juntos para o surgimento da consciência superior; como o pensamento depende de interação social e cultura, de convenções, lógica e metáfora, outros métodos, além dos biológicos, são necessários para entender plenamente o processo consciente. No entanto, isso não significa dizer que não se pode entender o aparecimento da consciência sob o ponto de vista biológico. Nesse sentido, a humanidade deve ser vista como mais um dos resultados do processo evolutivo (um dos "ramos da árvore"), e não como sua maior expressão.

 

As bases neurais da individualidade

A proposta de investigação dos "fenômenos mentais" como fenômeno biológico sempre se depara com a argumentação de que os rígidos determinantes genéticos não poderiam comportar a explicação de fenômenos como a individualidade e a sensação de unicidade gerada pela consciência de si próprio e das próprias capacidades intelectuais.

Deve-se enfatizar que embora fatores genéticos determinem, em certa extensão (ver abaixo), sequências de desenvolvimento embrionário, bem como parte da especificação dos padrões de conectividade neuronal, isso não exclui a contribuição decisiva e marcante da interação do indivíduo com o ambiente, incluindo a história de desenvolvimento individual associada às influências culturais, para a formação final do sistema nervoso.

O sistema nervoso humano adulto é constituído de cerca de 1011 células. Conectadas a essas células há, ainda, células para a recepção de informações (receptores sensoriais) que transformam diferentes formas de energia do ambiente em atividade eletro-química (no espaço tri-dimensional e no tempo) e influenciam a atividade de outras regiões do sistema nervoso. Por outro lado, células nervosas estão conectadas aos músculos e glândulas possibilitando a produção de respostas dirigidas ao ambiente. No entanto, a grande maioria das células nervosas conecta-se a outras células do próprio sistema nervoso. Por exemplo, apenas o córtex cerebral humano possui cerca de 10 bilhões (1010) de células nervosas; cada uma dessas células emite projeções para milhares de células e recebem, por sua vez, projeções de outras milhares de células nervosas. É no sítio de interação entre duas células nervosas, a sinapse, que a informação de uma célula passa para outra célula e que ocorre modulação do processamento de informações. Calcula-se que existam aproximadamente um quatrilhão (1015) de sinápses só no manto cortical humano. Se considerarmos como essas conexões podem ser combinadas para formar circuitos neurais, o número final é fabulosamente elevado - praticamente infinito - o que já nos dá uma primeira idéia da complexidade da estrutura que origina os processos mentais. Isso sem considerar as diferentes reações químicas que nele ocorrem.

Ao longo da ontogênese do sistema nervoso, células dividem-se, migram, emitem processos, conectam-se (através de sinapses), morrem. Como o sistema nervoso desenvolve-se de acordo com princípios topobiológicos, o "destino" de cada célula que era inicialmente equipotencial, depende da sua localização em relação a outras células, dos eventos que se processam nas regiões vizinhas e no ambiente, além da atividade concertada entre diferentes regiões. Assim, determinadas transformações só ocorrerão se outras ocorrerem previamente. Essas células trocam sinais de forma dependente do local e constroem uma rede de interconexões cheia de alças de controle obedecendo a mecanismos de homeostase que governam a sobrevivência. Trata-se de um sistema auto-organizado. As conexões entre células não estão precisamente pré-definidas nos genes do indivíduo. Portanto, mesmo dois conjuntos idênticos de genes (como no caso dos gêmeos univitelinos) resultam em sistemas nervosos distintos anatômica e fisiologicamente (ver abaixo). A natureza estocástica das forças que atuam no desenvolvimento do sistema nervoso torna praticamente impossível que haja uma pré-especificação de todas as conexões. Assim, a complexidade de conexões no sistema nervoso é extraordinária. Além disso, o sistema exibe memória; isto é, arranjos funcionais dinâmicos do sistema são constituídos de tal modo que mudanças prévias interferem nos arranjos funcionais subsequentes e também como o sistema processará uma nova informação. Esses arranjos dinâmicos contribuem para a formação de representações sobre o ambiente. Nesse sentido, a sinalização celular envolve diversos eventos interativos que geram mapas e circuitos que se adaptam aos novos sinais. Portanto, o sistema nervoso é uma estrutura dinâmica e estatística.

Uma grande quantidade de experimentos demonstra essas características do sistema nervoso. Entre eles, por exemplo, o clássico estudo de Hubel e Wiesel (1970) mostrando como a privação visual ao longo do desenvolvimento em gatos altera o padrão de disparos dos neurônios do córtex visual primário. Dados similares foram obtidos por Merzenich e Jenkins (1993) em relação ao córtex somato-sensorial primário. Esses pesquisadores seccionaram projeções somáticas aferentes específicas de macacos e, com a utilização de técnicas de registro unicelular, mapearam o córtex sensorial primário que (antes da secção) recebia informações através do nervo seccionado. Os resultados mostraram que, após a secção das projeções de uma determinada área, as regiões somáticas circunvizinhas passaram a determinar o padrão de disparos dos neurônios corticais anteriormente responsivos a informações provenientes da região cujo nervo foi seccionado. Portanto, ao terem perdido suas aferências, as células corticais" encontraram" uma nova fonte de informações; mais interessante, essas novas aferências provinham de regiões espacialmente próximas às que originalmente estimulavam aquelas células corticais.

Outro exemplo impressionante refere-se a irmãos gêmeos univitelinos, portanto com o mesmo patrimônio genético, estudados por Goldberg, Ragland, Torrey, Gold, Bigelow e Weinberger (1990). Esses autores relataram que um dos gêmeos do par pode ser vítima de esquizofrenia enquanto o segundo é completamente normal; estudos de radio-imagem mostram que o sistema nervoso do esquizofrênico é proporcionalmente menor e os ventrículos proporcionalmente maiores que o do irmão normal, confirmando observações feitas em outros pacientes com esquizofrenia que possuem menos tecido nervoso em relação a pessoas normais. Os fatores que levaram às distinções anatômicas e funcionais ainda são completamente desconhecidos, mas certamente estão relacionados com diferenças na sucessão de eventos a que os irmãos foram submetidos ao longo de sua história de desenvolvimento.

Esses experimentos realçam a extrema plasticidade do sistema nervoso. Essa característica, essencial para o entendimento dos processos de aprendizagem e memória, capacita a adaptação dos organismos às mudanças constantes que ocorrem no ambiente.

Do ponto de vista teórico é praticamente impossível que dois organismos sejam expostos exatamente às mesmas sequências de eventos e estímulos do ambiente, pelo simples fato de ocuparem posições diferentes do espaço. Suas histórias de interação com o ambiente serão diferentes, o que resultará em sistemas nervosos diferentes, ainda que os patrimônios genéticos sejam os mesmos. Esses fatores, críticos para o processo de adaptação ao ambiente, conferem individualidade cognitiva e afetiva. Não se sustenta, portanto, a noção de que não se pode entender a individualidade sob um prisma biológico. Pelo contrário, os mecanismos de desenvolvimento do sistema nervoso levam, necessariamente, à individuação. Por essa razão deve-se descartar a idéia de que o respeito ao ser humano e a ética são postos em risco ao se conceber a mente humana como fenômeno biológico. Ao contrário, por ser único no seu patrimônio genético e particularmente no seu patrimônio histórico, cada indivíduo é singular na sua essência e criatividade sendo, portanto, precioso. Exatamente essa singularidade de cada um é que deve ser respeitada e valorizada na condição humana.

 

A organização modular do sistema nervoso

Segundo Xavier (1993), "... o sistema nervoso está organizado de forma modular. Cada módulo mantém conexões diferentes com os outros e o nível de independência no funcionamento desses módulos parece variar. Lesões em módulos independentes eliminam as funções por ele desempenhadas, enquanto lesões em módulos que cooperam resultam numa alteração de desempenho dos módulos remanescentes de modo a minimizar as deficiências. O funcionamento independente, porém cooperativo, entre os diferentes módulos permite explicar não só dissociações experimentais observadas em indivíduos com lesões cerebrais, mas também a sensação de uma experiência de memória única em indivíduos normais." (p.108). A idéia expressa nessa frase também se aplica ao fenômeno da consciência.

Do ponto de vista evolutivo, essa organização do sistema nervoso parece ter derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas, resultando em especializações adaptativas que lidam com problemas específicos. De acordo com o "princípio de incompatibilidade funcional" (Sherry & Schacter, 1987), as propriedades específicas que fazem um sistema ser efetivo para a solução de um dado problema também fazem com que ele seja incompatível com as demandas de outros problemas. Isso não significa que o sistema não seja flexível e capaz de lidar com um grande conjunto de atividades.

As demonstrações mais contundentes desse arranjo modular advém de estudos de dupla dissociação (ver abaixo).

Paul Broca e Carl Wernicke (apud Maciel Jr., 1996) foram os primeiros a apresentar descrições precisas sobre correlações diretas entre estruturas do sistema nervoso e comportamentos altamente sofisticados, como é o caso da linguagem humana. Ambos descreveram casos de pacientes com problemas de afasia, um distúrbio de linguagem observado mais comumente em pacientes que sofreram algum tipo de traumatismo craniano com consequente oclusão de vasos sanguíneos em determinadas regiões do hemisfério cerebral esquerdo. Os pacientes descritos por Broca (apud Kandel, 1991; apud Mansur & Senaha, 1996), embora capazes de compreender perfeitamente o que se lhes dizia, não eram capazes de produzir sentenças em decorrência de lesões na região posterior do lobo frontal (posteriormente denominada "área de Broca"). Wernicke (apud Kandel, 1991), por outro lado, descreveu pacientes portadores de lesões na parte posterior do lobo temporal, na junção com os lobos occipital e parietal (atualmente denominada área de Wernicke), que apresentavam pouca compreensão da linguagem, embora pudessem produzir frases completas.

Estudos desse tipo mostram a existência de uma clara modularidade das funções que participam do processo de composição da linguagem. Isto é, estruturas anatomicamente distintas do sistema nervoso são responsáveis por diferentes etapas: lesões em algumas delas comprometem etapas do processamento sem interferirem com outras e vice-versa. O funcionamento integrado dessas diversas estruturas é necessário para o desempenho integral da função.

Observações similares relativas a diversos fenômenos de consciência e memória vêm sendo realizadas.

 

O fenômeno da visão às cegas ("blindsight")

As projeções da retina para o córtex visual primário (região V1 ou área 17) são topograficamente organizadas de modo que a uma determinada região da retina corresponde uma região do córtex estriado.

Pacientes com lesões em uma dada região do córtex visual estriado negam a percepção de estímulos visuais, como imagens de objetos ou luzes, sempre que estas imagens são projetadas nas regiões da retina correspondentes à porção lesada do córtex. Durante algum tempo, esse tipo de resultado foi considerado paradoxal uma vez que se sabia que a retina, além das projeções para o córtex estriado, projeta-se independentemente para outras regiões que não envolvem aquela estrutura. Assim, se os demais circuitos visuais mantinham-se intactos, como explicar essa "cegueira absoluta"?

Estudos posteriores envolvendo pacientes com esse tipo de lesão mostraram que a cegueira não era, de fato, absoluta, e que os pacientes eram capazes de discriminar precisamente algumas características do estímulo apresentado. Isto é, se o estímulo fosse apresentado numa situação que incluía escolhas induzidas (os pacientes eram instruídos a "simular" uma resposta), os sujeitos exibiam comportamentos adequados do braço, pulso e dos dedos para apanhar o objeto real, embora negassem a presença de qualquer objeto em seu campo de visão. Ou seja, os ajustes preparatórios do pulso, dedos e braço eram adequados à forma, orientação, tamanho e distância do objeto. O que é mais interessante, os pacientes direcionavam o movimento precisamente para o local onde o estímulo estava situado. É importante enfatizar que esse tipo de desempenho requer processamentos visuais precisos sobre as dimensões, além de profundidade e localização, o que envolve memórias de experiências passadas em situações similares; ademais, toda essa informação é utilizada para o cálculo dos ajustes motores necessários para cada tipo de objeto, o que é feito com surpreendente precisão.

É intrigante que toda essa quantidade de processamentos seja realizada sem que o paciente tenha conhecimento consciente de sua ocorrência; usualmente, quando informados de seu bom desempenho nesses testes, os pacientes o atribuem a um" golpe de sorte".

De fato, o nível de (in)consciência desses pacientes em relação a diferentes formas de estimulação parece variar (Weiskrantz, 1988), sugerindo que a experiência subjetiva de perceber o estímulo depende do nível de processamento que a informação recebe (para fenômenos similares envolvendo memória, ver Xavier, 1993). Por exemplo, um aumento na saliência do estímulo pode levar alguns pacientes a insistirem que "não vêem" o estímulo, embora possam "sentir" a presença de algo. Aumentos adicionais na saliência do estímulo podem levar a uma condição em que o paciente afirma "ver", mas que a experiência não é verídica. Outros, ainda, relatam "sombras escuras" à medida que se aumentam os níveis de contraste e brilho do estímulo (ver Weiskrantz, 1986, para detalhes).

Essas capacidades preservadas nos pacientes com visão-às-cegas provavelmente dependem de conexões entre o colículo superior e o córtex pré-estriado. É sabido, por exemplo, que neurônios da área V5 não perdem sua habilidade para detectar movimentos mesmo após a destruição do córtex estriado; já a destruição dos colículos superiores elimina essa capacidade (Rodman, Gross & Albright, 1989).

Esses resultados mostram que a informação visual pode controlar o comportamento, sem que o paciente tenha sensação consciente desse controle. Embora especulações sejam possíveis (ver abaixo), até o presente não está claro porque o processamento de informações em apenas um desses módulos resulta em percepção consciente.

 

Múltiplos sistemas de memória

Em estudos para avaliação da memória nos anos 50, voluntários recebiam uma lista de palavras não relacionadas e, em seguida, tinham que lembrá-las. As primeiras e as últimas palavras apresentadas eram melhor lembradas que as intermediárias. Se, no entanto, a evocação fosse retardada por alguns segundos e uma tarefa distrativa fosse introduzida nesse intervalo (contar, por exemplo), os voluntários lembravam-se principalmente das primeiras palavras apresentadas; a lembrança das últimas palavras estava tão prejudicada quanto a das intermediárias (e.g., Brown, 1958; Peterson & Peterson, 1959). A interpretação proposta afirmava que as palavras apresentadas por último eram armazenadas num sistema de memória de curta duração ("short-term memory" - STM), enquanto que as apresentadas no início, num sistema de longa duração ("long-term memory" - LTM).

Nesta ocasião, houve um marco nas pesquisas sobre memória: H.M., um paciente submetido à remoção bilateral de parte do lobo temporal medial (uma das estruturas do sistema nervoso), incluindo o giro parahipocampal, córtex entorrinal, amígdala e dois terços anteriores do hipocampo, numa tentativa de controlar os ataques associados com a epilepsia, passou a exibir uma profunda incapacidade de formar novas memórias (amnésia anterógrada). A acuidade de sua memória para eventos ocorridos pouco antes da cirurgia também estava severamente comprometida (amnésia retrógrada); esse comprometimento, no entanto, tornava-se progressivamente menor para informações adquiridas até 3 anos antes da cirurgia de tal modo que informações adquiridas anteriormente a este período eram lembradas normalmente (Scoville & Milner, 1957). Diversas outras funções estavam intactas. Por exemplo, H.M. era capaz de conversar normalmente, desde que não fosse distraído (Pribram, 1986), sua atividade intelectual estava normal (Scoville & Milner, 1957), sua memória de curta duração estava preservada (Milner, Corkin & Teuber, 1968), seu desempenho em testes de percepção era normal (Milner, Corkin & Teuber, 1968; Scoville & Milner, 1957), assim como sua capacidade para adquirir novas habilidades motoras, perceptuais e cognitivas (Cohen, 1984). Não obstante diversas estruturas terem sido removidas no paciente H.M., os efeitos amnésicos foram atribuídos à lesão hipocampal. De fato, pacientes com perdas celulares restritas às células piramidais do campo CA1 do hipocampo, em decorrência de isquemia cerebral transitória (Zola-Morgan, Squire & Amaral, 1986), e pacientes com anormalidades hipocampais decorrentes de encefalite viral (Press, Amaral & Squire, 1989), exibem uma síndrome amnésica similar.

É notável, portanto, que esses pacientes sejam capazes de adquirir novas habilidades motoras, perceptuais e cognitivas e, como pessoas normais, reterem esses tipos de informações por prolongados períodos de tempo: a retenção da habilidade é evidenciável em testes realizados mesmo um ano após a aquisição original. O mais impressionante, no entanto, está no fato dos pacientes insistirem que não são capazes de desempenhar as habilidades, pois não se recordam de tê-las aprendido. Também o efeito de pré-ativação (facilitação inconsciente ou viés no desempenho em decorrência da exposição prévia às informações utilizadas no teste -" priming, em inglês; por exemplo, uma única exposição a uma palavra pode ser suficiente para facilitar seu processamento horas depois) encontra-se preservado nesse tipo de paciente amnésico (para revisão, ver Cohen, 1984). Além disso, a STM, ou como prefere Baddeley (1992), memória operacional (um tipo de sistema de capacidade limitada com múltiplos componentes que permite reter informações por curtos intervalos de tempo, para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas), parece intacta (Baddeley & Warrington, 1970). Este último resultado é particularmente interessante pois permite descartar a possibilidade de que haja problemas de percepção (ou registro), de aprendizagem de regras ou prejuízo em alguma outra função cognitiva que impedisse a aquisição da informação. A aquisição ocorreu e o paciente é capaz de referir-se a ela conscientemente, durante um determinado intervalo de tempo. Sua principal dificuldade parece ser a de reter esse tipo de informação por prolongados períodos de tempo.

Por outro lado, Shallice e Warrington (1970) descreveram uma síndrome oposta num paciente capaz de reter apenas 2 dígitos de informação, portanto com um severo prejuízo de STM, sem qualquer lembrança das últimas palavras de uma lista. A LTM desse paciente apresentava-se completamente normal. Essa dupla dissociação (ver abaixo) sugere que os sistemas de arquivamento de STM e de LTM são distintos e não funcionam de forma serial, como havia sido proposto por Atkinson e Shiffrin em 1968. Além disso, se a STM fosse necessária para a formação da LTM, como seria possível explicar que pacientes com problemas na STM podem aprender e ter uma vida quase normal?

É importante mencionar, neste contexto, que o desempenho de indivíduos normais também varia em função das características da informação processada. Por exemplo, Baddeley (1966b) mostrou que palavras com sons similares são menos lembradas pela STM que palavras fonologicamente diferentes, mesmo que possuam significados semelhantes. Por outro lado, este padrão se reverte quando LTM é requerida (Baddeley, 1966a), sugerindo que, pelo menos em relação a palavras, a STM depende da acústica, enquando a LTM favorece a codificação semântica. Por outro lado, em tarefas concorrentes, em que voluntários devem desempenhar um raciocínio gramatical ao mesmo tempo que repetem continuadamente de 0 a 8 dígitos, aumentos na quantidade de dígitos concorrentes aumentam o tempo de processamento, mas não prejudicam a precisão do desempenho (Baddeley, 1986), indicando que a capacidade de manter a atenção para o raciocínio gramatical é independente da retenção dos dígitos na STM. Resultados similares foram obtidos em testes de compreensão e de lembrança livre, em que uma carga de dígitos concomitante impediu a LTM mas manteve a lembrança dos últimos ítens experienciados intacta. Como poderiam os sujeitos continuar resolvendo problemas mesmo com a STM cheia de informações? Por que não houve prejuízo na lembrança dos últimos ítens experienciados apesar da tarefa concorrente? A conclusão foi que a memória operacional também pode ser dividida em sub-componentes (ver Baddeley, 1992).

Essas dissociações, i.e., prejuízos no desempenho de algumas tarefas em contraposição a um desempenho normal em outras tarefas, são apontados como evidência da existência de diferentes sistemas de memória. Mencione-se que alguns autores tentaram interpretar essas dissociações como decorrentes da sensibilidade diferencial das tarefas utilizadas. De acordo com este ponto de vista, os pacientes amnésicos exibiriam dificuldades em tarefas cuja demanda fosse maior e seu desempenho estaria preservado em tarefas cuja demanda fosse menor (e.g., Meudell & Mayes, 1981). No entanto, como apontado por Xavier (1993), esse "raciocínio não se aplica (...) quando os resultados experimentais apontam para a existência de uma dupla dissociação. Isto é, quando lesões em determinados sistemas neurais resultam em prejuízos no desempenho de uma dada tarefa 1, deixando intacto o desempenho de uma segunda tarefa 2, enquanto um segundo tipo de lesão produz o resultado inverso, ou seja, prejuízo na tarefa 2 e desempenho normal em 1." (p.66).

Estudos de dissociação levaram Cohen (1984), Squire (1992) e Squire e Zola-Morgan (1991), a propor a distinção entre memória declarativa (consciente ou explícita) e memória não-declarativa (ou processual ou, ainda, implícita), ambos considerados como sistemas de memória de longa duração. Memória declarativa refere-se à retenção de experiências sobre fatos e eventos do passado, i.e., o indivíduo tem acesso consciente ao conteúdo da informação, sendo adequada para o arquivamento de associações arbitrárias após uma única experiência. De acordo com esses autores, memória declarativa seria flexível e prontamente aplicável a novos contextos e é exatamente o tipo de memória prejudicada nos pacientes amnésicos. Em contraposição, não haveria possibilidade de acesso consciente ao conteúdo da memória não-declarativa, que seria evidenciável apenas através do desempenho. Este tipo de informação seria adquirido gradualmente ao longo de diversas experiências, estando fortemente ligada à situação de aquisição original; seria, portanto, inflexível e pouco acessível a outros sistemas. A memória declarativa é adicionalmente sub-dividida em memória para fatos (ou semântica) e para eventos (ou episódica), sendo esta última autobiográfica. E a memória não-declarativa, em habilidades e hábitos, pré-ativação, condicionamento clássico simples e aprendizagem não associativa, incluídas aqui habituação e sensibilização (Squire & Zola-Morgan, 1991). Essa taxonomia dos sistemas de memória foi, posteriormente (Squire & Knowlton, 1995), associada a diferentes estruturas do sistema nervoso; lesões nessas estruturas resultariam em deficiências no processamento de informações por aqueles sistemas. De acordo com essa proposta, memória declarativa (tanto para fatos, como para eventos) estaria associada as estruturas do lobo temporal medial e diencéfalo, habilidades e hábitos ao estriado, a pré-ativação ao neocórtex, condicionamento clássico simples relacionado à amígdala nas respostas emocionais e ao cerebelo nas respostas da musculatura esquelética, e aprendizagem não-associativa a vias reflexas.

Parece haver, ainda, especializações inter-hemisféricas para as funções de memória em humanos, sendo que o hipocampo esquerdo estaria relacionado com linguagem (particularmente no mapeamento semântico da linguagem - ver OKeefe & Nadel, 1978), enquanto o hipocampo direito estaria relacionado com o mapeamento cognitivo.

Assim, também no que se refere aos sistemas de memória, o sistema nervoso parece estar organizado de forma modular havendo informações às quais a pessoa tem acesso consciente e outras às quais não há acesso consciente. Dada a natureza modular do processamento, as informações são distribuídas continuamente através da rede de processamento; essas informações, mesmo quando não representadas conscientemente, podem influenciar a percepção ou ação em curso (ver abaixo).

 

Negligência

Uma das formas mais comuns de negligência é a hemi-negligência ou negligência unilateral caracterizada por um prejuízo na percepção e concepção de uma das metades do espaço egocêntrico contralateral ao hemisfério cerebral comprometido. Quando se solicita a um paciente, por exemplo, com lesões no córtex parietal direito que desenhe uma flor, ele irá desenhar apenas sua metade direita; muitas vezes, quando fazem suas refeições, os pacientes não comem a porção do alimento situada na metade esquerda do prato; podem apresentar prejuízos na leitura de partes de palavras ou porção de sentenças (paralexia); utilizam somente um lado da página quando escrevem; e podem, ao utilizar máquinas de escrever, datilografar incorretamente letras que estão em um dos lados do teclado (paragrafia). Em alguns casos, pode ocorrer ausência de resposta aos estímulos presentes na metade esquerda de um objeto, ou seja, uma negligência centrada no objeto, ou haver a chamada negligência pessoal, caracterizada por dificuldades em reconhecer suas próprias extremidades como partes integrantes de seu corpo. Neste último caso, os pacientes podem queixar-se que "braços e pernas de algum desconhecido" estão na cama juntamente com eles, quando se deitam (frequentemente, pacientes com esses distúrbios não vestem nem arrumam o lado de seu corpo negligenciado) (ver Heilman, Watson & Valenstein, 1993).

Bisiach e Luzzatti (1978) demonstraram que esse fenômeno não se trata de um problema de memória. Esses autores pediram aos pacientes que se imaginassem numa dada posição de um ambiente bem conhecido e que o desenhassem. Como esperado, os pacientes desenharam, com base na memória, apenas a metade direita da cena. Então, os autores pediram que os pacientes se imaginassem sofrendo uma rotação de 180 graus e que, novamente, desenhassem o ambiente. Com base na memória, os pacientes desenharam o lado direito da cena. Assim, esses pacientes foram capazes de desenhar o ambiente completo pois os elementos omitidos quando sob uma perspectiva foram acrescentados quando a perspectiva foi invertida. Em outras palavras, os pacientes dispunham da memória para as informações de ambos os lados da cena, mas numa dada perspectiva, somente as informações do lado direito eram processadas.

Esses resultados levaram à interpretação de que a negligência unilateral seria fruto de um prejuízo de atenção para a porção do espaço contralateral ao hemisfério lesado decorrente de sua hipoatividade (Heilman, Watson & Valenstein, 1993). Em outras palavras, o nível de atividade do hemisfério íntegro seria proporcionalmente maior que o do lesado, deslocando assim o foco de atenção. Congruentemente, essa dificuldade de atenção na negligência pode ser modificada, e mesmo corrigida com o uso de artifícios mobilizadores da atenção em direção ao espaço negligenciado. Por exemplo, Rubens (1985), Silberpfennig (1949), Vallar, Sterzi, Bottini, Cappa e Rusconi (1990) conseguiram restabelecer temporariamente a percepção normal tanto em pacientes com negligência espacial quanto em pacientes com negligência pessoal (de partes do próprio corpo) através da estimulação térmica do ouvido interno (contralateral à lesão para estímulos frios e ipsilateral para quentes). De acordo com esses autores, a estimulação vestibular provocaria uma elevação da atividade do hemisfério lesado restabelecendo a capacidade de processamento dos estímulos contralaterais em níveis adequados à sua representação consciente.

Quando submetidos ao teste de bissecção de linhas, em que devem assinalar linhas dispostas aleatoriamente sobre uma folha de papel, os pacientes com negligência tipicamente assinalam apenas aquelas localizadas à direita da folha; se incitados a continuarem na execução da tarefa, dizem ser impossível, pois "não existem mais linhas a serem assinaladas". Padrão de resultados diferente é obtido quando se utiliza uma versão modificada da tarefa onde evita-se a visão direta tanto da folha de papel quanto da mão do paciente, através do uso de um anteparo. Nesta versão utiliza-se um jogo de espelhos para servir como guia à execução da tarefa (espelhos estes que provocam uma inversão nas relações esquerda/direita naturais). Dois tipos de resultados são, então, observados: (1) alguns indivíduos assinalam apenas as linhas que são vistas no seu campo visual direito (que corresponde fisicamente ao lado esquerdo da folha), atravessando a linha sagital mediana e assinalando as linhas anteriormente negligenciadas durante a primeira versão da tarefa; (2) outros sujeitos assinalam somente as linhas localizadas na porção direita da folha, apesar delas estarem agora dispostas do lado esquerdo do seu campo visual. Esses resultados mostram que a falta de consciência naquilo que parecia ser uma síndrome única pode ser dividida em no mínimo dois tipos diferentes de distúrbios da consciência, com etiologias distintas. O primeiro, gerado por um prejuízo de exploração visual do lado contralateral ao hemisfério lesado e o segundo relacionado a um prejuízo na capacidade de exploração motora do lado contralateral ao espaço egocêntrico. O fato relevante dentro deste quadro é a surpreendente dissociação, e inversão em circunstâncias específicas, encontrada entre a consciência ou ausência-de-consciência da informação de um dos lados, obtida através da manipulação da relação comportamento motor e informação visual nos pacientes do segundo grupo. 

Outro aspecto curioso na negligência unilateral refere-se ao tipo de influência que as informações provenientes do hemi-espaço negligenciado exercem sobre o desempenho do paciente. Em tarefas de reprodução de desenhos, pacientes sofrendo de negligência unilateral, como descrito anteriormente, desenham apenas as respectivas metades direitas. Todavia, observa-se que frequentemente detalhes presentes somente nas metades esquerdas, negligenciadas, são transpostos às metades direitas dos desenhos, dando origem ao fenômeno designado por alestesia. Por exemplo, Vallar, Rusconi e Bisiach (1994) pediram a um de seus pacientes (R.G.) que reproduzisse alguns desenhos de animais quiméricos (desenhos formados pela justaposição de metades distintas de dois animais). Ao realizar o traçado da cabeça de um canguru, baseado na quimera de um cervo à esquerda / canguru à direita, R.G. disse: "aqui alguém pode desenhar um cervo." Porém, indagado, o paciente não reconheceu a estrutura quimérica do desenho. Em outra situação, Halligan, Marshall e Wade (1992) apresentaram a um paciente negligente o desenho de uma borboleta. Ao ser realizada a cópia desse desenho o paciente omitiu a asa esquerda porém transpôs alguns de seus detalhes para o lado direito.

Há dois tipos principais de hipóteses sobre o funcionamento do sistema nervoso para explicar esses fenômenos. Uma delas baseia-se na idéia de processamento serial, segundo a qual a seqüência de estágios de processamento da informação culminam em um "centro privilegiado" responsável pelo aparecimento da consciência (ver abaixo). A principal dificuldade desta hipótese está no fato de que não há um único tipo de lesão descrita que produza a perda completa e absoluta de consciência. A outra idéia baseia-se na noção de que o processamento estaria distribuído por todo o sistema nervoso, sendo que diferentes módulos de processamento seriam ativados em paralelo e o resultado dessa configuração de atividades nos diversos módulos determinaria a sensação de consciência. De acordo com essa proposta, os casos de negligência unilateral originar-se-íam não pela perda de determinado repertório cognitivo, mas sim por um excesso de controle do comportamento, determinado pelo córtex parietal esquerdo que permanece intacto. Com a ausência de seu "opositor ou controlador", a porção esquerda do cérebro tornar-se-ía desinibida, orientando o comportamento para o lado direito, sem oscilações entre as duas porções do espaço, como seria o caso em pessoas normais. Essa hipótese postula, portanto, que pacientes negligentes exibem excesso de atenção para o lado direito, havendo uma tendência quase compulsiva para responder apenas aos estímulos apresentados desse lado. Em outras palavras, uma vez que a atenção tenha sido focalizada no lado direito, o indivíduo teria dificuldades de desviá-la para o lado esquerdo. O fato de pacientes com negligência unilateral excederem pessoas normais no desempenho de testes de reação quando os estímulos são apresentados à direita favorece essa interpretação (para revisão, ver Kinsbourne, 1993).

Além da negligência às informações sensoriais provenientes do lado esquerdo do espaço ou sobre a porção esquerda do seu próprio corpo, esses pacientes também exibem anosognosia, isto é, desconhecem o fato de não serem capazes de responder às informações do lado esquerdo; por essa razão, não tentam compensar suas deficiências, o que torna o tratamento mais difícil pois os pacientes negam ter qualquer tipo de dificuldade, por mais óbvia que ela seja (ver abaixo).

Entre parênteses, parece relevante mencionar neste contexto o fenômeno denominado completamento perceptual, observado em pessoas normais (para detalhes, ver Gattass, 1993). Há uma região da retina denominada disco óptico (ou ponto cego) que não possui receptores sensoriais, sendo portanto insensível à luz. No entanto, mesmo fechando-se um dos olhos, o que impede a sobreposição de imagens, não se percebe "um buraco" na cena visual. Isso se deve ao fato do sistema nervoso" completar" a imagem com base nas informações provenientes das regiões circunvizinhas: um fundo amarelo será preenchido com a cor amarela, um padrão com listras horizontais será completado com listras horizontais, uma superfície de pontos coloridos que acendem e apagam será completada com o mesmo padrão, ou seja, o sistema nervoso preenche aquele espaço com o padrão mais provável e coerente, dadas as informações que ele está recebendo das células receptoras que rodeam a região insensível (Ramachandran, 1992). Similarmente, a representação de um objeto é construída mesmo diante de uma imagem parcial ou deteriorada do mesmo.

A Figura 1 pode ser utilizada para observação do fenômeno de completamento perceptual. Se o leitor seguir atentamente as indicações da legenda perceberá que a determinada distância do desenho, a figura à direita desaparecerá e no seu lugar o leitor será capaz de perceber o preenchimento realizado pelo cérebro. No local da figura o leitor perceberá o padrão da folha como um todo. Isso ocorre porque nesse ponto a figura está incidindo diretamente no ponto cego do olho direito, ou seja nenhuma informação visual sobre essa região alcançará o córtex visual. Como resultado, o cérebro preenche esse espaço "vazio" com o padrão mais provável, que alcança o córtex a partir das regiões circunvizinhas.

Segundo Gattass (1993) "a percepção compara a informação neural originada em nossa retina com representações neurais previamente aprendidas, trazendo essas representações para um nível de consciência. Nesse processo, as imagens parciais são reconstruídas e a representação neural resultante é completa." (p.25). Esses processos que levam ao completamento perceptual ocorrem automaticamente ("inferência inconsciente", de acordo com Shallice, 1990), sem que a pessoa se dê conta de que estão ocorrendo.

Da mesma forma, o sistema nervoso de pacientes com negligência unilateral, apesar da lesão, parece reter a capacidade para completar a imagem da parte do ambiente para qual não atenta. Por exemplo, se uma figura incompleta for apresentada de maneira a fazer com que uma porção ausente incida diretamente sobre o hemicampo negligenciado, o paciente afirma ver uma figura completa (Kinsbourne, 1995). Aliás, o próprio fenômeno da anosognosia provavelmente decorre dessa característica, i.e., como ocorre completamento perceptual, os pacientes tem a sensação de que sua percepção é completa e acabam por desconhecer a própria deficiência. 


Figura 1. Estas três imagens permitem evidenciar a existência do ponto cego e o fenômeno do completamento perceptual. Utilize uma imagem por vez, iniciando pela superior. Feche o olho esquerdo e fixe o olhar no círculo menor (mantendo a imagem a uma distância de aproximadamente 40 centímetros do olho). Mantendo o olhar fixo no círculo menor, aproxime lentamente a imagem. Na distância aproximada de 30 cm, o círculo maior "desaparecerá" pois será projetado no ponto cego. Repita o procedimento com as outras imagens e verifique que o completamento perceptual depende das imagens projetadas nas circunvizinhanças do ponto cego.

 

Por exemplo, Bisiach (1988) descreveu o caso de uma paciente vítima de hemiplegia, de origem vascular, à esquerda, que verbalmente era capaz de reconhecer sua hemiplegia ao mesmo tempo que, comportamentalmente, se engajava em atos impossíveis como andar, ou mais impressionantemente, pedia ao seu marido que trouxesse suas agulhas de tricô logo após ter reclamado de suas dificuldades em fazer qualquer movimento com o braço esquerdo.

Bisiach (1988) mostrou também que a detecção de estímulos no campo visual contralateral ao hemisfério lesado (neste estudo o direito), varia marcadamente em função da resposta requerida (verbal ou pressão de uma tecla). Numa situação em que pequenas lâmpadas eram acesas no lado direito ou esquerdo do ponto de fixação visual (de modo que a informação proveniente do hemicampo visual direito fosse projetada no hemisfério esquerdo e a informação do hemicampo esquerdo fosse projetada no hemisfério direito), os pacientes deveriam relatar (verbalmente) a quantidade de lâmpadas que tinham sido acesas ("uma", "duas" ou "nenhuma") ou pressionar uma tecla quando apenas uma lâmpada tivesse sido acesa, evitanto pressioná-la no caso de duas ou nenhuma lâmpada terem sido acesas. Em ambos os casos, os pacientes exibiram prejuízo de desempenho em relação ao hemicampo visual contralateral à lesão, i.e., no caso destes pacientes, a detecção de estímulos visuais foi quase total em relação às informações apresentadas no hemicampo visual direito e diminuída em relação às informações apresentadas no hemicampo visual esquerdo. Ou seja, em diversas tentativas com um único estímulo apresentado no campo visual esquerdo o paciente respondeu" nenhum" na condição verbal e deixou de pressionar a tecla na condição motora. Além disso, em situações de estimulação bilateral, os pacientes comportaram-se, na maioria das vezes, como se apenas um estímulo tivesse sido apresentado (o do lado direito); o número de respostas à estimulação do lado esquerdo reduziu-se adicionalmente. Entretanto, a detecção do estímulo apresentado no campo visual esquerdo foi significantemente inferior quando a resposta a ser emitida envolvia a pressão à tecla, tanto nos casos de estimulação simples como nos casos de estimulação dupla, em relação à condição em que a resposta tinha que ser verbal. Esses resultados indicam que os estágios de processamento da informação visual podem ser influenciados pela natureza da resposta requerida.

Também pacientes com certos tipos de lesões frontais no hemisfério direito negligenciam o hemiespaço esquerdo. Bisiach (1988) relata estudos envolvendo esse tipo de paciente em que uma lâmpada verde ou vermelha era apresentada por 200 ms à direita ou à esquerda do ponto de fixação do foco visual. Duas teclas para resposta (uma verde outra vermelha) foram colocadas uma em cada lado do espaço. A disposição das lâmpadas e das teclas foi variada de tal forma que gerou 4 combinações possíveis, duas cruzadas e duas não-cruzadas. Os pacientes tinham que pressionar a tecla de mesma cor em relação ao estímulo apresentado. O paciente F.S., por exemplo, foi capaz de relatar verbalmente a cor da lâmpada apresentada em seu hemicampo visual direito em todas as tentativas de uma sessão em que as teclas não foram utilizadas. Além disso, exibiu respostas precisas a todas as tentativas em que o estímulo foi apresentado no hemicampo direito quando uma resposta à tecla do lado direito era requerida. Entretanto, a apresentação de um estímulo ainda no hemicampo direito, mas com a tecla para identificá-lo localizada, agora, no lado esquerdo, levou à ausência de qualquer reação em metade das tentativas; além disso, em algumas dessas ocasiões o paciente declarou espontaneamente que nenhum estímulo havia sido apresentado (Bisiach, Berti & Vallar, 1985). Neste exemplo fica claro que, embora o estímulo utilizado pareça estar acima do limiar para percepção consciente, sua efetiva percepção dependerá de um processamento adicional que ocorrerá ou não dependendo da resposta requerida. Ou seja, uma falha no sistema de ação relevante a ser utilizado após a apresentação do estímulo parece prevenir o processamento adicional daquela representação que teria sido (no caso da integridade do sistema de ação) a base para um relato ou resposta sobre ela.

Esses fenômenos permitem, assim, evidenciar que prejuízos no funcionamento de módulos do sistema nervoso que interferem no direcionamento da atenção, prejudicam a percepção consciente. Mais interessante, eles permitem evidenciar que o sistema nervoso é capaz de gerar congruência a partir de informações incompletas (ou contrastantes), indicando que o ambiente passa a ser interpretado com base nas expectativas geradas com base na memória de regularidades passadas. Em determinadas situações, quando há conflito entre a percepção momentânea e a informação da memória, a congruência será mantida apenas em relação à percepção e não em relação à memória, como se as expectativas do paciente também tivessem sido perdidas. Por exemplo, Bisiach, Berti e Vallar (1985, apud Shallice, 1990) descreveram uma observação dramática ocorrida durante a interação do médico (M) com um paciente vítima de negligência unilateral (P):

M: (Apresentando o próprio dedo no campo visual direito do paciente)" Agarre meu dedo com sua mão esquerda .... O que? Você não consegue mover a mão esquerda?"

P: ..."Me dê algum tempo para que eu possa traduzir o pensamento em ação."

M: "Por que você não precisa de tempo para traduzir o pensamento em ação quando usa a mão direita? Será que você não consegue mover sua mão esquerda?"

P: "Posso movê-la perfeitamente. Somente que, por vezes, há algumas reações ilógicas no comportamento; algumas positivas e outras negativas..."

M: (Segurando a mão esquerda do paciente entre as próprias mãos)" De quem são estas mãos?"

P: "Suas"

M: "Quantas?"

P: "Três"

M: "Já viu um homem com três mãos?"

P: "Uma mão é a extremidade de um braço. Uma vez que você tem três braços, você deve ter três mãos."(p.397).

Como o sistema nervoso lida com situações onde duas informações concomitantemente apresentadas contrastam do ponto de vista perceptual? Gregory (apud Shallice, 1990) construiu um "cubo" oco com bordas auto-iluminadas e dimensões tais que uma pessoa normal, observando-o no escuro, tem a impressão de que a face do cubo fisicamente mais próxima a ela corresponde à face mais distante (como no cubo de Neckar). Gregory pede, então, que o observador gire o cubo com a própria mão. As sensações visual e cinestésica produzidas no observador entram em conflito pois sugerem que o cubo está girando de modos diametralmente opostos. O que o observador percebe nestas condições é uma dentre duas possibilidades: (1) que o cubo está sofrendo uma espécie de distorção visual (que corresponde, na realidade, à percepção de sua forma real), ou (2) que o objeto continua sendo um cubo em rotação, mas que o próprio pulso do observador está sofrendo uma rotação em sentido contrário ao do movimento aplicado, como se fosse quebrar. Isto é, diante da inconsistência (em termos das expectativas em relação ao que deveria ser observado) prevalece apenas uma das interpretações, sendo a outra desconsiderada pelo sistema nervoso. Shallice (1990) enfatiza que "... o poder da inferência inconsciente é tão grande que uma ou outra percepção, que de outra forma seria clara, não pode persistir. Os resultados do processamento nos dois módulos perceptuais - visual e táctil - devem produzir representações do mundo que sejam consistentes." (p.400).

Assim, além de depender do direcionamento da atenção, a percepção consciente parece depender das expectativas criadas (com base em memórias de regularidades passadas), da intencionalidade e da congruência da estimulação presente em relação a estes outros fatores.

 

Secção do corpo caloso e especialização inter-hemisférica

Experimentos envolvendo pacientes portadores de secção do corpo caloso (um feixe de fibras contendo milhões de axônios, que conecta ambos os hemisférios cerebrais) mostram que a capacidade de desempenhar ações altamente direcionadas nem sempre depende da percepção consciente. 

Há cerca de 35 anos, pacientes vítimas de epilepsia multifocal intratável passaram a ser submetidos a um tratamento cirúrgico que envolvia a secção do corpo caloso e de outras comissuras cerebrais. O princípio desse tratamento envolve desconectar os dois hemisférios cerebrais de modo a restringir os ataques ao hemisfério que contém o foco epiléptico, diminuindo assim o número de surtos. De fato, o tratamento teve grande sucesso (Gazzaniga, 1967; Sperry, 1964).

Embora avaliações psicológicas de pacientes submetidos a esse tipo de tratamento mostrassem uma ausência de alterações detectáveis no temperamento, personalidade ou inteligência, e fossem, quando em situações sociais comuns, indistinguíveis de pessoas normais (Bogen, 1993; Gazzaniga, 1967), testes mais específicos (Sperry, 1970) (ver abaixo) permitiram evidenciar deficiências envolvendo a transferência inter-hemisférica de informações (Bogen, 1993). Como previamente demonstrado em gatos e macacos também submetidos a desconexão inter-hemisférica, os testes revelaram a existência de uma enorme especialização hemisférica nos seres humanos (Sperry, 1974).

É importante mencionar que do ponto de vista anátomo-funcional o lado esquerdo do corpo mantém conexões somatossensoriais e motoras com o hemisfério direito, enquanto o lado direito do corpo mantém esse tipo de conexões com o hemisfério esquerdo, ou seja, há um cruzamento total dessas vias sensoriais e motoras através do plano sagital do corpo. Em relação ao sistema visual, é sabido que as hemi-retinas nasal do olho esquerdo e temporal do olho direito, projetam-se para o hemisfério direito, enquanto as hemi-retinas temporal e nasal dos olhos esquerdo e direito, respectivamente, projetam-se para o hemisfério esquerdo. Esse tipo de organização permite produzir arranjos experimentais que possibilitam fornecer informações de diferentes modalidades sensoriais para cada um dos hemisférios cerebrais separadamente, de modo que a informação só alcança o outro hemisfério através das fibras que compõem o corpo caloso.

Na grande maioria dos pacientes com desconexão inter-hemisférica, quando luzes são apresentadas de modo a atingir apenas o hemisfério esquerdo do paciente, este imediatamente relata tê-las visto. Se as mesmas luzes forem apresentadas apenas para o hemisfério direito, os pacientes negam seu aparecimento; no entanto, se forem instruídos a apontar diretamente para a luz apresentada, exibem respostas apropriadas. Assim, embora não tenham vivenciado a experiência fenomenológica (conscientemente) sendo incapazes de relatar verbalmente as percepções do hemisfério direito, são capazes de atender a comandos verbais e a exibir um comportamento indicativo de que a informação foi adequadamente processada (Gazzaniga, 1967).

Em 1970, Sperry relatou resultados ainda mais surpreendentes sobre este tipo de paciente. Num dos estudos, a palavra "noz" foi projetada no hemisfério esquerdo, e o paciente imediatamente a identificou e a verbalizou. No entanto, quando apresentada para o hemisfério direito, o paciente, com sua mão esquerda, procurava entre vários objetos até encontrar a noz. É importante mencionar que a mão não era vista pelo paciente, sendo o objeto identificado apenas pelo tato. Mais interessante, quando questionado sobre o que estava fazendo, o paciente era incapaz de responder ou mesmo de dizer que tinha pego uma noz com sua mão esquerda. Esse resultado indica que o hemisfério direito deste paciente foi capaz de ler a palavra projetada e de acionar seu córtex motor de modo a localizar o objeto (o que requer sequências complexas de movimentos); então, o reconhecimento do objeto foi realizado tatilmente (o que requer a participação do córtex somatossensorial) de modo que a tarefa completa requer a transferência de informações da modalidade visual (leitura da palavra) para a modalidade táctil, envolvendo, evidentemente, memória. Num outro estudo, a palavra" livro" foi projetada para o hemisfério direito. De posse de uma caneta na mão esquerda, e sem acesso visual a ela, o paciente escreveu a palavra "livro". Se arguido sobre o que a mão escrevêra, o paciente foi incapaz de relatar, embora tenha sentido os movimentos de seu corpo enquanto escrevia; nestas condições, algumas vezes os pacientes inventam (tentam advinhar) uma resposta qualquer em relação ao que fizeram. Também o fazem quando estímulos com fortes componentes emocionais são apresentados apenas para o hemisfério direito. Por exemplo, se a fotografia de uma mulher nua for apresentada para o hemisfério direito de alguns destes pacientes do sexo masculino, os mesmos rirão desconcertadamente e descreverão uma sensação de embaraço, sem, no entanto, identificar a origem desse sentimento. Nessas circunstâncias os pacientes também tentam apresentar interpretações coerentes para seu próprio comportamento e sensação.

A apresentação visual da palavra "ande" para o hemisfério direito de um paciente com desconexão inter-hemisférica faz com que ele se levante e comece a andar. Igualmente, a apresentação da palavra "ria" faz com que ele dê risadas. Quando se pede ao paciente que explique seu súbito comportamento ele diz:" - Eu estou indo até a máquina buscar um refrigerante" (no caso da palavra "ande") ou "- Vocês sempre me fazem esse monte de testes ... que jeito estranho de viver" (no caso da palavra "ria") (Gazzaniga, 1988, p.234). Ou seja, na ausência de uma explicação para o comportamento manifesto, o paciente confabula, buscando uma justificativa lógica para o seu comportamento. A projeção da mesma informação no hemisfério esquerdo é lida, percebida e comunicada pelo paciente como tendo sido apresentada em seu campo visual.

Esse mesmo fenômeno ocorre em testes de identificação de contexto. Por exemplo, Gazzaniga (1983) testou o paciente P.S., que tinha sido submetido à secção do corpo caloso, numa situação em que eram apresentadas duas figuras concomintantemente, uma para cada hemisfério cerebral; para o hemisfério esquerdo apresentou um pé de galinha e para o hemisfério direito o quadro de uma nevasca. Então, solicitou que o paciente escolhesse, dentre uma série de estímulos, aqueles que se associavam às figuras previamente apresentadas. P.S. escolheu uma figura de galinha com a mão direita e a de uma pá com a mão esquerda (pás são necessárias para retirar a neve dos quintais, após nevascas). Quando arguído sobre suas escolhas, P.S. respondeu: "- Oh, isso é simples. O pé é da galinha...". E confabulou: "...e você precisa de uma pá para limpar a sujeira que ela faz." 

Com o passar dos testes os pacientes progressivamente adquirem uma variedade de estratégias para resolver sua deficiência de transferência inter-hemisférica. Por exemplo, quando uma informação é apresentada apenas para o hemisfério esquerdo, mas os pacientes devem desempenhar a ação com a mão esquerda, eles falam em voz alta o nome do objeto enquanto exploram-no manualmente. Como o hemisfério direito de alguns desses pacientes pode reconhecer palavras individuais, o objeto pode ser identificado pela mão esquerda o que, de outra forma, não seria possível (Bogen, 1993). Da mesma maneira, quando se utiliza uma situação de discriminação entre dois estímulos simples, como verbalizar se uma lâmpada apresentada ao hemisfério direito é verde ou vermelha, a quantidade de acertos na sua primeira opção é sempre 50%, i.e., os pacientes tentam adivinhar. Quando o fazem acertadamente, satisfazem-se com a resposta; no entanto, quando sua adivinhação (e consequente verbalização) está errada, franzem a testa, mexem a cabeça em sinal negativo e, então, corrigem imediatamente sua resposta afirmando que deveriam ter dito a outra opção. Ou seja, o hemisfério esquerdo tentou adivinhar o que o direito viu. Ao" ouvir" a resposta errada, o hemisfério direito precipita uma resposta motora que sinaliza, para o hemisfério esquerdo, que a resposta estava errada; este, então, a corrige emitindo outro julgamento verbal. Esse mecanismo de sinalização pode tornar-se extremamente refinado (Gazzaniga, 1967).

Os resultados de estudos envolvendo pacientes com desconexão inter-hemisférica levou, inicialmente, alguns autores (e.g., Gazzaniga, 1967) à proposta de que o hemisfério esquerdo seria fundamental para a linguagem e para o desempenho de tarefas analíticas, tendo suas respostas priorizadas em relação ao hemisfério direito; de acordo com esse ponto de vista, o hemisfério esquerdo seria dominante em relação ao direito. Este último estaria mais habilitado para realizar tarefas visuo-espaciais, que requereriam habilidades sintéticas.

A conclusão mais interessante em relação a esses resultados, no entanto, seria a constatação de que uma vez separados, os dois hemisférios cerebrais humanos parecem capazes de funcionar fora do domínio consciente um do outro (ver Sperry, 1968, 1984). Segundo essa visão, cada hemisfério pode aprender, lembrar, ter emoções e conduzir planos de atividades independentemente.

Para Gazzaniga (1967), essas evidências indicavam que a separação dos hemisférios cria duas esferas independentes de consciência dentro de um único organismo. Essa idéia foi, mais tarde, modificada pelo próprio Gazzaniga (1995), com base no argumento de que esses resultados foram obtidos em pacientes cujo hemisfério direito apresentava boa compreensão de linguagem. Com a desconexão, o vocabulário do hemisfério direito desses pacientes pode, com o passar dos anos, crescer consideravelmente, alcançando níveis comparáveis ao vocabulário de adolescentes; mas essa compreensão de palavras, segundo o autor, é raramente acompanhada de linguagem verdadeira. Por outro lado, esse hemisfério é capaz de produzir comportamentos, atividades cognitivas e mudanças de humor completos; embora admitindo que não seja possível, por ora, especificar a natureza das redes neurais envolvidas nesse processamento, Gazzaniga (1995) propôs que esses módulos funcionais operam fora do domínio da consciência mas "anunciam" seus produtos computacionais a sistemas executivos que "dão significado" aos produtos da computação. Assim, haveria um "módulo interpretador", localizado no hemisfério esquerdo, responsável pela percepção consciente e pela formação de opiniões, que seria o responsável pela capacidade de descrever uma linha histórica ou narrativa das experiências autobiográficas. Segundo o autor, essa sensação de uniformidade e continuidade das próprias percepções, mesmo para indivíduos com secção do corpo caloso, reforça a noção de que existe um interpretador no hemisfério esquerdo intimamente relacionado com nossas capacidades linguísticas, que seria responsável pela percepção consciente. Isso não significa que o hemisfério direito não apresente processamentos altamente refinados; no entanto, esse processamento ocorreria de uma forma "imperceptível ou inconsciente". As estratégias utilizadas pelos pacientes para compensar a ausência de comunicação inter-hemisférica refletiria, segundo essa concepção, a atividade dos centros interpretadores do hemisfério esquerdo para, através de pistas indiretas, oferecer uma interpretação lógica para os produtos computacionais do hemisfério direito.

A maioria desses estudos pressupõe que cada hemisfério cerebral constitui uma unidade funcional, um sistema independente que opera de forma similar, esteja conectado ou não com o outro hemisfério. Porém, há evidências experimentais de que não é assim. Por exemplo, o subteste dos "cubos" do WAIS (Wechsler Adult Intelligence Scale) requer que a pessoa organize de 4 a 9 cubos cujas faces são pintadas de branco, vermelho, e branco e vermelho, de modo que o padrão visual resultante se iguale ao de uma figura apresentada. Antes da secção do corpo caloso, pacientes desempenhavam essa tarefa tão bem quanto indivíduos normais, quando usavam a mão direita. Após a secção do corpo caloso, apareceram grandes dificuldades no desempenho da tarefa, tanto com a mão direita como com a esquerda. O tempo utilizado para resolver os padrões mais simples duplicou e a execução dos padrões mais complexos tornou-se impossível (Gazzaniga, 1988). Assim, como os resultados pós-operatórios, tanto para o hemisfério direito como para o esquerdo, estavam baixos, pode-se dizer que de alguma forma os hemisférios cooperavam, antes da cirurgia, para a solução da tarefa.

 

Conclusão 

Esses fenômenos reforçam a concepção de funcionamento modular do sistema nervoso, onde cada sub-sistema realiza processamentos concomitantemente com o processamento de informações nos outros sub-sistemas. Fica assim patente que a consciência não é uma propriedade exclusiva de uma única porção indivisível do sistema nervoso, mas fruto do funcionamento integrado dos diferentes módulos.

No mesmo sentido, Xavier (1993) propôs que "...a habilidade para relacionar uma grande quantidade de informações passadas, presentes e antecipadas, proporciona flexibilidade ao controle comportamental, parecendo ser esta a principal vantagem evolutiva para o aparecimento do que se costuma chamar de consciência; ela parece estar baseada em atividades concomitantes de (...) módulos distribuídos nas redes neurais." (p.106).

Em relação aos processos de integração da atividade dos diferentes módulos, o córtex pré-frontal parece preencher os requisitos necessários para o desempenho dessa função. De acordo com Xavier (1993), "...esta estrutura sofreu um visível aumento de área ao longo da evolução filogenética, tendo se tornado um dos mais proeminentes componentes do cérebro humano. Mesulam (1986) sugeriu que sua função está associada à organização de processos cognitivos como julgamento, perspicácia, curiosidade, abstração e criatividade. Suas conexões com outras estruturas do sistema nervoso são muito diversificadas. Nesse sentido, esta estrutura não só recebe informações sobre uma ampla gama de processamentos que ocorrem nos diferentes módulos do sistema nervoso, como pode influenciar toda essa atividade, estimulando o funcionamento de alguns módulos e inibindo o funcionamento de outros (pois) (...) dada a natureza modular do processamento de informações no sistema nervoso, as informações sobre um determinado objeto ou evento são distribuídas continuamente através da rede de processamento, não sendo necessário que essa informação esteja plenamente representada para que possa influenciar a experiência, pensamento ou ação em curso, embora, sob determinadas condições ela possa tornar-se consciente. Sob este prisma, as características e o substrato anatômico possivelmente relacionados com a consciência assemelham-se aos envolvidos na memória operacional. Isto tem levado alguns autores a proporem que a consciência e a memória operacional correspondem ao mesmo processo (e.g., Baddeley, 1992)." (p.106-7).

Memória operacional é um conceito hipotético; de acordo com Baddeley e Hitch (1974) ela refere-se ao arquivamento temporário da informação para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. Ainda, de acordo com esses autores, ela compreende um sistema de controle de atenção, o executor central, auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações: a alça visuo-espacial e a alça fonológica. Para Baddeley (1992), o executor central seria um sistema de capacidade limitada que (1) proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração, e (2) selecionaria estratégias e planos; sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do córtex pré-frontal que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas, armazenadas e evocadas, concomitantemente ao seu ingresso no sistema.

Diversas fontes de evidências favorecem o envolvimento do córtex pré-frontal na coordenação da atividade dos diferentes módulos (para revisão, ver Xavier, 1996). Por exemplo, Kapur, Craik, Jones, Brown, Houle e Tulving (1995) mostraram que a tentativa de evocar uma informação da memória episódica (um tipo de memória explícita para eventos autobiográficos) correlaciona-se com um aumento na atividade do córtex pré-frontal bilateralmente, mas maior no hemisfério direito; a efetiva evocação da informação armazenada, por sua vez, está associada a um aumento de atividade nas regiões corticais posteriores. Jonides, Smith, Koeppe, Awh, Minoshima e Mintun (1993) mostraram que o desempenho de tarefas que envolvem memória operacional espacial é acompanhado por uma ativação do córtex pré-frontal direito e córtices occipital, parietal e pré-motor. Fuster (1995), baseado em experimentos envolvendo inativação temporária, por resfriamento, de diferentes regiões do sistema nervoso de macacos e estudos envolvendo PET (sigla para "positron emission tomography", uma técnica utilizada para avaliar o nível de atividade em diferentes regiões do sistema nervoso enquanto os indivíduos desempenham uma tarefa cognitiva) em humanos, propôs que o córtex pré-frontal (dorso-lateral) tem importantes funções (1) na ativação de memórias arquivadas, o que requer sua cooperação com córtices associativos perceptuais localizados na porção porterior do sistema nervoso (v.tb., Cohen, Perlstein, Braver, Nystrom, Noll, Jonides & Smith, 1997), e (2) na preparação de uma ação planejada que envolve a cooperação com áreas corticais pré-motoras e gânglios basais.

As evidências apontadas acima mostram que o sistema nervoso também processa informações inconscientemente; isto é, discriminações, memórias, e processos elaborados de julgamento e solução de problemas podem ocorrer fora do domínio consciente, influenciando a experiência, pensamento ou ação em curso. Nesse sentido, parece interessante especular sobre como esse tipo de processamento, em determinadas circunstâncias, "ultrapassam o limiar" para tornarem-se fenomenicamente conscientes. De acordo com a proposta sobre as bases neurais da consciência aqui apresentada, esse processo poderia corresponder ao nível de atividade de cada um dos módulos, atividade essa que pode ser modulada pelo córtex pré-frontal, pela intensidade da informação apresentada ou pela interação com a atividade dos demais módulos.

Um último aspecto que merece consideração refere-se às situações em que ocorrem incongruências entre os produtos de processamento de diferentes módulos. Pode-se pensar que em caso de incompatibilidades entre as informações fornecidas por dois módulos, um deles seria inibido para que fosse mantida a congruência em relação à percepção final e a atividade dos demais módulos. Da mesma forma, danos em determinados módulos que resultem em falhas no fruto de seu processamento levarão o sistema a gerar congruência ou a "inferir insconscientemente" (para usar o termo de Shallice, 1990) a condição mais provável para o contexto, a partir das informações presentes e do funcionamento dos demais módulos.

Em síntese, a consciência parece não estar localizada em qualquer centro restrito do sistema nervoso; antes, parece ser fruto da atividade em diferentes módulos amplamente dispersos no sistema nervoso cada qual processando informações específicas. Essas diversas representações integrar-se-íam em função de suas ativações sincrônicas que seriam mediadas pela extensa inter-conexão paralela entre os vários módulos de processamento.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem a Maria Cristina Magila, ao Dr. Erasmo Garcia Mendes e ao Dr. César Ades pelas críticas e sugestões à versão preliminar deste trabalho.

 

 

CAMPOS. A.; SANTOS. A.M.G.; XAVIER. G.F.; Consciousness as A Result of Brain Evolution and Functioning.Psicologia USP, São Paulo, v.8, n.2, p.181-226, 1997.

Abstract: Percepts, individuality, language, ideas, meaning, culture, choice, morals and ethics, all exist as a result of brain evolution and functioning. Concerns that assumptions of consciousness as a biological process will lead people to abandon moral and ethic behaviour are not attained. Investigation of consciousness as a natural, not mystical, phenomenon increases our possibility to understand it, with scientific, theoretical and social gains, in addition to moral and ethic ones. This paper discusses how evolution by natural selection, and the biological nervous system organization allow to explain individuality, intentionality, simbolic representations and meaning. Phenomena observed in neurologic patients emphasize the concept of modular organization of the nervous system; consciousness is not seen as a exclusive property of a single module but rather as a result of the synchronized work of different modules. 
Index terms: Consciousness. Nervous system. Memory. Brain disorders. Perception.

 

 

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ZOLA-MORGAN, S.; SQUIRE, L.R.; AMARAL, D.G. Human amnesia and the medial temporal region: enduring memory impairment following a bilateral lesion limited to field CA1 of the hippocampus. Journal of Neuroscience, v.6, n.10, p.2950-67, 1986.         [ Links ]

 

#6990 From: Jane Mara Jarschel <janemaraj@...>
Date: Thu Nov 26, 2009 9:41 am
Subject: Re: O SURPREENDENTE LULA
janemaraj
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--- Em qua, 25/11/09, Jocax <jocax@...> escreveu:

De: Jocax <jocax@...>
Assunto: [Genismo] O SURPREENDENTE LULA
Para: "Nacionalismo-Br" <Nacionalismo-br@yahoogroups.com>
Cc: "Genismo" <Genismo@yahoogroups.com>
Data: Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009, 12:42

 
 O SURPREENDENTE LULA - por Pedro R. Lima

FHC, o farol, o sociólogo, entende tanto de sociologia
quanto o governador de São Paulo, José Serra, entende de
economia(??) .

Lula, que não entende de sociologia, levou 32 milhões de
miseráveis e pobres à condição de consumidores;
Lula, que não entende de economia, pagou as contas de FHC, zerou a dívida com o FMI
e ainda empresta algum aos ricos.

Lula, o “analfabetoâ€, que não entende de educação,
criou mais escolas e universidades que seus antecessores
juntos, e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre
à universidade.

Lula, que não entende de finanças nem de contas
públicas, elevou o salário mínimo de 64 para mais de 200
dólares, e não quebrou a previdência como queria FHC.

Lula, que não entende de psicologia, levantou o moral da
nação e disse que o Brasil está melhor que o mundo.
Embora o PIG - Partido da Imprensa Golpista, que entende de
tudo, diga que não.

Lula, que não entende de engenharia, nem de mecânica, nem
de nada, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e
levou o país à liderança mundial de combustíveis
renováveis.

Lula, que não entende de política, mudou os paradigmas
mundiais e colocou o Brasil na liderança dos países
emergentes, passou a ser respeitado e enterrou o G-8.

Lula, que não entende de política externa nem de
conciliação, pois foi sindicalista brucutu, mandou às
favas a ALCA, olhou para os parceiros do sul, especialmente
para os vizinhos da América Latina, onde exerce liderança
absoluta sem ser imperialista. Tem fácil trânsito junto a
Chaves, Fidel, Obama, Evo etc. Bobo que é, cedeu a tudo e
a todos.

Lula, que não entende de mulher nem de negro, colocou o
primeiro negro no Supremo (desmoralizado por brancos), uma
mulher no cargo de primeira ministra, e pode fazê-la sua
sucessora.

Lula, que não entende de etiqueta, sentou ao lado da
rainha e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis.

Lula, que não entende de desenvolvimento, nunca ouviu
falar de Keynes, criou o PAC, antes mesmo que o mundo
inteiro dissesse que é hora de o Estado investir, e hoje o
PAC é um amortecedor da crise.

Lula, que não entende de crise, mandou baixar o IPI e
levou a indústria automobilística a bater recorde no
trimestre.

Lula, que não entende de português nem de outra língua,
tem fluência entre os líderes mundiais, é respeitado e
citado entre as pessoas mais poderosas e influentes no mundo
atual.

Lula, que não entende de respeito a seus pares, pois é um
brucutu, já tinha empatia e relação direta com Bush -
notada até pela imprensa americana - e agora tem a mesma
empatia com Obama.

Lula, que não entende nada de sindicato, pois era apenas
um agitador, é amigo do tal John Sweeny e entra na Casa
Branca com credencial de negociador, lá, nos
"States".

Lula, que não entende de geografia, pois não sabe
interpretar um mapa, é ator da mudança geopolítica das
Américas.

Lula, que não entende nada de diplomacia internacional,
pois nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as
frentes e se torna interlocutor universal.

Lula, que não entende nada de história, pois é apenas um
locutor de bravatas, faz história e será lembrado por um
grande legado, dentro e fora do Brasil.

Lula, que não entende nada de conflitos armados nem de
guerra, pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos
palestinos para dialogar com Israel.

Lula, que não entende nada de nada, é melhor que todos os
outros.

POBRE MENINO CAETANO!

Pedro R. Lima, professor



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#6989 From: Jocax <jocax@...>
Date: Wed Nov 25, 2009 6:33 pm
Subject: Valores do Prazer e Sofrimento na MEC
jocaxx
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Valores do Prazer e Sofrimento na MEC

Por: Jocax, Novembro de 2009

 

 

Resumo: A Meta-Ética-Científica (MEC) preconiza que a felicidade é uma soma ponderada pelo tempo dos valores de prazer e dor. Entretanto, podemos provar que o sofrimento pode ser, em valore absoluto, muito maior que o prazer, de modo que não existe uma simetria entre prazer e sofrimento. Dessa forma, ações que provocam sofrimento em geral também não são contrabalançadas pelo ganho de prazer obtido com elas e isso impacta na justiça e na ética baseadas na MEC.

 

No tempo e espaço onde a origem da vida teve inicio, e também algum tempo depois, não deveria haver no mundo dor e prazer. Os micro-organismos que se desenvolviam naquele mundo inóspito não tinham estruturas biológicas suficientes- como neurônios-, para analisar aos sinais provenientes do ambiente. Assim, a vida se desenvolveu por um bom tempo sem nenhum sentimento associado.

 

Posteriormente, com as mutações acontecendo, e a seleção dos mais aptos, os sentimentos entraram em cena. Estruturas complexas, culminando atualmente com o cérebro humano, se desenvolveram com a capacidade de sentir dor e prazer.

 

Assim, em nosso passado evolutivo, onde a maioria de nossos genes foi “esculpida” por seleção natural, creio que podemos fazer as seguintes afirmações:

 

A dor (ou sofrimento) deveria servir para impedir que o organismo agisse contra o interesse de seus genes, sinalizando -e muitas vezes ensinando- a consciência de que determinados eventos ou ações deveriam ser evitadas, pois seriam prejudiciais aos seus genes (por exemplo, a sua própria vida ou a de seus filhos). Dessa forma, o sistema nervoso deve ter sido “moldado” para que quanto maior a probabilidade de um evento prejudicar os genes do organismo, tanto maior deverá ser a dor sentida por ele. Por exemplo, a perda de um filho; o medo de altura; o cheiro ruim de fezes; ferir o corpo; passar fome etc. são exemplos de eventos que geram sofrimento, porque podem prejudicar de forma diferenciada os genes do organismo, caso não evite tais eventos.

 

De forma análoga, o prazer tem uma finalidade semelhante: sinalizar e ensinar ao organismo quais eventos ou ações são benéficas aos seus genes: Em geral, quanto maior o prazer mais benéfico aos genes deve ser o evento. Por exemplo, o sexo, saciar a fome, conseguir poder, status etc. são exemplos de alguns eventos que devem produzir prazer uma vez que também tendem a auxiliar os genes dos organismos que os experimentam.

 

 Devemos observar que nem todos os eventos de nossa era moderna, como usar drogas, por exemplo, foram alvos da seleção natural!  Por certo, com o decorrer do tempo evolutivo, as drogas deverão também ser naturalmente evitadas pelo ser humano, ou tornarem-se inócuas a ele, uma vez que viciados em drogas tendem a ter seu “fitness” (capacidade de sobrevivência e reprodução) diminuído em relação aos não usuários.

 

Apesar de a dor e do sofrimento parecerem ser simétricos em relação ao valor que o organismo dê a eles, na verdade não é isso que de fato ocorre. O que acontece é que os sofrimentos podem ser milhares de vezes superiores (em valor potencial de sentir) que os prazeres. E isso pode ser explicado de uma forma simples: Em nosso passado evolutivo não existiam eventos que implicassem num grande aumento “fitness” do organismo. Não existiam “Loterias” que do dia para a noite deixassem o individuo rico, também não existiam “Prêmios Nóbeis” em que tornassem um cientista ou pensador, do dia pra noite, internacionalmente famoso e rico. Não existia capitalismo onde um industrial poderia acumular grande riqueza em sua curta vida. O que poderia acontecer, no máximo, é que o individuo se tornasse um “macho alfa”, com direito ao poder e a uma maior chance de passar seus genes em maior número às próximas gerações (se calhasse de não ser traído e também ter relações com as fêmeas em período fértil).

 

Por outro lado, existiam inúmeros eventos que poderiam, numa fração de minuto, exterminar sua vida, matar toda a sua família ou ainda toda a sua tribo!  Uma única picada de cobra poderia por fim à vida do organismo, uma matilha de lobos ou família de leões poderiam dar cabo de toda a família em poucos minutos, uma guerra tribal poderia acabar com toda a tribo! Assim, havia milhares de vezes mais facilidade, e perigo, em relação a eventos que causassem grande perda de potencial “gene-perpetuativo”, isto é da morte dos genes do que em relação aos poucos eventos que se ganhasse um pouco mais de sobrevivência genética. As perdas poderiam ser muito maiores que os ganhos.

 

Por esta razão o sofrimento pode ser muito maior que o maior dos nossos prazeres, e isso deve provocar uma grande influência na ética e no direito. Se fizermos um mal a outras pessoas, então este sofrimento imposto pode ser, e em geral é, muito maior que o prazer que podemos obter com o mal feito. Assim, o valor do sofrimento no cálculo da felicidade utilizado pela MEC (Meta-Ética-Científica) deve ter um peso muito maior do que o prazer decorrente da ação que porventura causou este sofrimento. De modo que dificilmente um mal feito a outrem pode ser pago com o equivalente em prazer obtido.

 

Acredito então que a melhor forma de avaliar (objetivamente) os valores dos sentimentos (dos seres que evoluíram por seleção natural) em relação às medidas de ativação dos centros de prazer e dor do cérebro seja utilizar o valor da capacidade “gene-perpetuativa” do organismo em relação ao evento que provoca aquele dado sentimento.

 

Assim sendo, em relação a eventos que existiam no passado remoto, onde nossos genes se desenvolveram, quanto maior for o potencial de perda “gene-perpetuativa” que o evento pode infringir ao organismo, maior deverá ser o valor do sentimento. Analogamente, quanto maior for o ganho “gene-perpetuativo” de um dado evento que provoca um dado sentimento, maior o valor do prazer daquele sentimento.

 

Referências:

A Meta-Ética-Científica

http://stoa.usp.br/mec/files/-1/8604/mec.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 


#6988 From: Jocax <jocax@...>
Date: Wed Nov 25, 2009 3:51 pm
Subject: Darwin na sala de aula
jocaxx
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JC e-mail 3896, de 24 de Novembro de 2009.

*23. Darwin na sala de aula, artigo de Marcos Nobre*


"A discussão pública sobre a origem da vida pode e deve comportar todo
tipo de posição, sem dúvida. (...) Mas isso não deve ser confundido com
o ensino, regulado pelo mesmo Estado que recebe da sociedade o mandato
democrático de garantir a autonomia das instituições modernas"

Marcos Nobre é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Unicamp e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap). Artigo publicado na "Folha de SP":



"A Origem das Espécies" foi o último grande livro científico acessível a
uma pessoa simplesmente culta. Está ao final de uma longa linhagem que,
desde a baixa Idade Média, procurou estabelecer a autonomia e a
independência da ciência em relação à política, à religião e à moral.



Ao contrário de Galileu, Darwin não foi obrigado a abjurar seus
escritos. Não por acaso, "Origem" foi produzido e publicado no único
país liberal o suficiente para não expulsar Karl Marx de seu território.
Pela primeira vez, a disputa sobre a "verdade" de um livro não foi
decidida por instituições políticas, econômicas, religiosas ou
judiciárias, mas foi travada em grande medida na arena pública.



Cinquenta anos depois da publicação de "Origem", a ciência já tinha se
consolidado institucionalmente como conhecimento acadêmico e como
aplicação tecnológica. Mas Einstein já não falava uma linguagem
acessível a qualquer pessoa culta. A ciência ganhou autonomia. Mas
também se especializou. A especialização sempre foi um obstáculo
importante para seguir o modelo duradouro de "Origem", em que a ciência
deve justificar no debate público sua autonomia e sua independência.



A ciência institucionalizada procura vencer esse obstáculo fazendo
divulgação científica, mostrando os avanços tecnológicos do dia a dia
como seus feitos, usando figuras como Einstein como emblemas do gênio.



Mas o fato é que a ciência só conseguiu conquistar de fato sua autonomia
porque se instalou no currículo escolar. Tendo como matriz a Europa das
últimas décadas do século 19, espalhou-se gradualmente a prática da
obrigatoriedade e da universalização do ensino até a adolescência. E,
não menos importante, esse movimento foi concomitante à implantação
progressiva das democracias de massa.



A discussão pública sobre a origem da vida pode e deve comportar todo
tipo de posição, sem dúvida. O essencial é que seja preservada e
fomentada a tolerância e, se possível, que se alcance uma melhoria da
qualidade do próprio debate.



Mas isso não deve ser confundido com o ensino, regulado pelo mesmo
Estado que recebe da sociedade o mandato democrático de garantir a
autonomia das instituições modernas. Não deve ser confundido com a
introdução no currículo escolar de teses criacionistas de qualquer tipo.



Se isso acontecer, desaparece a autonomia da ciência e põe-se em risco o
próprio debate público e, no limite, a própria democracia. Antes de
tudo, é isso o que está em jogo hoje na comemoração de 150 anos desse
livro extraordinário.

(Folha de SP, 24/11)

#6987 From: Jocax <jocax@...>
Date: Wed Nov 25, 2009 2:42 pm
Subject: O SURPREENDENTE LULA
jocaxx
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 O SURPREENDENTE LULA - por Pedro R. Lima

FHC, o farol, o sociólogo, entende tanto de sociologia
quanto o governador de São Paulo, José Serra, entende de
economia(??).

Lula, que não entende de sociologia, levou 32 milhões de
miseráveis e pobres à condição de consumidores;
Lula, que não entende de economia, pagou as contas de FHC, zerou a dívida com o FMI
e ainda empresta algum aos ricos.

Lula, o “analfabeto”, que não entende de educação,
criou mais escolas e universidades que seus antecessores
juntos, e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre
à universidade.

Lula, que não entende de finanças nem de contas
públicas, elevou o salário mínimo de 64 para mais de 200
dólares, e não quebrou a previdência como queria FHC.

Lula, que não entende de psicologia, levantou o moral da
nação e disse que o Brasil está melhor que o mundo.
Embora o PIG - Partido da Imprensa Golpista, que entende de
tudo, diga que não.

Lula, que não entende de engenharia, nem de mecânica, nem
de nada, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e
levou o país à liderança mundial de combustíveis
renováveis.

Lula, que não entende de política, mudou os paradigmas
mundiais e colocou o Brasil na liderança dos países
emergentes, passou a ser respeitado e enterrou o G-8.

Lula, que não entende de política externa nem de
conciliação, pois foi sindicalista brucutu, mandou às
favas a ALCA, olhou para os parceiros do sul, especialmente
para os vizinhos da América Latina, onde exerce liderança
absoluta sem ser imperialista. Tem fácil trânsito junto a
Chaves, Fidel, Obama, Evo etc. Bobo que é, cedeu a tudo e
a todos.

Lula, que não entende de mulher nem de negro, colocou o
primeiro negro no Supremo (desmoralizado por brancos), uma
mulher no cargo de primeira ministra, e pode fazê-la sua
sucessora.

Lula, que não entende de etiqueta, sentou ao lado da
rainha e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis.

Lula, que não entende de desenvolvimento, nunca ouviu
falar de Keynes, criou o PAC, antes mesmo que o mundo
inteiro dissesse que é hora de o Estado investir, e hoje o
PAC é um amortecedor da crise.

Lula, que não entende de crise, mandou baixar o IPI e
levou a indústria automobilística a bater recorde no
trimestre.

Lula, que não entende de português nem de outra língua,
tem fluência entre os líderes mundiais, é respeitado e
citado entre as pessoas mais poderosas e influentes no mundo
atual.

Lula, que não entende de respeito a seus pares, pois é um
brucutu, já tinha empatia e relação direta com Bush -
notada até pela imprensa americana - e agora tem a mesma
empatia com Obama.

Lula, que não entende nada de sindicato, pois era apenas
um agitador, é amigo do tal John Sweeny e entra na Casa
Branca com credencial de negociador, lá, nos
"States".

Lula, que não entende de geografia, pois não sabe
interpretar um mapa, é ator da mudança geopolítica das
Américas.

Lula, que não entende nada de diplomacia internacional,
pois nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as
frentes e se torna interlocutor universal.

Lula, que não entende nada de história, pois é apenas um
locutor de bravatas, faz história e será lembrado por um
grande legado, dentro e fora do Brasil.

Lula, que não entende nada de conflitos armados nem de
guerra, pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos
palestinos para dialogar com Israel.

Lula, que não entende nada de nada, é melhor que todos os
outros.

POBRE MENINO CAETANO!

Pedro R. Lima, professor


#6986 From: Jocax <jocax@...>
Date: Wed Nov 25, 2009 11:59 am
Subject: Trechos do Debate sobre DEUX e a MEC
jocaxx
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Vou colocar aki alguns trechos interessantes sobre um debate sobre Deux
e a MEC no orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=11882420&tid=2518083473890662028&na=1&\
nst=1
-------------------------

[blue][i]"A lei “ética” que você criou versa sobre maximização da
felicidade.
Só que, diferente da ciência, você decidiu que a felicidade deve se
sobrepor à justiça,
por exemplo."[/i][/blue]
.
Acho que vc nao sabe o que seja justica.
Vc acha que a justica eh algo divino? que cai do ceu e que todos devem
segui-la?
QUE TIPO DE VALORES VC ACHA QUE A JUSTICA PERSEGUE???

[b]A justica tambem deveria vizar a maximizacao da felicidade.[/b]


[blue][i]"Você consegue entender que decidir priorizar a felicidade é
uma ação política
e não científica?
Responda isso por favor. Pois aí está a base de todo o problema.
"[/i][/blue]
.
Sim ai esta a base do problema que vc nao entendeu.
.
Vou responder:
UMA VEZ QUE VC ACEITA O POSTULADO , no caso o postulado da maximizacao
da felicidade global,
a Etica e a justica podem ser tratados como a fisica e a matematica,
como uma ciencia normal.
.
Vou te explicar melhor:
A matematica assume, por exemplo, como POSTULADO, entre outros, por
exemplo,
o principio logico da nao contradicao, ou entao a existencia do ELEMENTO
NEUTRO da adicao.
A partir da aceitacao destes postulados vc segue toda a aritmetica !
.
Na fisica a mesma coisa acontece:
Se vc ACEITA como postulado, entre outros, que o espaco eh isotropico,
e que a velocidade da luz eh constante no vacuo, segue logicamente
toda a teoria da relatividade restrita !

Percebeu?

A ciencia TAMBEM tem seus postulados que quando aceitos decorre toda uma
teoria.

Claro que estes postulados para serem uteis e verdadeiros em termos de
realidade
tem que ser compativeis com a realidade !!

Da mesma forma SE ACEITARMOS COMO POSTULADO o PRINCIPIO DA MAXIMIZACAO
DA FELICIDADE
poderemos utilizar a ETICA como utilizamos a fisica ao aceitarmos como
postulado
a constancia da velocidade da Luz. Entendeu agora?

CLARO que vc pode rejeitar o principio da maximizacao da felicidade e
dizer que
ele eh diferente da constancia da velocidade da luz que eh verificado
experimentalmente,
mas eu tambem posso te interpelar e dizer :
EM QUE CASO O PRINCIPIO DA MAXIMIZACAO DA FELICIDADE SERIA VIOLADO NA
PRATICA?
.
Da mesma forma que ninguem AINDA achou um caso em que a velocidade da
luz no vacuo seja variavel
tambem nao foi achado (ninguem me mostrou) um caso em que o principio da
maximizacao
da felicidade seja flagrantemente violado. Entendeu a semelhanca??
.
O que pode acontecer eh que religiosos nao o aceitem e digam que a lei
de deus
( os 10 mandamentos, ou outros), sejam os unicos principios eticos reais
que devemos
seguir, e rejeitem o postulado da maximizacao da felicidade.
Mas eu posso refuta-los e mostrar casos que estas eticas dogmaticas
( como os 10 mandamentos ) furem totalmente nosso senso intuitivo de
etica e produza
muito mais sofrimento do que se utilizarmos a felicidade como principio.

Entendeu?


[blue][i]"E a etica lida com sentimentos !!!!

Errado. O principal objeto de estudo da ética são os valores, os
princípios, não os sentimentos. Esses são o foco mais da psicologia do
que da ética. "[/i][/blue]
.
Eh inacreditavel!
Vc acha que haveria alguma necessidade de ETICA se nao existissem
sentimentos?
Se nao houvesse dor nem prazer pra que serviria a etica?
Se tudo se comportasse como robos que nao sentem que diferenca faria
um matar o outro ou nao? percebe? Os sentimento sao sempre a BASE de
tudo em etica.
[b]NAO HAVERIA NECESSIDADE DE ETICA SE NAO EXISTISSE O SENTIR (jocax)[/b]


[blue][i]"Me diga, de onde você conclui logicamente que o valor
“felicidade” deve ser
o valor supremo a ser seguido, em prejuízo de todos os outros?"[/i][/blue]
.
[b][red]E de onde vc concluiu que ALGUM OUTRO VALOR eh melhor que a
felicidade para balizarmos a etica??[/red][/b]
.
Da mesma forma que "O Principio da constancia da velocidade da luz" foi
[b]proposta[/b]
por Einstein para deduzir as equacoes da relatividade eu [b]propus[/b] que a
FELICIDADE deve ser o principio que deve nortear a etica e a justica.
SE ALGUEM PROVAR QUE NAO FUNCIONA ai eu aceito o fracasso da teoria
assim como Einstein tambem aceitaria o fracasso se alguem provasse que
a velocidade da luz nao eh constante no vacuo !!


[blue][i]"A vida é o valor primordial porque é pressuposto de todos os
outros.
Se você eliminar a vida do universo, desaparecem logicamente a
felicidade, a justiça,
a liberdade, a dignidade, etc...
Mas hipoteticamente você pode eliminar a felicidade e sem eliminar a vida.
Por isso, a felicidade não é o valor primordial. Entendeu?"[/i][/blue]
.
[b]LEDO ENGANO !![/b]
Podemos ter sentimentos onde NAO HAJA VIDA !!
Veja o caso do supercomputador que pretende simular o cerebro.
Vc acha que apenas a VIDA pode sentir prazer ou dor?
vc pode provar que nosso universo nao esta sendo simulado num computador
de outra dimensao?
.
.
[blue][i]"Eu ja te provei pelos calculos acima que NAO EH ETICO esquartejar
criancas para satisfazer a felicidade. Pq a felicidade nao pode ser tao
extrema assim
uma vez que o cerebro humano NAO pode sentir extrema felicidade como
DEUX poderia sentir.
.
E se forem mil sádicos e um bebê? E se esse bebê não tem família? E se a
morte for indolor? Aí seria correto pela sua “ética”? E assim por
diante, podemos continuar criando milhares de casos, porque sua “ética”
legitima o absurdo. Deixa a porta aberta para as atrocidades.

"[/i][/blue]


Acontece que cada vez que vc aumenta o numero de "sadicos" vc diminui a
felicidade
de cada um deles de modo que mesmo que vc aumente muito o numero de sadicos
um unico bebe nao vai satisfazer a todos eles ! E suas felicidades nao
compensarao
a felicidade que o bebe poderia sentir em sua vida !
.
Eh a mesma coisa que vc querer refutar a teoria da relatividade e dizer :
"-Se minha nave andar mais rapido que a luz e dentro dela se acender uma
lanterna
entao obviamente a velocidade da luz sera mais rapida que a luz parada!"
Acontece que a nave tambem NAO PODE andar mais rapida que a luz de modo que
o principio sempre se mantera.
.
Outra coisa que vc nao esta considerando eh que o "sadismo" eh algo que
provoca
dor nos outros e isso VAI CONTRA A FELICIDADE assim se vc PROMOVER E
ALIMENTAR
O SADISMO vc estara AUMENTANDO AS CHANCES DE HAVER MENOS FELICIDADE e isso
VAI CONTRA O PRINCIPIO da maximizacao da felicidade !


[blue][i]"“Outro problema do utilitarismo é que ele não leva em
consideração a índole ou os motivos que levam à ação. Apenas verifica se
as conseqüências aumentam ou não a felicidade total dos envolvidos.

Então aquela multidão de sádicos perversos poderá matar uma criança
inocente de índole boa, se essa criança não tiver quem sofra por ela,
desde que e o computo da felicidade total resulte em saldo positivo,
o que é absurdo. "[/i][/blue]

O que vc nao entendeu eh que na MEC a felicidade deve ser computada
no maximo periodo de tempo possivel. veja:

[i]"A Meta-Ética-Científica postula que uma ação é melhor, ou mais justa
que uma outra quando o nivel de felicidade geral proporcionada por ela,
computada [b]no maior periodo de tempo possivel[/b],
for superior ao nível de felicidade proporcionada no mesmo periodo. "[/i]
http://www.genismo.com/filosofia.htm

Se agirmos de modo que sobrem GENES DE INDOLE MA ( que promova o
sofrimento )
entao a LONGO PRAZO esta INDOLE MA podera provocar mais INFELICIDADE do que
se promovermos GENES DE INDOLE BOA que resultarao em seres que promovem
menos dor e mais prazer aumentando a felicidade a LONGO PRAZO.
Assim eh falsa a ideia que a MEC utiliza apenas a felicidade IMEDIATA,
nao eh isso, a felicidade de longo prazo deve ser buscada pois a felicidade
eh proporcional aa DURACAO DE TEMPO que o prazer ou dor sao sentidos.

Portanto seu exemplo dos sadicos foi refutado.

[blue][i]"Mas não para criar um outro ser superior que tenha o direito
de exterminar vidas,
sob o único argumento do aumento do nível de felicidade do
universo."[/i][/blue]
.
O que vc nao entendeu ainda eh que DEUX NAO SERIA CRIADO PARA EXTERMINAR
A VIDA !
Ele seria criado para maximizar a felicidade do universo !
Se ELE DECIDIR que eliminando vidas a felicidade poderia ser aumentada
entao seria JUSTO E ETICO que ele o fizesse !!
.
DA MESMA FORMA OS HUMANOS EXTERMINAM MOSQUITOS DA DENGUE !
POR QUE ISSO AUMENTA A FELICIDADE DO PLANETA
MESMO QUE OS MOSQUITOS MORRAM !!!
.
Para Deux NOHS SOMOS COMO MOSQUITOS, se nohs podemos matar mosquitos
para ampliar a felicidade PORQUE Deux nao pode fazer o mesmo conosco???

Entendeu agora?

No exemplo dos comedores de crianca ,
[b]suponha[/b] que seja verdade que ao inves de sadicos exista um AVIAO
que caiu
e que o resgate vai demorar o suficiente para que
[b]se as pessoas nao matassem alguem e comessem seu corpo TODOS
MORRERIAM de fome.[/b]
Vc acha que seria anti-etico MATAR E COMER uma das pessoas inocentes do
grupo
para que as outras todas sobrevivessem?
Ou vc acha que deveriamos usar o principio criatao do "NAO MATARAS" e
deixar a sorte nas MAOS DE DEUS
ou ASSASSINAR uma das pessoas para que as outras possam sobreviver?

Pela MEC seria justo ASSASSINAR uma pessoa para que as outras
sobrevivessem !
Vc nao acha JUSTO matar uma pessoa inocente NESTE CASO?

---------------------------
[]s
Jocax

#6985 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 24, 2009 10:40 am
Subject: Freaknomics:Sexo, drogas e geoengenharia
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Folha de São Paulo, domingo, 22 de novembro de 2009 



Sexo, drogas e geoengenharia

Autores de "Freakonomics" voltam à carga em livro que argumenta que é inútil reprimir a prostituição e o narcotráfico

RICARDO MIOTO
DA REPORTAGEM LOCAL 

A prostituição está em decadência. Em poucas décadas, os salários despencaram, junto com o número de profissionais. O culpado? O feminismo.
Afinal, as independentes mulheres contemporâneas que fazem sexo sem compromisso e de graça impuseram uma concorrência desleal às que desejam cobrar pelo serviço.
Quem disso isso são o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner, autores de "SuperFreakonomics". O livro, recém-lançado, é uma continuação do best-seller "Freakonomics", de 2005.
No primeiro livro, a dupla fez barulho ao dizer que existe correlação entre a liberação do aborto nos EUA nos anos 1970 e a queda nos crimes após duas décadas. No segundo, dedicam um capítulo à prostituição.
O sexo era encarado de forma muito diferente no começo do século passado, dizem. Havia mais pudor. Agendas repletas de telefones à disposição para uma noite mais empolgada não existiam. Festas eram um evento social, e não sexual -agradeça, portanto, por não ter nascido naquela época.
Para cada quatro homens que diziam ter perdido a virgindade com prostitutas entre 1933 e 1942, hoje há apenas um. Além disso, a prostituição era -e ainda é- ilegal na maioria dos EUA. A clandestinidade fazia com que a oferta de garotas de programa diminuísse.
Quando a demanda é alta e a oferta pequena, o resultado é óbvio. Prostitutas de Chicago ganhavam nos anos 1910 mais de US$ 6.000 por mês, em valores corrigidos. As melhores faziam mais de US$ 35 mil.
Ainda há prostituição de luxo, claro. Mas ela é apenas uma fração do que já foi. Garotas de programa se espalharam pelas ruas, o ambiente ao seu redor se encheu de viciados. Elas próprias passaram a usar bem mais drogas.

Imposto sobre serviço
Apesar de a prostituição ainda ser proibida, a polícia raramente cria problemas com as meninas. Ainda porque, hoje em dia, afirmam os autores, cerca de 3% dos "encontros" das prostitutas de rua de Chicago são com policiais e de graça -um suborno sexual.
Como dizem os autores, "os dados não mentem: é muito mais provável que as prostitutas de rua de Chicago façam sexo com os policiais do que sejam presas por eles".
Aí surge uma questão: se os policiais fossem realmente duros com a prostituição -ao melhor estilo tolerância zero-, será que ela desapareceria?
Não. Porque não adianta prender quem oferece o serviço. Quanto mais isso é feito, menor fica a oferta. Sobem, então, os preços. Quanto mais as prostitutas ganham, mais meninas entram na profissão.
Neste caso, portanto, você pode fazer a lei mais rígida que quiser. Chegará um momento em que a recompensa financeira de passar por cima dela será tão forte que não adiantará.
A solução, então, seria reprimir os clientes. Aí se corta a demanda, em vez da oferta, e a prostituição sofre um golpe.
Mas é difícil prendê-los. Em primeiro lugar, são muitos. Mais: eles desaparecem com a mesma velocidade com que aparecem. É muito mais complicado pegar um cliente do que uma prostituta.
O interessante é que exatamente o mesmo raciocínio serve para as drogas. Quanto mais traficantes são presos, mais sobe a renda dos que restam. Acabe com todos, e o preço das drogas tenderá ao infinito, tornando o ofício mais tentador.
Outro assunto do livro é o aquecimento global. Os autores defendem que é melhor dar um jeito artificial de esfriar o planeta do que lutar contra as emissões de CO2.
A ideia é fazer artificialmente o que os vulcões fazem naturalmente. Quando vulcões muito grandes entram em erupção, o planeta esfria. Isso acontece porque eles jogam dióxido de enxofre na estratosfera - a geoengenharia humana poderia fazer isso, dizem.
É o capítulo que vem gerando mais polêmica. Algumas das críticas se relacionam com a ideia de que mexer na natureza mais ainda para resolver velhos problemas só vai servir para criar problemas novos e desconhecidos. Outras dizem que os cálculos são frouxos e que tudo não passa de um chute. Em geral, mesmo entusiastas da geoengenharia não descartam a importância de reduzir o CO2.

Ciumeira
Levitt e Dubner apresentam uma mágoa. É duro gostar de microeconomia -essa economia que lida com o cotidiano, com as escolhas individuais. São sempre os macroeconomistas, dizem, como seus papos sobre "inflação, recessões e choques financeiros", que estão sempre nos jornais. Quando economia vai bem, são gênios. Quando vai mal, idiotas. Mas não saem das manchetes.
Os livros, então, nada mais são do que uma tentativa de mostrar que, sim, existe economia além dos bancos centrais. Apareça com um banco de dados que os microeconomistas, dizem, estarão lá formulando hipóteses para explicá-los. Podem surgir bobagens, mas o resultado é, em geral, muito bom.


LIVRO - "SuperFreakonomics" 

de Steven Levitt e Stephen Dubner; Elsevier, 247 páginas., R$ 66



#6984 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 24, 2009 10:31 am
Subject: Um jantar com Darwin
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Folha de São Paulo, domingo, 22 de novembro de 2009 



Um jantar com Darwin

NUM DIÁLOGO FANTASIOSO, UM GENETICISTA, UM BIÓLOGO, UM HISTORIADOR DA CIÊNCIA E UM JORNALISTA TIRAM DÚVIDAS COM O NATURALISTA INGLÊS SOBRE EVOLUÇÃO, FÉ E CRIACIONISMO 


Darwin acreditava que uma inteligência criadora poderia ter estabelecido as leis da natureza


CASPAR MELVILLE

Para o 200º aniversário de nascimento de Darwin e o 150º aniversário de publicação de "A Origem das Espécies", a revista "New Humanist" perguntou a quatro comentaristas o que gostariam de conversar com o naturalista inglês em um jantar.

 

PERGUNTA - O que os senhores diriam a Darwin?
STEVE JONES -
 Contaria que aquilo que o derrotou durante toda a vida, o mecanismo da hereditariedade, foi resolvido e não destruiu sua teoria. Pelo contrário: deu-lhe sustentação. Darwin era um artigo raro: um cientista honesto.
Quando escreveu "A Origem das Espécies", recebeu de um engenheiro escocês chamado Fleeming Jenkin uma carta contendo o que Darwin imaginava que pudesse ser uma questão absolutamente fatal.
Ele pensava que a hereditariedade funcionasse por meio da mistura de uma média dos sangues dos pais.
Nesse caso, questionou Jenkin, se houvesse no sangue um traço vantajoso de caráter, como é que ele seria transmitido? Não terminaria completamente diluído?
Darwin percebeu imediatamente que essa objeção era fatal para sua teoria.
Mas estava trabalhando com a substância errada -o sangue. A hereditariedade não se baseia em líquidos, como ele imaginava, mas em partículas: os genes. A genética dá razão a Darwin.
É claro que a descoberta cabe a Mendel [1822-84], em trabalho que foi enviado a Darwin, mas que este nunca leu.
JOHN VON WYHE - Eu teria de lhe contar sobre a maneira como a história de sua vida evoluiu ao longo dos anos.
Inicialmente era o grande santo científico que baniu a religião do reino da ciência; depois, se tornou um títere freudiano reagindo a um pai supostamente tirânico (e assim, com sua teoria da evolução, "matando Deus" como uma forma de patricídio).
Posteriormente, se tornaria o cientista que descobriu a evolução nas ilhas Galápagos em um momento de brilhantismo intuitivo ao observar os bicos dos tentilhões.
Ainda mais tarde, teria supostamente postergado a publicação da teoria por 20 anos, porque tinha medo das consequências de divulgá-la.
JERRY COYNE - Contaria sobre os espantosos fósseis que foram descobertos desde que "A Origem" foi publicado: formas transicionais que conectam grandes grupos como os répteis aos mamíferos, animais terrestres a baleias, peixes a anfíbios.
Esses fósseis oferecem ainda mais sustentação ao conceito de evolução, provas de que Darwin jamais dispôs, ainda que previsse que fósseis transicionais existissem.
Seu maior interesse talvez fosse o grupo de fósseis hominídeos encontrados na África, com datação de 6 milhões de anos.
Eles claramente demonstram que descendemos dos macacos e confirmam de forma integral a contida previsão que Darwin fez em 1871, afirmando que "parece ligeiramente mais provável que nossos primeiros ancestrais tenham vivido no continente africano".
JAMES RANDERSON - O professor Jones dirá a Darwin tudo sobre os genes; eu iria um passo além e lhe contaria sobre o DNA.
O mais interessante para ele, creio, seria a universalidade (com algumas pequenas exceções) do DNA em todos os reinos da vida -das bactérias aos elefantes. Essa importante prova sustenta o conceito da origem comum para toda a vida, que ele defendia.
É notável que Darwin tenha obtido sucesso com sua teoria ainda que não compreendesse plenamente o mecanismo da herança genética.

PERGUNTA - O que os senhores lhe perguntariam?
JONES -
 Perguntaria que doença ele supunha ter. Há discussões infinitas sobre isso. Ele jamais tratou disso, ainda que fale sem parar sobre os sintomas.
A alegação padrão é a de que sofria da doença de Chagas, transmitida por insetos sugadores de sangue mortíferos na América do Sul.
Mas, se considerarmos os sintomas -inchaço, vômito etc.-, eles não se enquadram. E a doença surgiu de modo muito repentino, antes que embarcasse no Beagle. Com isso emergiu essa ideia muito idiota de que se tratava de um conflito psicológico, o que parece altamente improvável.
Minha teoria é a de que talvez estivesse sofrendo de uma úlcera. A medicina não seria capaz de diagnosticá-la então.
VON WYHE - Perguntaria sobre a maneira como ele começou a aceitar a evolução. Essa é realmente a grande pergunta que falta responder, e há pouco em que nos possamos basear.
Apenas um correspondente parece lhe ter perguntado se ele já acreditava em evolução durante a viagem do Beagle.
Darwin respondeu que, até onde se lembrava, ainda acreditava que as espécies fossem fixas, mas que vagas dúvidas lhe surgiam à mente ocasionalmente.
COYNE - Faria uma pergunta que preocupa os estudiosos de Darwin há décadas.
É sabido que Darwin e Alfred Russell Wallace apresentaram a teoria da evolução por seleção natural mais ou menos ao mesmo tempo. Darwin descobriu suas ideias paralelas quando Wallace lhe enviou uma carta e um ensaio, da Indonésia, pedindo-lhe a opinião.
O material incomodou Darwin, que queria se comportar como cavalheiro diante de uma descoberta simultânea, mas também queria o crédito por uma teoria que estava gestando havia 20 anos.
Suas teorias foram lidas juntas, perante a Sociedade Lineana de Londres, em 1º de julho de 1858, e publicadas uma em sucessão à outra na revista da organização.
Darwin escreveu ao amigo Charles Lyell, em 18 de junho de 1858, dizendo ter recebido a carta e o ensaio de Wallace naquele dia. Os documentos de Wallace, no entanto, desapareceram da correspondência de Darwin.
Os estudiosos que pesquisaram os cronogramas das viagens dos navios postais da época sugeriram, com bons fundamentos, que Darwin, na verdade, recebeu os escritos de Wallace em maio -e não em meados de junho- de 1858.
Isso significa que Darwin pode ter tido um mês todo para considerar a coincidência e descobrir como agir a respeito.
Alguns historiadores sugeriram que Darwin empregou esse tempo para roubar as ideias de Wallace e que "A Origem das Espécies", publicado em 1859, não é de todo original.
Isso é quase certamente bobagem, mas a questão da datação ainda não foi resolvida.
RANDERSON - Perguntaria sobre sua fé, ou falta de fé, pessoal.
Talvez surpreendentemente para um homem cujas grandes obras fizeram mais do que quaisquer outros trabalhos científicos para desafiar a religião, é difícil depreender, com base em suas cartas e escritos, o que ele realmente pensava sobre Deus.
As pessoas costumavam escrever sempre perguntando que efeito sua teoria teria sobre a fé que elas defendiam.
Ele sempre respondia de forma sucinta e cortês, sem se estender muito a respeito da questão. Uma dessas respostas, em 1866, estipulava que "minha opinião não vale mais do que a de qualquer outro homem que tenha refletido sobre o assunto".
Sua mulher, Emma, era profundamente religiosa e escreveu sobre um "vazio penoso" que poderia surgir entre eles devido às dúvidas de Darwin quanto à religião.
Em 1879, escreveu a seu amigo John Fordyce dizendo que "em minhas mais extremas flutuações, nunca fui ateu no sentido de negar a existência de um Deus".
"Creio que em termos gerais, e cada vez mais à medida que envelheço, a palavra "agnóstico" seria a mais correta descrição do meu estado mental."

PERGUNTA - Que livro lhe dariam?
JONES -
 "Middlemarch" [ed. Record]. George Eliot [1819-80] dramatiza a tensão entre os novos cientistas céticos e os crentes, exatamente o mundo de que proveio Darwin.
VON WYHE - "Armas, Germes e Aço", de Jared Diamond [ed. Record]. Ele ficaria fascinado pela reconstrução do passado humano de forma tão detalhada, realizada por meio de uma síntese das descobertas de tantos campos de estudo, ao longo de tantos anos.
COYNE - Não quero fazer autopromoção, mas lhe daria uma cópia de "Speciation" [Especiação], um resumo sobre a origem das espécies que fiz com Allen Orr.
Escreveria, na dedicatória, "com respeito e afeto. Espero que aprecie este livro que escrevi sobre a origem das espécies. Não vendeu tão bem quanto o seu".
RANDERSON - "Narrow Roads of Gene Land" [Estradas Estreitas da Terra dos Genes], de William Hamilton. É o grande biólogo evolutivo do século 20, por seu elegante trabalho para explicar como o egoísmo em nível genético pode resultar em cooperação nos níveis individual e de grupo.

PERGUNTA - Que filmes exibiriam para ele?
JONES - 
"Life on Earth" [A Vida na Terra, série documental], de David Attenborough.
VON WYHE - O mesmo filme. Por isso, o sr. Darwin ficaria com duas cópias.
COYNE - "O Dorminhoco", de Woody Allen. Além de ajudar Darwin a enfrentar a situação (como diria Kurt Vonnegut) de estar "descolado do tempo", o filme mostra muitas situações vitais, como a guerra nuclear, a clonagem e o humor judaico.
RANDERSON - "Guerra nas Estrelas". Talvez o cérebro do grande homem precisasse de algum tempo para repouso.

PERGUNTA - O que ele acharia do fato de que suas ideias continuam sendo atacadas, por adeptos do criacionismo e do design inteligente?
JONES -
 Provavelmente não se interessaria por isso. À época, suas teorias foram amplamente aceitas, mesmo pela igreja.
VON WYHE - Teria considerado que as pessoas que não são trabalhadores da ciência não merecem atenção quanto a questões referentes à natureza e à maneira como ela funciona.
Mas, em um sentido bastante limitado, Darwin acreditava na teoria do design. Acreditava que uma inteligência criadora poderia ter estabelecido as leis da natureza, as quais a ciência é capaz de descobrir.
COYNE - Talvez ficasse um pouco frustrado por, depois de 150 anos de provas acumuladas em confirmação do darwinismo, algumas pessoas religiosas ainda se recusarem a aceitar suas ideias.
Quanto ao argumento do design inteligente, a posição de Darwin é famosa: "A ignorância gera confiança mais do que conhecimento; são aqueles que pouco sabem, e não os que sabem muito, que asseveram com tamanha certeza que tal ou qual problema jamais será resolvido pela ciência".
RANDERSON - Não seria grande surpresa. Darwin compreendia a dificuldade que suas ideias apresentavam para alguém que acreditasse em um Deus em forma de pessoa, que criou o universo.
Contudo provavelmente se admiraria por tanta gente, no país tecnologicamente mais avançado e mais informado em termos científicos do planeta, os EUA, rejeitar com tamanha veemência sua teoria.


A íntegra deste texto saiu na "New Humanist".
Tradução de Paulo Migliacci.
 

#6983 From: Jocax <jocax@...>
Date: Mon Nov 23, 2009 12:30 pm
Subject: Uma doce batalha entre os sexos
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Uma doce batalha entre os sexos

Em sua coluna de novembro, Jerry Borges mostra como a composição e o funcionamento dos cromossomos sexuais pode estar associada à competição para a escolha de parceiros entre machos e fêmeas.

Por: Jerry Carvalho Borges

Publicado em 19/11/2009 | Atualizado em 19/11/2009

Uma doce batalha entre os sexos

Leões durante ritual de acasalamento. A juba é uma característica usada pelo macho na conquista sexual (foto: Trisha Shears).

A necessidade de atrair a atenção do sexo oposto molda grande parte de nossas atitudes. Afinal de contas, quem nunca colocou aquela roupa ou perfume especial para se fazer notar?

Essa necessidade não é exclusiva de nossa espécie e é conhecida há bastante tempo, tendo sido inclusive estudada pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882). Darwin propôs uma teoria, denominada seleção sexual, para tentar explicar como certas características animais podem ser modeladas evolutivamente pela competição para atrair o sexo oposto.

Essa competição tem sido tradicionalmente estudada entre os integrantes do sexo masculino, nos quais ela se expressa por meio de uma série de comportamentos e características morfológicas. Entre os exemplos clássicos do “arsenal” empregado pelos machos em suas conquistas sexuais estão ornamentos como jubas, caudas, chifres, caninos proeminentes e colorações extravagantes. Além disso, condutas masculinas como cantos e outras vocalizações, exibições comportamentais e disputas territoriais estão também associadas à atração da atenção de fêmeas.

Pavão
Na competição para atrair o sexo oposto, os machos – como o pavão – dispõem de ornamentos como caudas e cores extravagantes (foto: Peter Andersen).

Indivíduos portadores de características e comportamentos mais exuberantes conseguem obter um maior sucesso reprodutivo, pois se acasalam com mais frequência e produzem uma prole mais numerosa. Contudo, essas características morfológicas e comportamentais podem, muitas vezes, representar riscos para a sobrevivência ou custos energéticos mais elevados para os seus portadores.

Indivíduos com características e comportamentos mais exuberantes conseguem obter maior sucesso reprodutivo

Mas qual é o papel desempenhado pelas fêmeas na atração sexual? Há evidências de que as fêmeas selecionam ativamente seus parceiros sexuais, contudo, ainda não se conhecem as implicações de tais escolhas. Em alguns casos, as fêmeas obtêm benefícios diretos, como alimentação, cuidado paternal e acesso a territórios de melhor qualidade. Porém, em outras situações, quando as fêmeas recebem pouco ou nenhum auxílio dos machos para criar a sua prole ou se proteger, as vantagens obtidas são desconhecidas.

Esses tópicos são de grande interesse para os ecólogos, porém ainda há pouco conhecimento da base genética associada às divergências no comportamento sexual de machos e fêmeas. Apesar de esse enigma ainda estar longe de ser solucionado pela ciência, nos últimos anos os pesquisadores têm procurado respostas nas moléculas diretamente relacionadas com a diferença entre os sexos: os cromossomos sexuais.

Os cromossomos X e Y
Em mamíferos, os machos possuem dois cromossomos sexuais diferentes (XY) e são, portanto, heterogaméticos. O sexo é determinado pelo cromossomo Y, que é herdado exclusivamente da linhagem masculina. Apesar de sua importância, o cromossomo Y representa apenas 0,38% do genoma humano e é assim denominado porque se assemelha a uma letra Y quando analisado sob microscopia. Raciocínio idêntico pode ser feito para o cromossomo X.

Cromossomos sexuais
Cromossomos sexuais X e Y do homem, com a região pseudoautossômica do braço curto das moléculas (PAR1) marcada em verde (foto: Steffen Dietzel).

O cromossomo Y possui duas regiões similares ou homólogas ao cromossomo X que são responsáveis pelo pareamento dessas moléculas durante a divisão celular. Essas regiões, chamadas pseudoautossômicas (PAR1 e PAR2), estão localizadas nas extremidades do braço longo e do braço curto do cromossomo Y.

Contudo, cerca de 95% do cromossomo Y  não se recombinam com o cromossomo X. Essa região, conhecida como NRY (do termo inglês Non-Recombining Region), possui genes em um estado individualizado ou haploide, que, por isso, são transmitidos diretamente entre os pais e seus filhos do sexo masculino.

Por vários anos acreditou-se que o cromossomo Y fosse similar a um “deserto” que conduzia apenas um gene, conhecido como SRY (do termo inglês Sex Determining Region), relacionado com a determinação do sexo. Porém, pesquisas recentes revelaram que o cromossomo Y é bem mais rico: nos homens, por exemplo, ele possui 86 genes – a maior parte presente em NRY –, que codificam 23 proteínas, muitas das quais produzem características distintivas do sexo masculino ou holândricas.

Alguns genes identificados na região NRY estão associados à manutenção da fisiologia celular. Contudo, nessa região existem 10 genes expressos apenas nos testículos e que estão envolvidos com o controle da produção e diferenciação de espermatozoides. Pacientes que têm deleções ou mutações em NRY apresentam um número reduzido ou uma ausência total de espermatozoides em seu sêmen.

Os genes na região NRY são expressos em cópias múltiplas. Esse padrão de ocorrência aumenta a eficiência da espermatogênese e diminui a influência de deleções ou mutações sobre esse processo. Esse tipo de arranjo também permite que esses genes apresentem diferenças em suas sequências e criem combinações de variantes gênicas ou alelos para cada indivíduo. Contudo, não está definido claramente ainda se existe uma relação entre a composição da região NRY e um maior sucesso em termos de seleção sexual.

Os genes presentes em 95% do cromossomo Y influenciam aspectos envolvidos na seleção sexual na vida adulta

Outros genes do cromossomo Y estão associados com o controle do desenvolvimento embrionário, da estatura e do crescimento de dentes. Em várias espécies de mamíferos, embriões XY desenvolvem-se mais rapidamente até a metade da gestação do que embriões XX. Isso se reflete em um número maior de blastômeros e somitos, além de maior peso e tamanho corporal ou da cabeça. Esses processos parecem ser controlados por um único gene, denominado controlador do desenvolvimento do cromossomo Y ou GCY (do termo inglês Growth Control Y).

Os genes presentes em NRY influenciam aspectos envolvidos na seleção sexual na vida adulta. Alguns exemplos são os genes associados a um maior tamanho corporal e ao desenvolvimento de dentes, fatores importantes em processos de disputa territorial e pela atenção de fêmeas. Mas como essas descobertas sobre a biologia do cromossomo Y estão relacionadas à seleção sexual?

Influências sobre a seleção sexual
As características presentes em NRY se comportarão de forma diferenciada em comparação com genes autossômicos (não sexuais). Fatores codificados nos autossomos serão disseminados apenas se forem benéficos para ambos os sexos ou quando os benefícios para um sexo forem maiores do que as desvantagens para o outro.

Cromossomos do homem
A imagem mostra os 23 pares de cromossomos de um homem (foto: National Human Genome Research Institute).

Como não existe recombinação para os genes presentes em NRY, as características por eles codificadas são passadas de forma inalterada entre indivíduos do sexo masculino em um grupo familiar. Genes benéficos para os machos, mas prejudiciais para as fêmeas, irão se acumular no cromossomo Y e serão transmitidos apenas para os filhos e não para as filhas, nas quais eles poderiam ser selecionados negativamente.

Algumas dessas características transmitidas aos machos podem ter, contudo, efeitos negativos sobre as fêmeas, que terão custos fisiológicos e energéticos maiores para cuidar de uma prole com genes associados com maior tamanho corporal e outras características competitivas. Mas esse custo pode ser visto como uma espécie de “investimento” feito pelas fêmeas para as gerações futuras, que assim se tornarão mais fortes e resistentes.

Provavelmente, essas relações entre genes nos cromossomos sexuais e o processo de seleção sexual somente serão mais bem compreendidas à medida que forem realizadas pesquisas capazes de unir a ecologia com aspectos da biologia molecular, no momento algo tão raro quanto estabelecer uma trégua na batalha entre os sexos.

 

Jerry Carvalho Borges
Universidade Federal de Lavras

 

SUGESTÕES PARA LEITURA:
Chapman,T. (2006). Evolutionary conflicts of interest between males and females. Curr. Biol. 16, R744-R754.
Clutton-Brock,T. (2007). Sexual selection in males and females. Science 318, 1882-1885.
Gvozdev,V.A., Kogan,G.L., and Usakin,L.A. (2005). The Y chromosome as a target for acquired and amplified genetic material in evolution. Bioessays 27, 1256-1262.
Hunt,J., Breuker,C.J., Sadowski,J.A., and Moore,A.J. (2009). Male-male competition, female mate choice and their interaction: determining total sexual selection. J. Evol. Biol.22, 13-26.
Jones,A.G. and Ratterman,N.L. (2009). Mate choice and sexual selection: what have we learned since Darwin? Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A 106 Suppl 1, 10001-10008.
Noordam,M.J. and Repping,S. (2006). The human Y chromosome: a masculine chromosome. Curr. Opin. Genet. Dev. 16, 225-232.
Wong,B.B. and Candolin,U. (2005). How is female mate choice affected by male competition? Biol. Rev. Camb. Philos. Soc. 80, 559-571.

 


#6982 From: Jocax <jocax@...>
Date: Thu Nov 19, 2009 12:39 pm
Subject: O romance pode ser algo duradouro
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O romance pode ser algo duradouro, ao contrário do que normalmente se acredita

493631__daisyO romance não precisa acabar nos relacionamentos longos, nem esses precisam acabar virando um tipo de relação baseado em companhia ou amizade. O amor romântico pode durar para sempre e levar a uma vida mais saudável e feliz, diz estudo, cujos resultados estão disponíveis no periódico Review of General Psychology.

“Muitos acreditam que o amor romântico é o mesmo que paixão”, diz a principal autora, Bianca Acevedo, da Universidade da Califórnia. “Não é exatamente assim. O amor romântico é mais intenso, comprometido e com a química sexual contida na paixão, mas menos obsessivo. Paixão e amor obsessivo incluem sentimentos como incerteza e ansiedade. Esse tipo de amor ajuda a ter relações curtas, mas não as mais duradouras.”

Acevedo e Arthur Aron, revisaram 25 estudos, com mais de 6 mil pessoas em relacionamentos de curta e longa duração, para entender se o amor romântico era associado com mais ou menos satisfação. Para determinar isso, eles classificaram os relacionamentos em cada um dos estudos como romântico, apaixonado (romântico com traços obsessivos) ou amor baseado em companheirismo.

O estudo mostrou que aqueles que foram classificados com maior amor romântico eram mais satisfeitos a curto e longo prazo. No caso das relações baseadas em companheirismo essa satisfação atingiam apenas o nível moderado. No caso dos casais apaixonados a satisfação também era grande, mas em curtíssimo prazo.

Quanto maior o nível de satisfação, maior a felicidade e uma autoestima mais elevada de ambos os cônjuges. Sentimentos como “o parceiro estará esperando por você” faziam dessas relações mais duradouras algo bom para a saúde, e aumentava os sentimentos relacionados com o amor romântico. Em contrapartida, sentimentos de insegurança eram associados a menor satisfação pessoal e muitas vezes resultavam em conflitos.

A descoberta pode contribuir para as expectativas das pessoas que investem em uma relação à longo prazo. Os pesquisadores acham que o amor companheiro, que muitos casais veem como uma progressão natural de uma relação bem sucedida à longo prazo, pode estar baseado em uma expectativa que pode não se aplicar. “E casais que estão juntos à um bom tempo e gostariam de voltar ao pico de romantismo têm que procurar meios de fazê-lo. Como quase tudo na vida é necessário energia e determinação para reconquistar certos patamares de qualidade”, finaliza Acevedo.

.

da Redação

com informações da American Psychological Association

http://oqueeutenho.uol.com.br/portal/2009/11/18/o-romance-pode-ser-algo-duradouro-ao-contrario-do-que-normalmente-se-acredita/

====================
Jx: Acho factivel que o amor a longo prazo possa acontecer. Se o amor eh uma avaliacao das qualidades geneticas do companheiro e se esssas avaliacoes mostram-se corretas com o passar do tempo, entao eh possivel que o amor perdure.
Veja tambem "O Amor segundo jocax" : http://www.genismo.com/psicologiatexto5.htm


#6981 From: Jocax <jocax@...>
Date: Thu Nov 19, 2009 11:07 am
Subject: Populacao e aquecimento global
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Folha de São Paulo, quinta-feira, 19 de novembro de 2009 


População menor reduz emissão global em até 24%

DO ENVIADO AO MÉXICO

Hoje em 6,8 bilhões de habitantes, a população mundial deve chegar em 2050 a uma cifra entre 8 bilhões e 10,5 bilhões. Este número dependerá das taxas de fecundidade, e um crescimento maior agravará o aquecimento global, segundo o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas).
Um maior acesso à educação e a métodos contraceptivos diminuirá o ritmo de crescimento demográfico, especialmente em países emergentes, que tendem a aumentar suas emissões.
O relatório cita estudos que estimaram o impacto de um crescimento populacional maior. Um deles, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos EUA, considera dois cenários para 2050: um com 8 bilhões de pessoas, e outro com 9,2 bilhões. No cenário menos populoso, as emissões de CO2 seriam entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas menores.
Isso representa de 11% a 24% do total de 8,5 bilhões de toneladas de emissões globais de CO2 em 2007, segundo o Centro de Análise e Informação sobre Dióxido de Carbono.
O relatório reafirma, no entanto, que as questões de saúde reprodutiva devem seguir as diretrizes da Conferência Internacional sobre População em Desenvolvimento, realizada em 1994, no Egito.
Com 179 países signatários do acordo, ela estabeleceu que é direito das populações terem acesso a serviços de saúde e educação, para que possam decidir, livremente, quantos filhos ter, e quando tê-los.
Como há forte correlação entre mais escolaridade e menos filhos, o relatório sustenta que, ao serem atendidos esses direitos, o ritmo de crescimento populacional cairá naturalmente, sem medidas arbitrárias de controle da natalidade.
O documento também lembra que o tamanho da população não é, obviamente, a única variável a ser observada.
Apesar de a população da Índia, por exemplo, ser mais que o triplo da americana, um cidadão norte-americano é responsável, em média, por uma emissão per capita 20 vezes maior do que a de um indiano.
Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE e especialista em temas ambientais, diz que o mais importante é considerar o impacto de cada pessoa.
"Quem mais aquece o planeta é uma minoria de habitantes que vive, principalmente, em países desenvolvidos. Só que as as classes médias que surgem em países emergentes ambicionam, com justiça, ter o mesmo padrão de consumo."


"Ambiente não é desculpa para impor controle de natalidade"

DO ENVIADO AO MÉXICO

Para o autor principal do relatório do UNFPA, Robert Engelman, é impossível determinar um limite do número de habitantes do planeta que garanta sua sustentabilidade, mas ignorar o efeito do crescimento populacional é um erro. Engelman, vice-presidente da ONG de pesquisa Worldwatch Institute, conversou com jornalistas durante um seminário na cidade do México. 

 

FOLHA - Relacionar o crescimento populacional ao aquecimento global não dá margem para que o discurso de controle da natalidade volte agora com roupagem ecológica? 
ROBERT ENGELMAN
 - Talvez. Mas já há quem pense que o aquecimento global é causado unicamente pelo aumento da população. Se nós, que defendemos direitos humanos, não falarmos, outros vão falar e defenderão o controle da natalidade. É óbvio que há vínculos entre o crescimento da população e os problemas do meio ambiente. O desafio é entender a complexidade dessa relação. Há vários fatores a serem considerados, como os padrões de consumo, usos de tecnologia, políticas públicas e, claro, população.

FOLHA - Há um número ideal de habitantes do planeta? 
ENGELMAN
 - Acho impossível saber, e não vale a pena discutir. Talvez já o tenhamos ultrapassado. O que faríamos nesse caso? Vamos controlar a reprodução? Vamos matar pessoas?

FOLHA - O Brasil adotou uma meta voluntária de corte nas emissões de CO2. Isso ajudará um acordo global? 
ENGELMAN
 - É melhor do que nada, mas não é suficiente. Se todas as nações apresentarem metas voluntárias, o que teremos será um conjunto de promessas de cada país, e não um instrumento comum, que produza resultados imediatos.




#6980 From: Jocax <jocax@...>
Date: Wed Nov 18, 2009 11:50 am
Subject: Sonhos
jocaxx
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EU ACREDITO QUE OS SONHOS PODEM SERVIR COMO UMA PREPARACAO PSICOLOGICA DE FUTUROS PROVAVEIS EVENTOS
POR EXEMPLO, SE A PESSOA PENSA QUE PODE SER DEMITIDA ENTAO ELA VAI SONHAR COM ISSO E ASSIM SE PREPARAR
PSICOLOGICAMENTE PARA O FATO. SERIA COMO UMA ESPECIE DE PREPARACAO PSICOLOGICA PARA UMA FUTURA REALIDADE POSSIVEL.
Assim os sonhos teriam uma funcao evolutiva util.
(Nao sei se esta teoria ja extste)
[]jocax


17/11/2009 - 19h58

Sonho funciona como "aquecimento" para o cérebro, diz médico

Por Benedict Carey
The New York Times

Neva muito. Todos no quintal estão em trajes de banho, como em uma festa: mamãe, papai, o diretor da escola, até mesmo uma ex-namorada. E aquele ali, é o Elvis, perto da "piñata"?

 

Os sonhos são tão ricos e passam uma sensação tão autêntica que os cientistas há muito tempo concluíram que eles têm um propósito psicológico crucial. Para Freud, o sonho oferecia um playground para a mente inconsciente; para Jung, era um estágio onde os arquétipos da psique interpretavam temas primários. Teorias mais recentes sustentam que os sonhos ajudam o cérebro a consolidar memórias emocionais ou trabalhar para resolver problemas atuais, como divórcio ou frustrações profissionais.

 

 

The New York Times
Teorias sustentam que os sonhos ajudam o cérebro a consolidar memórias emocionais ou trabalhar para resolver problemas
UOL CIÊNCIA E SAÚDE

Mas... E se o propósito principal dos sonhos não for nem um pouco psicológico?

 

 

Em um artigo publicado no ano passado no jornal Nature Reviews Neuroscience, Dr. J. Allan Hobson, psiquiatra e experiente pesquisador do sono de Harvard, argumenta que a principal função do sono REM (do inglês, rapid eye movement), quando ocorre a maioria dos sonhos, é fisiológica. O cérebro está aquecendo seus circuitos, antecipando as visões, sons e emoções do despertar.

 

"Isso ajuda a explicar muitas coisas, como por que as pessoas esquecem tantos sonhos", disse Hobson, em entrevista. "É como fazer jogging: o corpo não se lembra de cada passo, mas sabe que se exercitou. Ele foi ajustado. É a mesma ideia aqui: os sonhos estão ajustando a mente para o estado de consciência".

 

A partir de ideias próprias e de outros, Hobson argumenta que o sonho é um estado paralelo de consciência que opera continuamente, mas é normalmente suprimido durante o despertar. Essa visão é um exemplo importante de como a neurociência está alterando noções sobre as funções cerebrais de todos os dias (ou de todas as noites).

 

"A maioria das pessoas que estudam os sonhos começa com algumas ideias pré-determinadas de aspecto psicológico e tentam fazer os sonhos se encaixarem nelas", disse Dr. Mark Mahowald, neurologista e diretor do programa de distúrbios do sono do Hennepin County Medical Center, em Minneapolis. "O que eu gosto nesse novo artigo é que ele não faz nenhuma conclusão sobre o que faz o sonho".

 

O artigo já gerou controvérsias e discussões entre freudianos, terapeutas e outros pesquisadores, incluindo neurocientistas. Dr. Rodolfo Llinas, neurologista e psicólogo da New York University, afirmou que o raciocínio de Hobson era impressionante, mas não a única interpretação fisiológica dos sonhos.

 

"Defendo que o sonho não é um estado paralelo, mas a própria consciência, na ausência do que entra pelos sentidos", disse Llinas. Ele defende o argumento no livro "I of the Vortex: From Neurons to Self" (MIT, 2001). Quando as pessoas estão acordadas, explicou ele, seu cérebro basicamente revisa suas imagens de sonhos para que se encaixem com o que vê, ouve e sente – os sonhos são "corrigidos" pelos sentidos.

 

Essas novas ideias sobre os sonhos são, em parte, baseadas em descobertas primárias sobre o sono REM. Em termos evolucionários, o REM parece ser um desenvolvimento recente; ele é detectável em humanos e outros mamíferos e pássaros homeotérmicos. Além disso, estudos sugerem que o REM aparece muito cedo na vida – no terceiro trimestre para humanos, bem antes que uma criança em desenvolvimento tenha experiência ou imagens para preencher um sonho.

 

Em estudos, cientistas descobriram evidências de que a atividade REM ajuda o cérebro a construir conexões neurais, particularmente em suas áreas visuais. O feto em desenvolvimento pode "ver" algo, em termos de atividade cerebral, muito antes de os olhos se abrirem pela primeira vez – o cérebro em desenvolvimento usa modelos inerentes e biológicos de espaço e tempo, como uma máquina de realidade virtual interna. Os sonhos completos, no sentido usual da palavra, vêm muito depois. Seu conteúdo, de acordo com esse raciocínio, é um tipo de teste grosseiro para o que o dia seguinte pode trazer.

 

Interpretações

 

Nada disso afirma que os sonhos sejam vazios de significado. Quem se lembra de um sonho vívido sabe que, às vezes, as cenas noturnas estranhas refletem desejos e ansiedades reais: o jovem professor que se vê nu no púlpito; a mulher que foi mãe recentemente diante de um berço vazio, histérica em sua perda imaginária.

 

Porém, as pessoas podem ler quase tudo dos sonhos que elas memorizaram – e fazem exatamente isso. Em um estudo recente, com mais de mil participantes, pesquisadores da Carnegie Mellon University e Harvard descobriram fortes tendências na interpretação dos sonhos. Por exemplo, os participantes tenderam a atribuir mais significado a um sonho negativo se era sobre alguém de quem eles não gostavam, e mais significado a um sonho positivo se era sobre um amigo.

 

Na verdade, pesquisas sugerem que apenas 20% dos sonhos contêm pessoas ou lugares que o sonhador encontrou. A maioria das imagens parece ser única para um sonho só.

 

Cientistas sabem disso porque algumas pessoas possuem a habilidade de observar seus próprios sonhos como espectadores, sem acordar. Esse estado de consciência, chamado de sonho lúcido, é, por si só, um mistério – e importante para místicos. No entanto, é um fenômeno real, no qual Hobson encontra forte respaldo para seu argumento defendendo os sonhos como um aquecimento fisiológico antes do despertar.

 

Sonho lúcido

 

Em dezenas de estudos, pesquisadores trouxeram pessoas para o laboratório e as treinaram para sonhar lucidamente. Eles o fazem com uma variedade de técnicas, incluindo autossugestão quando as pessoas deitam a cabeça no travesseiro ("Eu vou ficar consciente no sonho; vou observar") e o ensino de sinais indicadores de sonho (os interruptores não funcionam; levitar é possível; muitas vezes não conseguimos gritar).

 

O sonho lúcido ocorre durante um estado híbrido de consciência, afirmam pesquisadores do sono – uma dose pesada de REM com uma pitada de consciência desperta. "Esse é apenas um tipo de estado híbrido, mas há vários outros", disse Mahowald. Sonambulismo e terrores noturnos, disse ele, representam misturas de ativação muscular e sono fora do REM. Ataques de narcolepsia refletem uma transgressão do REM no alerta normal diurno.

 

Em um estudo publicado em setembro no jornal Sleep, Ursula Voss, da J.W. Goethe-University, em Frankfurt, liderou uma equipe para analisar ondas cerebrais durante o sono REM, o despertar e o sonho lúcido. Descobriram que o sonho lúcido tinha elementos de REM e do despertar – mais notavelmente nas áreas frontais do cérebro, que se acalmam durante os sonhos normais. Hobson foi coautor do artigo.

 

"Vemos o cérebro dividido em ação", disse ele. "Isso me diz que há esses dois sistemas, e que, na verdade, eles podem estar funcionando ao mesmo tempo".

 

Pesquisadores ainda têm um longo caminho a percorrer antes de poder confirmar ou preencher essas hipóteses. Todavia, o desfecho poderia se estender além de uma compreensão mais profunda sobre o sono do cérebro. Pessoas com esquizofrenia sofrem ilusões de origem desconhecida. Hobson sugere que esses voos da imaginação podem estar relacionados a uma ativação anormal de uma consciência que está sonhando. "Se o sonhador acordar, teremos psicose", disse Jung.

 

Para todas as outras pessoas, pensar nos sonhos como um tipo de checagem de som para o cérebro também pode trazer conforto. Aquele sonho sinistro com as pessoas reunidas no quintal em uma festa estranha? Provavelmente não tem significado. Não há motivo para gritar, mesmo que fosse possível.

 


#6979 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 17, 2009 6:47 pm
Subject: Berco e Criacao
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Folha de São Paulo, domingo, 15 de novembro de 2009
+Marcelo Leite

Berço e criação
Determinismo genético saiu de moda na academia


Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o
provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra
coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos
provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".

A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". Debate-se há
séculos quanto de nossas disposições gerais, em especial de
temperamento, são "causadas" por fatores herdados. Para muita gente,
isso significa deixar de ter responsabilidade pelo que são, e até pelo
que fazem.

A partir do século 20, o problema foi enquadrado na moldura dos genes.
Começou-se a falar em genética do comportamento, da violência, da
orientação sexual etc. Assim como o escorpião da fábula explicou ao sapo
que ferroá-lo estava em sua natureza, há quem acredite safar-se
alegando: "Está no meu DNA".

É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês
como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano,
teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980,
houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo
substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou
berço).

Esse determinismo genético saiu de moda há anos, na intimidade do meio
científico, mas tem apelo irresistível no público e é tolerado por
pesquisadores. Caiu em desuso técnico porque é falacioso. Seu defeito
está em confundir "genético" com "hereditário" ou "inato", pois nem tudo
que afeta os genes ocorre antes do nascimento.

Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado
eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na
semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de
Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na
primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no
comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a
expressão desse conteúdo.

É o que se chama de epigenética, anotações que a experiência vivida
deixa no genoma. Elas sinalizam quais genes do acervo de mais de 20 mil
podem e devem ser usados em cada circunstância. O grupo de Murgatroyd
investigou em camundongos o efeito de estresse em filhotes separados da
mãe três horas por dia nos primeiros dez dias de vida.

A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando
filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina,
associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu,
ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA. É
óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é
difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós.
Somos o resultado não só do que está em nossos genes, mas também do que
se superpõe a eles. Nem berço nem criação, mas berço-e-criação.

Essa visão menos determinista nos convida a investigar, ponderar e
influir tanto no que está no DNA quanto no modo como criamos nossos
filhos e jovens e como tratamos a nós próprios. Como já foi dito, somos
o que fizermos do que fizeram de nós. Incrível: descobri no Google que o
imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não
Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a
ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse /
Meu filho, espera / A inocência que há / No olhar da fera".

MARCELO LEITE é autor de "Darwin" (série Folha Explica, Publifolha,
2009) e "Ciência - Use com Cuidado" (Editora da Unicamp, 2008). Blog:
Ciência em Dia ( cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br ). E-mail:
cienciaemdia.folha@...

#6978 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 17, 2009 4:45 pm
Subject: Budismo, por jocax
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Budismo

Acredito que o budismo seja uma doutrina que foi criada para controlar uma super-população de mendigos e analfabetos onde os poucos recursos existentes estavam restritos a algumas castas de privilegiados.

Para evitar uma revolta popular ( a "la francesa" onde muitas cabeças rolaram) criou-se o budismo. No budismo o chique é não querer nada, pois quase nao se ha nada que que possa obter mesmo, assim desejando-se o que nao ha , sofre-se menos. 

No budismo a culpa pela dor eh de quem deseja e nao a de quem nao distribui os recursos. Se vc deseja a maravilhosa casa do sultao a culpa eh sua!   Entao, o melhor que vc pode fazer eh tentar VIRAR UMA ESTATUA, ja que se matar da muito na vista. Entao passa-se a cultura de que se vc conseguir virar uma "estatua", sem desejos , sem vontade , sem nada, vc nao vai sentir dor !  Eh o fim da dor ! ( e do prazer tambem ). PODEMOS CONCLUIR QUE O IDEAL BUDISTA EH UMA MORTE EM VIDA !!

Claro que eh desnecessario dizer que o budismo vai contra muitos instintos humanos cujo objetivo eh a perpetuacao genetica e para isso a obtencao de posses como riquezas, mulheres, poder , bens , terras e etc sao bem vindo e portanto  dao muito prazer. As coisas que dao prazer e produzem felicidade sao aquelas que auxiliam a perpetuacao genetica. 

Portanto eh uma "luta ingloria" passar a vida LUTANDO contra seus instintos que querem um destaque , que querem uma acencao socio-economica e tudo mais para tentar virar uma estatua em vida.;

Jocax

http://stoa.usp.br/ateismo/forum/67298.html

-------------
Budismo:
Acho q eu ateh ja te disse:
Se vc ker paz , nenhum sofrimento nem desejos : DA UM TIRO NA CABECA !!
O que parece que os budistas querem eh UMA MORTE EM VIDA !!
Se objetivo maximo eh estar petrificado como uma estatua sem sentimentos !!
Eh uma NEGACAO DA VIDA.
O budismo foi feito para uma turma enorme de esfomeados que nao tinham nada
e nem poderiam ter e portanto inventaram esta doutrina de que nao ter nada
nem sentir nada eh o SUPRA SUMO.
Dessa forma evitaram um LEVANTE SOCIAL por melhor distribuicao de renda e recursos
fazendo o povo acreditar que ser uma estatua e nao reinvidicar nem querer NADA
eh o maximo !!
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=11882420&tid=2570529390409078412&na=2&nst=168


#6977 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 17, 2009 12:01 pm
Subject: Como o Google ordena as buscas
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VALE A PENA SABER

MATEMÁTICA

Como o Google ordena as buscas

Endereços de busca necessitam ordenar os sites de acordo com a sua importância 

JOSÉ LUIZ PASTORE MELLO
ESPECIAL PARA A FOLHA 

De acordo com levantamentos recentes, em outubro de 2009 a internet registrou um total de 230 milhões de sites. Nesse oceano de informação, endereços de busca como Google, Yahoo e AltaVista necessitam ordenar os sites de acordo com a sua importância.
Por exemplo, se você digitar no Google a palavra "folha", o primeiro site listado será a Folha Online, e isso não se deve a uma predileção do Google pela Folha Online, mas sim ao fato de que o site é classificado com alto PageRank ou PR, um índice que mede o grau de "importância" da página. O PR é uma medida do número de links direcionados para uma determinada página. O cálculo do PR de um site é um problema essencialmente matemático, como veremos a seguir. 
Imaginemos uma web com apenas três sites, A, B e C. Chamaremos de PR(A), PR(B) e PR(C) o PageRank dos sites A, B e C, respectivamente. O Google utiliza a seguinte fórmula para o cálculo do PR de um site X dessa nossa microweb de apenas três sites: PR(X)=0,15+0,85.K, onde K é a soma dos quocientes de PR dos sites que compõem a web (exceto o site X) e dispõem de link indicando X, pelo número de links indicados em cada um desses sites (links para quaisquer sites da web). Entenderemos melhor o uso dessa fórmula através de três exemplos. 
No exemplo 1, para o cálculo de PR(A) temos K=0, porque nem B nem C indicam links para o site A. Nesse caso, temos PR(A)=0,15.
No mesmo exemplo 1, PR(B)=0,15+0,85.[PR(A)/1]. No cálculo de PR(B), o valor de K leva em conta apenas PR(A), porque A é o único site que indica link para B; e PR(A) está sendo dividido por 1 porque A faz uma única indicação de link na web. Finalmente, PR(C)=0,15+0,85.[PR(B)/1], por razões análogas ao caso anterior. Para determinar PR(B) e PR(C), basta resolver o sistema de equações, o que resultará PR(B)=0,2775 e PR(C)=0,385875. 
Nesse caso, obtivemos PR(A)PR(B)PR(C), o que sugere uma ordenação razoável da importância dos três sites se analisarmos com atenção a configuração dessa web. 
No exemplo 2 temos uma configuração de web onde A, B e C têm a mesma importância. O sistema de equações a ser resolvido é: PR(A)=0,15+0,85.[PR(C)/1], PR(B)=0,15+0,85.[PR(A)/1] e PR(C)=0,15+0,85.[PR(B)/1], cuja solução será PR(A)=PR(B)=PR(C)=1, tal qual o esperado. 
No exemplo 3, as equações são as seguintes: PR(A)=0,15+0,85.[PR(B)/1], PR(B)=0,15+0,85.[PR(A)/2 +PR(C)/1] e PR(C)=0,15+0,85.[PR(A)/2], cuja solução é: PR(A) 1,1634, PR(B)1,1922 e PR(C)0,6444. O site B tem maior PR porque é apontado pelos outros dois sites, e o site A fica em segundo lugar porque é apontado por B, que é o site de maior PR. 
Saindo da nossa microweb de três sites para a web real, com mais de 230 milhões de sites, o calculo do PR de um site por sistemas de equações é absolutamente intratável, mesmo se forem usados supercomputadores. Na web real, a determinação do PR de um site é feita por aproximação usando as mesmas ideias aqui apresentadas, mas através de cálculos iterativos. 

JOSÉ LUIZ PASTORE MELLO é graduado e mestre pela USP e professor de matemática do colégio Santa Cruz.

jlpmello@...


#6976 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 17, 2009 11:15 am
Subject: O evangelista evolucionario
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O evangelista evolucionário

Em sua coluna de novembro, Sergio Pena comenta o último livro do biólogo e divulgador britânico Richard Dawkins e elogia sua defesa da evolução como fato, e não como teoria.

Por: Sergio Danilo Pena

Publicado em 13/11/2009 | Atualizado em 13/11/2009

O evangelista evolucionário

Richard Dawkins, evangelista evolucionário, grande defensor e divulgador do fato da evolução (foto: Christopher G Street).

Neste ano que em que se comemoram 200 anos do nascimento de Charles Darwin (1809-1882) e 150 anos da publicação da Origem das espécies, é muito fácil cair na tentação de fazer um culto à personalidade. De fato, já discuti em uma coluna anterior o fato de que a narrativa da vida de Darwin que se tornou padrão na imprensa e na literatura popular é suspeitosamente similar à descrição da “trajetória do herói” popularizada pelo mitologista americano Joseph Campbell.

Culto à personalidade
O culto da personalidade, uma característica dos regimes totalitários, não deveria ter nenhum lugar em ciência (reprodução).

Sob esse prisma é interessante examinar a relação que há entre os escritos de Charles Darwin, na Origem e em seus livros posteriores,  e a evolução tal como ela é concebida pela genética moderna. Nos últimos 150 anos, a seleção natural foi primeiro extensivamente modificada (e fortalecida) pela compatibilização com a genética mendeliana, na chamada Nova Síntese. Mais recentemente, foi enriquecida pelos avanços da genômica, passando a incluir a evolução neutralista por deriva genética como parte fundamental de seu cânone.

Metaforicamente, podemos comparar a evolução por seleção natural apresentada por Darwin a um avião equivalente ao 14-Bis de Santos Dumont (1873-1932), enquanto a evolução como conceituada hoje, lastreada em estudos diretos do DNA, seria um supersônico Concorde ou, melhor ainda, um bombardeiro Stealth.

A visão moderna da evolução descende de Darwin, mas com considerável modificação

É possível dizer que a visão moderna do processo evolucionário descende de Darwin, mas com considerável modificação. Ele não pode de forma alguma ser visto como a personificação da evolução, como ocasionalmente é retratado na imprensa.

Não chamamos a teoria da relatividade de “einsteinianismo”. Da mesma maneira, sugiro que a expressão “darwinismo”, muito usada e abusada por evolucionistas e especialmente por criacionistas, seja empregada exclusivamente para se referir ao que ele escreveu e abandonada de uma vez por todas como representação do todo da evolução.

Richard Dawkins
A evolução por seleção natural teve vários defensores e divulgadores nos últimos 150 anos. O primeiro foi Thomas Huxley (1825-1895), fundamental na propagação das idéias de Darwin, incapacitado de viajar e apregoar sua própria teoria por causa da doença que o aprisionava em sua residência rural em Kent, na Inglaterra. Por isso, Huxley recebeu o apelido de “Buldogue de Darwin”. Outro grande paladino da seleção natural no continente europeu foi o controverso Ernst Haeckel (1834-1919), ocasionalmente chamado, por analogia e origem natal, de “Dobermann de Darwin”.

Pois bem, a atual grande face pública da evolução natural é certamente o britânico Richard Dawkins (1941-). Tenho algumas restrições a Dawkins, principalmente pela sua posição ultrasselecionista. Mas é mister reconhecer o valor e a importância dessa grande figura humana. De fato, Dawkins e eu temos muito em comum: somos ambos racionalistas militantes e evolucionistas “roxos” (independentemente, nós dois sempre falamos sobre “o fato” da evolução).

A atual grande face pública da evolução natural é o britânico Richard Dawkins

No mês passado, em Nova Iorque, assisti a uma palestra de Dawkins, como parte da campanha de lançamento de seu novo livroThe Greatest Show on Earth (“O maior espetáculo da Terra” – ver abaixo). Foi uma surpresa observar que o local – a Associação Hebraica (92Y), na esquina da rua 92 com a avenida Lexington – estava superprotegido pela polícia, presumivelmente para evitar qualquer tentativa de terrorismo. O quarteirão havia sido fechado ao tráfego e havia detectores de metal na entrada do auditório.

Capa - The greatest show on Earth
O novo livro de Richard Dawkins, “O maior espetáculo da Terra”, lançado há menos de um mês, já ocupa o 17º lugar na lista de best-sellers não-ficção do jornal 'The New York Times'.

Dawkins tem uma aparência patrícia, com traços finos, personalidade suave (mas podendo em segundos se tornar duro como aço) e um sotaque inglês muito bonito, exalando cultura. Sem dúvida uma bela estampa. Com o auditório totalmente lotado, assistimos a um verdadeiro show de retórica, com explicações cristalinas e exemplos cativantes sobre a evolução. 

No dia seguinte, Dawkins deu outra palestra, na Academia de Ciências de Nova York, que inclusive está disponível em um podcast, no qual ele é apresentado como “evangelista da evolução” e chamado de “Rottweiler de Darwin”. Na fala – que recomendo –, ele descreve, capítulo a capítulo, as ideias centrais do seu novo livro.

O maior espetáculo da Terra
A nova obra de Dawkins hoje ocupa o 17º lugar na lista de best-sellers não-ficção do New York Times (uma lista que raramente contém livros científicos). Em um golpe de marketing, escolheu o título “O maior espetáculo da Terra”, o mesmo usado para descrever o famoso circo de P.T. Barnum (1810-1891). Mais tarde, o título foi também usado no filme de 1952 dirigido por Cecil B. DeMille.

Entretanto, não é tudo papel machê: o texto é rigorosamente científico, informativo, convincente e muito bem escrito. Em outras palavras, motivo de admiração e inveja “positiva” deste colunista. Não vou descrever o seu conteúdo, que tem recebido dezenas de resenhas apreciativas, incluindo uma, em português, do jornalista Claudio Angelo naFolha de S. Paulo.

O novo livro de Dawkins é rigorosamente científico, informativo, convincente e muito bem escrito

Entre as resenhas que vi, a mais peculiar foi a de Nicholas Wade, editor de ciências do New York Times. Wade decidiu implicar com o autor, embarcando em uma discussão epistemológica estéril sobre exatamente o ponto que eu mais concordo com Dawkins: a visão de que a evolução é um fato e não uma mera teoria.

A resenha de Wade catalisou  uma carta ao editor que transcrevo aqui, pois é brilhante e resume pontos de grande importância.

A carta é do conhecido filósofo americano Philip Kitcher (1947-) , Professor da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Ele escreve (minha tradução):

Na resenha do livro The Greatest Show on Earth, Nicholas Wade acusa Richard Dawkins de um erro filosófico. De acordo com Wade, os filósofos da ciência dividem proposições científicas em três tipos — fatos, leis e teorias — e, de forma contrária às afirmativas de Dawkins, a evolução, que é simplesmente uma teoria, não pode ser considerada um fato. Entretanto, a filosofia da ciência contemporânea oferece um vocabulário muito mais vasto e detalhado para o pensamento das ciências do que é pressuposto na taxonomia supersimplificada de Wade e seus confusos palpites sobre “verdade absoluta”. Embora filósofos possam discordar de aspectos dos argumentos de Dawkins em outros tópicos, ele tem uma compreensão mais firme e sutil do que sugere a resenha de Wade.

O ponto crucial é que, como Dawkins corretamente percebe, a distinção entre teoria e fato, em discussões filosóficas assim como coloquialmente, pode ser estabelecida de duas maneiras diferentes. Por um lado, teorias são concebidas como sistemas gerais de explicação e predição, enquanto fatos são relatos específicos sobre processos e eventos. Por outro lado, “teoria” é usada para sugerir que há espaço para dúvidas racionais, enquanto “fato” sugere algo que é tão amplamente confirmado pela evidência que pode ser aceito sem debate.

Os oponentes da evolução se deslocam da ideia de que a evolução é uma teoria, no primeiro sentido, para concluir que é (apenas) uma teoria, no segundo. Qualquer inferência desse tipo é falaciosa, pois muitos enfoques sistemáticos de fenômenos naturais – como a compreensão de reações químicas em termos de átomos e moléculas e o estudo da hereditariedade em termos de ácidos nucleicos – são tão bem alicerçados que contam como fatos (no segundo sentido). Muitos cientistas e filósofos que já escreveram sobre evolução têm indicado que a teoria contemporânea, que descende de Darwin, tem o mesmo status – ela também deve ser considerada um “fato”. Dawkins está plenamente justificado em segui-los.”

Assim, com palavras sábias e cristalinas, Kitcher, a meu ver, sacramenta irreversivelmente a evolução como fato.

E o New York Times dá uma demonstração de integridade jornalística ao publicar uma carta de crítica a um de seus editores, em contraste com algumas publicações brasileiras que só divulgam cartas elogiosas.

 

Sergio Danilo Pena
Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais


#6975 From: Jocax <jocax@...>
Date: Tue Nov 17, 2009 11:03 am
Subject: O crepusculo dos sabios
jocaxx
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C e-mail 3890, de 16 de Novembro de 2009.

*5. O crepúsculo dos sábios, artigo de Olgária Matos*


"Apática, sem maravilhamento, a universidade pós-moderna se esqueceu de
sua dívida simbólica com as gerações passadas"

Olgária Matos é professora de filosofia da USP. Artigo publicado em "O
Estado de SP":



O conceito de universidade moderna e a natureza do conhecimento que ela
produziu até os anos 1960 tinham por objetivo formar o cientista. Este
representava o "mestre da verdade" porque capaz de compreender seu
ofício na complexidade dos saberes e da história. Sua autoridade
procedia de sua palavra pública, pela qual se fazia responsável. O
cientista era o intelectual, e para ele a pesquisa não correspondia a
uma profissão, mas a uma vocação.



O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações
imediatamente materiais e do mercado. Sua temporalidade - a da reflexão
- compreendia-se no longo prazo, garantidora da transmissão de tradições
e de suas invenções.



A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção,
constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do
conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções
técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do
lucro. A temporalidade do mercado confisca o tempo da reflexão, selando
o fim do papel filosófico e existencial da cultura.



Para a universidade moderna não cabia a pergunta "para que serve a
cultura", mas sim "de que ela pode liberar". A universidade moderna
elevava a sociedade aos valores considerados universais no concerto das
nações que procuravam uma linguagem comum ao patrimônio cultural de toda
a humanidade, devolvendo-o à sociedade com seus maiores cientistas e
seus melhores técnicos. Essa foi a tradição de Goethe que havia
formulado a ideia da Weltliteratur, da literatura universal como
cosmopolitismo do espírito.



A universidade pós-moderna é a da indiferenciação entre pesquisa e
produção. O intelectual cultivado foi destituído - em todos os domínios
do conhecimento - pelo especialista e seu conhecimento particularizado,
cujo contato com a tradição cultural é episódico ou inexistente. Seu
discurso não diz mais o "universal" e se limita a formulações técnicas,
perdendo-se o sentido do conhecimento e seus fins últimos, com a
passagem da questão teórica "o que posso saber" para a pragmática "como
posso conhecer".



Para Gunther Anders, o emblema da conversão do intelectual em
pesquisador, da razão crítica em desresponsablização ética e
racionalidade técnica, foi Fermi na Itália e Oppenheimer nos EUA, cujas
pesquisas sobre a bomba atômica foram tratadas por eles em termos
estritamente técnicos.



A universidade pós-moderna não lida mais com as "grandes narrativas" nem
busca a fundamentação do conhecimento e seus primeiros princípios. Como
o mercado, se pauta pela mudança incessante de métodos e pesquisas. Nada
aprofunda, produzindo uma cultura da incuriosidade, imune ao
maravilhamento. Em sua pulsão antigenealógica, acredita que tudo o que
nela se desenvolve deve a si mesma, não reconhecendo nenhuma dívida
simbólica com as gerações passadas. Essa circunstância, por sua vez,
pode ser compreendida no âmbito da massificação da cultura e da
universidade.



Com a ditadura dos anos 1960 no Brasil, a universidade pública moderna -
concebida de início para formar as elites governantes, a partir do
ideário de universidade cultural, científica e com suas áreas técnicas -
começa sua desmontagem, o que e resulta em sua massificação.



Sob a pressão de massas historicamente excluídas dos bens científicos e
culturais, bem como do sucesso profissional aferido pelo enriquecimento
nas profissões liberais, a universidade pós-moderna acolhe populações
sem o repertório requerido anteriormente para a vida acadêmica.



Face ao ideário moderno baseado no mérito de cada um e não mais no
sistema nobiliárquico do nascimento, e sua incompatibilidade com a
desigualdade real de oportunidades para a ascensão social, a
universidade pós-moderna questiona, contrapondo-os, mérito e igualdade,
reconhecendo no primeiro a manutenção do regime de privilégios e
distinções do passado.



Assim, a universidade atual adapta-se à fragilidade do ensino
fundamental e médio, passando a compensar as deficiências dessa
formação. Para isso, a graduação retoma o ensino médio, a pós-graduação
a graduação, o doutorado o mestrado, cuja continuidade é o
pós-doutorado, tudo culminando na ideia da "formação continuada" e de
avaliações permanentes. Ao mesmo tempo, a ideia de pesquisa moderna
anterior transforma-se em fetiche pós-moderno, tanto que a iniciação
científica se faz para estudantes em preparação para a vida
universitária adulta, mas constrangidos a publicações precoces.



O paradoxo é grande, uma vez que, maiores as carências nos anos de
formação do estudante - como a precariedade no acesso à bibliografia em
idiomas estrangeiros e dificuldades de expressão oral e escrita na
língua nacional -, mais estreitos são os prazos para a conclusão de
mestrados e doutorados.



Prazos e métodos, por sua vez, migram das disciplinas científicas para
todos os campos do conhecimento, sob o impacto do prestígio da
formalização do pensamento, como é possível reconhecer, em particular no
estruturalismo e, mais recentemente, no linguistic turn, sua
legitimidade garantida pelo rigor científico de suas formulações.
Acrescente-se o abandono da ideia de rigor na escrita e o fim do estilo,
com o advento do gênero paper e a multiplicação de congressos no mundo
globalizado.



Massificada a cultura, proliferaram, com a ditadura militar, a
privatização do ensino e seu barateamento, as universidades particulares
- salvo as exceções de praxe - prometendo ascensão social e acesso ao
"ensino superior" e decepcionando suas promessas. A universidade moderna
que a antecedeu garantia o exercício da formação especializada e se
encontrava na base dos cursos técnicos com formação humanista para todos
os que não se encaminhavam para a pesquisa, devendo atender à
profissionalização, mas também à felicidade do conhecimento.



A emergência da universidade pós-moderna diz respeito ao abandono dos
critérios consagrados até então a fim de democratizá-la. Mas a
democratização pós-moderna é massificação. A sociedade democrática
comportava diversas representações das coisas: os partidos representavam
as diferentes opiniões, os sindicatos os trabalhadores, a Confederação
das Indústrias os empresários.



Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas
pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que
primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria
criou. Razão pela qual massificação significa perda da qualidade do
conhecimento produzido e transmitido, adaptado às exigências de massas
educadas pela televisão, com dificuldade de atenção e treinadas para a
dispersão, mimadas por uma educação que se conforma a seu último ethos.



A cultura pós-moderna é a da "desvalorização de todos os valores". Sua
noção de igualdade é abstrata, homóloga à do mercado onde tudo se
equivale. Em meio à revolução liberal pós-moderna, a universidade presta
serviços e se adapta à sociedade de mercado e ao estudante, convertido
em cliente e consumidor, como o atesta a ideologia do controle dos
docentes por seus alunos.



Em seu ensaio Filosofia e Mestres, Adorno diz, temendo incorrer em
sentimentalismo, que o conhecimento exige amor. Sua universidade, a de
Frankfurt, era moderna, humanista, como era humanista o professor de uma
fita italiana dos anos 1970. No filme, estudantes impedem o franzino
docente de literatura românica com seus compêndios eruditos de entrar na
sala de aula onde discutem questões do curso.



Sentado em um banco, o mestre escuta o vozerio e ruídos de cadeiras
sendo arrastadas. Por fim é chamado e, quando entra, os estudantes em
suas carteiras estão em círculo, e o professor senta-se entre eles.
Discutem então o que o professor deveria ensinar-lhes. Como não chegam a
nenhum consenso e o dia se faz crepuscular, decidem finalmente deixar
que o professor se manifeste. Ao que o professor, retomando seu lugar
junto à lousa e diante de todos, anuncia: "Estou aqui para ensinar a
vocês a beleza de um verso de Petrarca".



Metáfora rigorosa para a educação, da escola maternal à universidade, o
conhecimento, como escreveu Freud, é uma das tarefas mais nobres da
humanidade no longo processo de sua humanização.

(O Estado de SP, 15/11)

#6974 From: Jocax <jocax@...>
Date: Mon Nov 16, 2009 12:46 pm
Subject: A Mutacao do Tropeiro
jocaxx
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Folha de São Paulo, domingo, 15 de novembro de 2009 


Mutação cria explosão de câncer raro no Brasil

Portadores podem ser descendentes de tropeiro que viajou pelo Sul no século 18

Frequência da síndrome no Sul e Sudeste é 16 vezes maior do que no resto da população; troca de "letra" em um gene é a causa 

REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL

Famílias do Sul e do Sudeste do Brasil sofrem há gerações com uma forma tão agressiva de câncer que alguns dos afetados chegam a se referir à doença como uma maldição hereditária. Um grupo de pesquisadores acaba de mostrar que o problema remonta, de fato, a um ancestral comum -segundo eles, provavelmente um tropeiro que deixou descendentes país afora no século 18.
Por enquanto, contudo, a principal implicação dos estudos é bem mais prática do que entender a história populacional do Brasil Colônia.
"Certa parcela dos tumores do Sul e do Sudeste, que nós ainda não sabemos qual é, mas que certamente não é desprezível, está ligada a essa mutação", afirma a médica Maria Isabel Waddington Achatz, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Achatz é coautora de um artigo na revista científica "Human Mutation" que detalha esse trabalho de detetive.

Caso especial
A alteração no DNA, típica de algumas das famílias do Sul e Sudeste, se encaixa num conjunto mais amplo de mutações ligadas a formas severas de câncer. Esse grupo maior, conhecido como síndrome de Li-Fraumeni, se caracteriza por vários tumores na mesma pessoa -de mama, do cérebro e da glândula suprarrenal, por exemplo- antes dos 45 anos de idade.
Os cânceres da síndrome de Li-Fraumeni têm a mesma causa: mutações no trecho de DNA que carrega a receita para a produção da proteína p53. Essa proteína, apelidada de "guardiã do genoma", tem como principal função justamente impedir os erros de cópia do DNA que levam ao surgimento do câncer. Ela pode até forçar o "suicídio" de uma célula que passou por mutações perigosas. Assim, sem ela, o organismo perde uma de suas principais defesas.
As alterações do gene da p53 que produzem a síndrome de Li-Fraumeni são raras, atingindo uma a cada 5.000 pessoas. Mas, quando começou a se interessar pelo tema, em 2001, Achatz percebeu que o número de pacientes era bem maior do que o esperado. "Logo pensei que estava acontecendo alguma coisa estranha aqui", diz.
Os últimos anos confirmaram essa suspeita. Ficou claro que um tipo específico de mutação no gene da p53 era muito comum em pessoas do Sul e do Sudeste com Li-Fraumeni. O último trabalho de Achatz e seus colegas foi mais fundo: analisou 12 famílias com essa mutação, em princípio sem relação de parentesco entre si.
O resultado: todas carregavam o mesmo conjunto de 29 trocas de "letras" químicas no gene da p53. "A chance de todas essas trocas acontecerem juntas em famílias diferentes é baixíssima", diz Achatz. O melhor jeito de explicar isso é imaginar que todas herdaram o conjunto típico de alterações de um ancestral comum distante.
Dados obtidos em Porto Alegre e Curitiba, com milhares de pacientes, sugerem que a frequência verdadeira da mutação nesses lugares é de uma em cada 300 pessoas. O mesmo pode valer em São Paulo, afirma a médica. "Quando colocamos essas famílias no mapa, o padrão casa muito bem com as rotas seguidas pelos tropeiros que carregavam mercadorias entre o Sul e o Sudeste no século 18", argumenta ela.
A ideia é que o primeiro portador da mutação teria tido filhos com muitas mulheres ao longo da rota das tropas. Esse sucesso em deixar filhos, junto com outros fatores (leia texto à dir.), teria feito com que seus descendentes estivessem presentes em número desproporcional na população de hoje.
Achatz diz que o próximo passo para fortalecer a tese é tentar estimar a data de origem da mutação, com a ajuda da equipe do geneticista Andrés Ruiz-Linares, do University College de Londres. Ela defende que valeria a pena testar a mutação de maneira mais ampla na população, para enfrentar esse tipo de câncer com a maior precocidade possível.



"Atraso" possibilita fuga da seleção natural

DA REPORTAGEM LOCAL

A equipe que estuda a forma brasileira da síndrome de Li-Fraumeni já tem uma hipótese para explicar por que uma modificação genética tão nociva conseguiu se disseminar tanto. Aparentemente a forma da doença rastreada por eles chega com um atraso de 20 anos, se comparada com outras. Com isso, ela escaparia à vigilância mais estrita da seleção natural, o mecanismo evolutivo que favorece apenas os seres vivos que são bons em se reproduzir.
O que acontece é que a versão da síndrome no Brasil afeta pessoas em torno dos 40 anos, quando o portador já teve tempo de se casar e legar o gene com problemas a seus filhos.
Segundo Achatz, a mutação comum no país não afeta tanto o funcionamento da proteína p53 quanto outras alterações e, dessa forma, consegue se propagar mais. Alguns cientistas, porém, ainda acham que é preciso mais dados para associá-la aos tropeiros do século 18.
"A ideia de um efeito fundador é bastante razoável, mas não tenho conhecimento técnico suficiente sobre a colonização para avaliar se é plausível a explicação dos tropeiros", diz Sandro Bonatto, geneticista da PUC-RS. "Não vejo nenhum interesse histórico no artigo", diz Fabrício Santos, da UFMG. (RJL)

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Frases

Na família dela isso era um tabu. Não se dizia nem o nome da doença
HEITOR (nome fictício) 
marido de portadora

A gente só sabia que as pessoas acabavam morrendo, chorando de dor
EUDÓXIA (nome fictício) 
portadora da síndrome

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"Doença era tabu familiar que quebrei"

DA REPORTAGEM LOCAL

Dona Eudóxia (nome fictício), 67 anos, faz a lista: do ano 2000 até hoje, médicos retiraram dela tumores na veia cava inferior, na tireoide, na mama esquerda, nos dois pulmões, na pele da perna ("uma verruguinha", diz).
Sete pequenos cânceres apareceram em seu couro cabeludo. Perdeu um dos rins. Em geral, apenas cirurgias foram usadas para tratar os tumores recorrentes. Ela é a primeira pessoa da família a tentar entender o pedaço trágico de sua herança genética.
"Na família dela isso era um tabu. Não se dizia nem o nome da doença", diz seu Heitor (nome também fictício), o marido, que, protetor, pega a extensão do telefone para estimular e corrigir o que a mulher diz. "A gente só sabia que as pessoas acabavam morrendo, chorando de dor", afirma dona Eudóxia, cuja irmã morreu de câncer aos 35 anos, logo seguida pela filha, de apenas 12.
Seu Heitor conta que a mulher procurou os pesquisadores do Hospital A.C. Camargo que trabalhavam com a ligação entre genoma humano e câncer. Ajudou-os a traçar as ocorrências da doença na própria árvore genealógica. A história familiar parece bater com a hipótese da médica Maria Isabel Achatz: "Minha avó se casou com um tropeiro", diz dona Eudóxia. Embora more na capital paulista hoje, seus parentes estão todos numa cidade do interior que ficava na rota dos tropeiros antigos.
Relutante em divulgar seu nome ou ser fotografada, ela diz que não quer prejudicar os filhos, hoje executivos. "De repente as pessoas podem ter dificuldade de alugar uma casa ou até de conseguir um emprego se ficam sabendo que elas têm a mutação", diz seu Heitor. (RJL)








#6973 From: Jocax <jocax@...>
Date: Mon Nov 16, 2009 12:42 pm
Subject: Tesao e direitos humanos
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Folha de São Paulo, domingo, 15 de novembro de 2009

+(s)ociedade

Tesão e direitos humanos
Ex-diretor da Capes, filósofo diz que opinião pública ignora a questão
central no caso da aluna da Uniban: a esfera do desejo

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A universitária do microvestido conseguiu um milagre: juntou todo o
mundo, da UNE à direita, na defesa dela e na condenação aos alunos que a
insultaram e, depois, à universidade que quis puni-la. Mas há um viés na
abordagem que me preocupa. O que atraiu a sociedade para o caso foi seu
lado sexual. É o chamariz, tanto que a Folha levou uma atriz [vestida
com minissaia] a quatro universidades do centro de São Paulo para ver se
seus alunos são diferentes dos da periferia.

Mas, lançada a isca, a imprensa não fica à sua altura e vai opinar de
maneira legalista. O sexo é chamariz, mas não é estudado. Já a educação
é uma grande (outra) questão, mas também não é aprofundada. Começando
pelo fim: a educação proporcionada pela Uniban está sendo questionada a
partir desse caso, e não em sua qualidade. Que ela é criticada faz
tempo, sabe-se. Mas está melhorando?

Por coincidência, como diretor que fui da Capes [Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], responsável pela
avaliação da pós-graduação brasileira, vi avanços da Uniban nos seus
mestrados e no único doutorado. Não sei de sua graduação. Seria preciso
avaliar se ela está melhorando ou piorando, em vez de ler generalidades
que não respondem a essa pergunta central.

O outro aspecto é o cerne do caso. Uma vez deflagrada a polêmica, sumiu
de cena o que a causou -o microvestido. Vi o advogado da aluna, de
terno, defendendo seu direito de vestir-se como quiser. Foi uma síntese
perfeita das contradições que o caso traz à luz. Para defender uma moça
que gosta de mostrar o corpo, recorre-se à linguagem formal (e à roupa
idem) da profissão jurídica. Fala-se dela como se fosse perseguida por
ser judia, negra, comunista ou ter uma síndrome.



O sexo perturba

Só que ela não foi ofendida no fluxo dessas discriminações tradicionais,
e sim porque gosta de mostrar o corpo. Por que essa questão central se
perde na vagueza das fórmulas ("cada um é livre para fazer o que
quiser", "para ir e vir" etc.)? Defendo essas liberdades. Mas, quando
entra o sexo, ele as perturba.

No dia 22 de outubro, na Uniban de São Bernardo do Campo (SP), ela e
centenas de jovens foram perturbadíssimos pelo sexo. Não adianta tentar,
agora, abafar o assunto com generalidades legais -belíssimas, sim,
fulcro de nossa civilização, mas pré-freudianas. Ou melhor: adianta.

É por isso que da esquerda à direita há um acordo geral. Um grande
acordo para abafar o pequeno monstro. O monstro começa pelo desejo -que
parece ser mais comum nas mulheres- de ser vista, admirada, desejada. A
moça fez por isso. Não sabia o quanto estava despertando o monstro.
Quando percebeu, deve ter-se assustado. Sorte, pelo menos, que ninguém
foi machucado (ela não foi).

Mas o fato é que vimos o nervo exposto de algo que é mais atávico e
forte que um preconceito contra judeus, negros ou, mesmo, mulheres.
Entraram em cena uma sexualidade provocante e respostas, masculinas e
femininas, a ela. Quer dizer que os rapazes tinham razão em xingá-la?
Qualquer alfabetizado entenderá que não. Não tinham esse direito. Mas,
que foram mexidos, foram. Que ela queria mexer com eles, queria. O que
ela desejava de fato, ela provavelmente não sabe (Freud não saberia).
Talvez, depois de tudo por que passou, não saiba mais. Nem eles, depois
de expostos na mídia, saibam mais o que queriam.



Id e ego

De todo modo, a imprensa não se preocupou em saber como foi, nas cabeças
de centenas de jovens que estavam lá, aquela noite. Alunos da Uniban mal
foram entrevistados. Como as alunas que apareceram na TV discordavam da
manifestação da UNE "em favor delas", a imprensa preferiu não aprofundar
o assunto. Não dá para reduzir esse assunto à pauta dos direitos em
geral ou das discriminações contra a mulher.

Não tem nada a ver com mulher não ser presidente ou CEO de empresa. Até
porque nesse campo, o do desejo que o homem sente só por ver uma mulher
bonita, ela tem um poder que ele não tem. Faz bem a universidade, em que
o abscesso se rompeu, em discutir esse assunto à luz da cidadania? É
essencial. Mas gostaria que não ficasse no genérico dos direitos humanos
(que eu defendo, nem preciso repetir). Espero que saiba devolver à cena
a questão importante que irrompeu naquela noite terrível: a questão do
sexo em face da liberdade, da cidadania e tudo o mais. A questão do id
em sua negociação com o ego. É uma grande questão, pouco tratada.

Mas não acredito muito. Falar na generalidade dos direitos humanos não
afetará o âmago das pessoas, portanto é mais fácil. Não obrigará a
discutir como lidar de maneira racional (a grande conquista da
civilização, que inclui os direitos humanos) com o que é mais irracional
em nós, sobretudo os mais jovens -um desejo desabrido a desafiar
valores, interditos, tudo. Os rapazes podiam ser preconceituosos. Mas
pareciam estar tarados por ela. A tara poderia vencer -ou reiterar- o
preconceito. Como mudar o final do jogo, seu resultado? Eis a questão.

Como o tesão se relaciona com os direitos humanos? Dá para repetir o
mantra de que uma mulher poderosa, desejável, ciente do que desperta nos
homens, é ao mesmo tempo um sujeito racional capaz de deliberar em sã
consciência se quer ou não um deles?

Dá para acreditar que um homem, assim excitado, facilmente aceite a
decisão da mulher de negar-se a ele? O estupro é inadmissível, mas dizer
que esses controles são fáceis é iludir a sociedade. [O sociólogo
alemão] Norbert Elias entendeu bem a questão. Ele disse, décadas atrás:
ao contrário do que se imagina, quando se exibe mais o corpo, sobretudo
o feminino, exige-se mais -e não menos- autocontrole. Porque se requer
do espectador que não ataque aquele corpo desejado.

Essa exigência é necessária? É. Mas é fácil? Não. Veja-se um baile funk.
Vejam-se as publicidades na TV.



Um direito e um problema

Essa história tem sido lida como uma parábola do moderno e do
reacionário. Moderno é a moça fazer o que quer com o corpo, inclusive
mostrá-lo. Reacionário é ser contra isso.

Mas a atualidade intensa do conflito é que ele não tem essa
temporalidade moderna, que é dos demais direitos humanos. Pois, por um
lado, mexe com a libido, que tem fortíssima base natural e uma
temporalidade muito mais lenta.

Por outro lado, a mulher se exibir o quanto queira é conquista recente.
O homem não saber lidar com isso também é um dado acentuado
recentemente. Há um elemento natural, há um confronto hipermoderno. A
reação "conservadora" também é hipermoderna. O que não dá é para dizer
que a moça se exibir não é problema, é direito. É direito, sim, mas só
interessa a ela porque é problema. Alguém acha que [a apresentadora]
Sabrina Sato imitaria a aluna se os homens não babassem por ela (Sabrina
ou Geisy, não importa)?

É esse efeito que se quer produzir. É ele que, produzido, incomoda muita
gente. E é esse incômodo -a consciência, o reconhecimento de que há um
incômodo, um problema quase sem solução, o que Kant chamaria de uma
antinomia- que incomoda muito mais.

O que devemos é enfrentar o incômodo, reconhecer sua originalidade.
Desse ponto de vista, temos uma oportunidade ímpar, justamente porque
difícil, de reflexão e de proposição.

RENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de ética e filosofia política
na USP.

#6972 From: Jocax <jocax@...>
Date: Fri Nov 13, 2009 12:06 pm
Subject: Gene "ensinou" fala a cerebro
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JC e-mail 3888, de 12 de Novembro de 2009.

*25. Gene "ensinou" fala a cérebro, diz estudo*


Experimento americano mostrou pela 1ª vez como a versão humana desse
gene altera a maneira como os neurônios funcionam

Reinaldo José Lopes escreve para a "Folha de SP":



Modificações sutis num único gene podem estar por trás da grande
reorganização do cérebro que deu aos ancestrais das pessoas de hoje a
capacidade de falar. A conclusão vem de experimentos feitos nos EUA,
indicando que o trecho de DNA conhecido como FOXP2 realmente mereceu
ganhar o apelido de "gene da linguagem".



Não é que, sozinho, o FOXP2 tenha "ensinado" hominídeos antes mudos a
tagarelar, mas a versão tipicamente humana dele ajudou a alterar toda
uma rede de genes importantes para o funcionamento dos neurônios, diz
Daniel Geschwind, pesquisador da Universidade da Califórnia em Los
Angeles que coordenou o estudo.



"Podemos pensar no FOXP2 como uma janela para a linguagem, e para as
vias moleculares que estão por trás dela. É claramente uma janela
importante, mas não a única", afirmou Geschwind à Folha.



Em estudo na edição desta semana da revista científica "Nature", o
pesquisador e seus colegas foram os primeiros a comparar os efeitos da
versão humana e da forma considerada "ancestral" do gene (presente em
chimpanzés) sobre células cultivadas em laboratório.



As suspeitas originais sobre a importância do FOXP2 para a evolução
derivam de dois fatos. Primeiro, pessoas com mutações nesse gene, embora
tenham inteligência normal, sofrem com dificuldades de fala: não
conseguem controlar direito os músculos da garganta ligados à pronúncia
precisa de palavras e, de quebra, também têm problemas para entender
como a gramática funciona.



Em segundo lugar, há só duas diferenças pequenas entre a forma humana e
a de chimpanzés da proteína cuja "receita" está contida no FOXP2. Há
indícios de que a versão humana passou por uma fase de evolução
acelerada, que casa com a ideia da origem relativamente recente, e de
grande impacto evolutivo, da linguagem.



Elucidar o que o FOXP2 faz daria mais pistas para entender por que
humanos e chimpanzés são tão diferentes em comportamento e capacidade
mental, apesar de compartilharem cerca de 99% do DNA. Ao que tudo
indica, diferenças pequenas conduzem a grandes mudanças.



Tubo de ensaio



O que os pesquisadores fizeram foi acompanhar o que acontecia com dois
grupos diferentes de neurônios de laboratório. Um dos grupos recebeu a
versão humana do FOXP2, enquanto noutro foi inserida a forma do gene em
chimpanzés.



Como a proteína derivada do FOXP2 é uma espécie de gerenciador do DNA,
ajudando a coordenar ativação ou desligamento de outros genes, nada mais
natural do que comparar o que acontecia com outros genes nos dois grupos
de células.



"Eles mostraram que as vias de ativação de genes são bem diferentes
entre humanos e chimpanzés, mostrando que as alterações na estrutura da
versão humana têm consequências dramáticas para a atividade celular",
explica o biólogo brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da
Califórnia em San Diego, que comentou a pesquisa a pedido da Folha.



Para ser mais exato, a versão humana intensificou a ativação de 61 genes
e diminuiu a de outros 56. Muitos deles, mostra a análise, têm ligação
direta com o desenvolvimento do cérebro ou com a formação dos ossos e
das cartilagens do crânio.



É como se o FOXP2, portanto, estivesse ligado tanto ao "software" da
fala (as áreas do cérebro que permitem a emissão e compreensão de
linguagem) quando ao "hardware" -o formato correto da anatomia humana
que conduz à capacidade de falar. "De qualquer forma, é surpreendente
que eles detectem diferenças mesmo em células", diz Muotri.



"Esse tipo de trabalho, espero, é só o começo do esforço para entender o
surgimento das funções cognitivas superiores, como a linguagem, em
humanos", afirma Geschwind.

(Folha de SP, 12/11)

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