O Futuro da Vida
Folha de São Paulo, 17 de Fevereiro de 2002.
Edward Wilson, profeta da sociobiologia, da biofilia e da biodiversidade, explica em entrevista por que seu novo livro é otimista sobre a perspectiva da biosfera.
John Glassie da "Salon"
Edward O. Wilson é um dos mais conhecidos cientistas norte-americanos e autor de dois livros ganhadores do prêmio Pulitzer, "On Human Nature" (Sobre a Natureza Humana) e "The Ants" (As Formigas), além de trabalhos inovadores como "Consilience". Professor de biologia em Harvard entre 1955 e 1997, já recebeu vários prêmios importantes de ciência e conservação.
Seu trabalho com a sociobiologia forma o fundamento dos estudos atuais da psicologia evolucionista. Suas pesquisas sobre sociedades de insetos forneceram subsídios para o trabalho dos teóricos da complexidade. Em seu livro mais recente, "The Future of Life" (O Futuro da Vida—leia trecho e resenha nas próximas págs.), Wilson focaliza o estado do ambiente natural, analisando a ameaça à biosfera e oferecendo um conjunto de recomendações para a proteção da vida sobre a Terra.
Como será a vida daqui a cem anos?
Se as tendências atuais se mantiverem, o resultado será o empobrecimento irreversível das espécies. No ritmo em que estamos indo hoje, perderemos metade das espécies animais e vegetais da Terra até o final do século.
Mesmo assim, ainda teremos milhões de espécies, certo?
Mas a perda é para sempre, e essas espécies têm centenas de milhares de anos devida, em muitos casos milhões de anos, e estão perfeitamente adaptadas a seu ambiente. Cada espécie é uma obra-prima da evolução, algo que a humanidade jamais conseguiria reproduzir, nem mesmo se, com a ajuda da engenharia genética, conseguíssemos de alguma maneira criar organismos novos. A perda maciça de espécies prejudicaria a estabilidade do ambiente mundial.
Além disso, vamos perder bibliotecas vivas de informação genética, que poderiam ser de enorme utilidade para a humanidade no futuro. Para concluir, há o argumento moral, segundo o qual existe algo de muito errado em destruir a Criação.
Qual seria o impacto sobre os seres humanos?
As estimativas mais conservadoras prevêem que a população humana chegue ao pico de 8 bilhões ou 10 bilhões de pessoas até o final do século, e isso será praticamente o limite máximo que o planeta poderá suportar, a não ser que surja alguma maneira radicalmente nova de produzir alimentos ou gerar energia. As pressões sobre os recursos remanescentes- recifes de corais, florestas tropicais e tundra ártica - podem tornar-se totalmente devastadoras.
E o impacto econômico?
Vamos considerar que, de acordo com um estudo baseado em dados referentes a 1997, o mundo natural e todos aqueles milhões de espécies contribuam com estimados US$ 30 trilhões anuais em serviços totalmente gratuitos. É aproximadamente comparável ao PIB de todos os países do mundo juntos. E os especialistas acreditam que precisaríamos de mais quatro planetas Terra para sustentar toda a população do mundo nos níveis de consumo vigentes nos EUA. Precisamos melhorar a qualidade da vida, mas não com os modos de produção ineficientes e perdulários que hoje dominam o mundo desenvolvido.
Digamos que o Sr. fosse o presidente dos EUA. Qual séria sua pauta de prioridades ambientais?
Uma nova forma de geração de energia sustentável, novos meios de transporte, a conservação dos recursos naturais e a melhora geral da qualidade da vida norte-americana, com uma simultânea redução no consumo per capita de energia e materiais. O presidente ou a presidente que exercesse esse tipo de liderança asseguraria seu legado por todos os tempos.
Mas não parece provável que algum presidente o faça, muito menos um presidente republicano.
Na primavera passada, fui convidado a dar uma conferência numa das mais importantes instituições que reúnem pensadores conservadores. Formulei duas perguntas: qual é o fundamento do conservadorismo, se ele não abrange a conservação? E por que os conservadores abandonaram, de maneira desnecessária e destrutiva, aposição moralmente mais louvável no tocante a esta questão?
Tivemos um debate animado. Basicamente, eles disseram que os progressistas são todos a favor do céu azul, são grandes faladores e sonhadores, enquanto os conservadores são pessoas práticas, voltadas à resolução de problemas, que mantêm as rodas girando e o mundo seguindo seu curso correto. Mas este problema eles não estão resolvendo. Com frequência, eles nem sequer admitem que exista.
Imagino que não tema ser visto como um dos tais malucos progressistas, comedores de granola.
Não tenho medo nenhum de ataques nesse sentido. Meus escritos sobre sociobiologia, nos anos 1970, indicavam que o comportamento humano instintivo normal de fato possui um viés biológico, que, por sua vez, se originou da seleção natural, ao longo de períodos muito longos de tempo. Na época, a esquerda acadêmica incluía muitos cientistas sociais que baseavam seus programas e seu raciocínio sociais na premissa de que os humanos são uma tábua rasa. Assim, eu me tomei um dos alvos preferidos da esquerda. Hoje, por promover a conservação com tanta ênfase quanto eu faço, às vezes sou alvo da direita. Vejo isso como uma realização considerável para um acadêmico. Espero que, algum dia, me dêem crédito por isso.
Mas os princípios da sociobiologia —a idéia de que os comportamentos pessoais e sociais são movidos pelas forças da evolução-não devem ser muito bem aceitos pelos criacionistas, por exemplo.
É verdade. É muito curioso o fato de que eu nunca tenha sido criticado pela direita nessa questão. A única razão que pude imaginar é que os principais pensadores da direita religiosa, incluindo os antievolucionistas, que seriam os mais atingidos, simplesmente não tinham conhecimento da sociobiologia. Ela era teórica demais, complexa demais. Mesmo hoje, os criacionistas dirigem seus ataques principalmente contra as evidências fósseis de que a humanidade se desenvolveu a partir de formas semelhantes ao macaco. Eles não mergulham nas minúcias da neurociência ou do comportamento.
Falando em neurociência, o Sr. acredita que a própria consciência também seja uma adaptação evolutiva?
Sim. Para prová-lo, será preciso dispor de muito mais informações sobre, por exemplo, os neurocircuitos, a natureza da memória e os insumos emocionais do raciocínio. Uma vez que tivermos compreendido tudo isso, acredito que ficará claro que a. Consciência é uma adaptação darwiniana.
Quais são as implicações disso para o conceito de alma? Isso significa que o Sr. não acredita na existência dela?
Sim —não acredito nela no sentido religioso. Acho que a noção cartesiana de dualismo entre corpo e alma está morta para sempre. Sinto muito, mas é assim. E isso é mais uma razão para nos lançarmos uma reflexão profunda sobre os valores humanos e para onde queremos que a espécie caminhe.
Bem, é inegável que o fato de utilizar os recursos da Terra levou a espécie humana a crescer e prosperar. A pilhagem desses recursos seria, também, um exemplo irônico do darwinismo, da sobrevivência dos mais aptos?
Infelizmente, sim. Sempre foi vantajoso para as pessoas, vantajoso num sentido darwiniano, converter terras para o uso na agricultura e na pecuária. Sempre foi vantajoso no curto prazo. Mas, a longo prazo, pode ser desastroso para a espécie. O bom dos humanos é que somos capazes de antever o futuro o suficiente para evitarmos tragédias, quando se trata de tragédias decorrentes de nossas ações.
O que dizer sobre a evolução como solução de problemas ambientais? Não poderíamos evoluir biologicamente para nos adaptarmos a uma biosfera deteriorada?
Eu já vi pessoas dizerem isso sem nenhuma ironia evidente. Mas a idéia de que deveríamos simplesmente seguir adiante, de maneira impensada—nos reproduzindo demais, destruindo o ambiente natural em que nossa espécie evoluiu e depois tentando mudar nossos genes, enquanto tudo vai acabando - é um pesadelo que nenhuma pessoa em sã consciência quereria cogitar seriamente.
Os humanos ainda estão evoluindo?
Não, pelo menos não em qualquer sentido direcional. Mas, em outro sentido, estamos nos modificando rapidamente. Estamos nos transformando num "pool" genético mais homogêneo, uma tendência que, dentro demais alguns séculos, pode resultar numa população humana bastante homogênea. Os genes que compõem as diferenças raciais tradicionais serão mais e mais compartilhados.
Recentemente Stephen Hawking disse que a raça humana não vai sobreviver até o final deste milênio a não ser que comecemos a colonizar o espaço. O Sr. concorda?
Admiro Stephen Hawking, mas acho que ele está totalmente enganado. Todas as evidências indicam que podemos, sim, fazer da Terra nosso lar permanente e seguro. Foi aqui que nossa espécie evoluiu. Foi para isso que nossa biologia se adaptou, até os mais mínimos detalhes - nossa fisiologia, o desenvolvimento de nossa mente.
Que tal colonizar o espaço para aliviar um pouco a Terra?
A grande maioria dos físicos e biólogos que vêm pensando sobre isso concorda que colonizar o espaço seria uma das maneiras mais destrutivamente caras possíveis de tentar aliviar a superpopulação humana. Não está no destino da humanidade pilotar veículos de fuga para escapar de uma Terra moribunda. Somos a primeira espécie a realmente possuir a habilidade de controlar o planeta, como força biofísica. Também somos a primeira espécie a enxergar longe no futuro e planejar nosso impacto sobre o planeta. Além disso, somos a primeira espécie a ter uma evolução baseada na vontade. Podemos nos transformar geneticamente no que quisermos.
Poderíamos usar a bioengenharia para alterar a fisiologia humana e poder viver num ambiente deteriorado?
Isso levanta a questão de sermos estúpidos a ponto de continuar a permitir que o ambiente se deteriore, sem nos preocuparmos com a questão, porque talvez pudéssemos nos modificar de modo a suportar um mundo mais quente, com mais poluentes atmosféricos e uma dieta diferente. Mas isso seria uma opção distanciada daquilo que enxergamos como a condição humana natural.
Se fizermos tudo o que estiver a nosso alcance para man2 ter a vida na Terra, quanto tempo ainda teremos, como espécie?
Acho que até o Sol morrer.
O que acontecerá se continuarmos no mesmo caminho?
É possível que Stephen Hawking acabe tendo razão.
E, nesse caso, quanto tempo teríamos?
É extremamente improvável que o Homo sapiens se extinga, mas até o final do século teremos perdido a maior parte do ambiente natural. Entretanto, não prevejo que isso vá acontecer. Vamos aprender a viver de maneira sustentável neste planeta.
O Sr. ganhou um prêmio Pulitzer por um livro intitulado "Sobre a Natureza Humana". Acredita mesmo nisso?
Sim. Acho que as pessoas possuem inteligência suficiente para agir no interesse global.
Tradução de Clara Allain
Obra de Wilson prega redenção da biosfera, mas peca por ressuscitar argumentos da sociobiologia.
Histórias naturais e morais
Marcelo Leite
- Editor de Ciência
Folha de São Paulo, 17 de Fevereiro de 2002.
O novo livro de Edward Osborne Wilson é uma obra curiosa. Lida na superfície do que pretende manifestamente veicular, é pura boa intenção e transparência de objetivo: alertar os homens razoáveis do mundo, mesmo após o eclipse civilizatório de 11 de setembro, para a racionalidade irrecorrível da preservação do ambiente e da biodiversidade.
Sob esse ângulo, é uma espécie de reedição de "A Diversidade da Vida", também já lançado no Brasil. Para quem não dispensa as curiosidades típicas de um livro de história natural, como as desse volume anterior de Wilson, o novo livro traz vários casos trágicos, como a extinção do rinoceronte peludo de Sumatra, ou a de 160 mil moas Nova Zelândia, um pássaro terrestre gigantesco. Ou, ainda, a dizimação de outra enormidade ornitológica chamada Aepyornis, com três metros de altura e meia tonelada de peso, que punha ovos do tamanho de bolas de futebol em Madagascar até 2.000 anos atrás, quando o "assassino planetário" (título do capítulo 4, talvez o melhor do volume) aportou na ilha e iniciou o trabalho metódico de extinção da megafauna que já havia esvaziado Oceania e América do Norte, por exemplo.
É nessas passagens, em que Wilson enverga com nobreza e indignação a camisa enlutada de protetor da taxonomia, que o livro fulgura, como no seguinte vaticínio antiépico: "A triste arqueologia das espécies extintas nos ensinou as seguintes lições: O selvagem nobre jamais existiu; O Éden foi um matadouro; Paraíso ocupado é paraíso perdido". Pode-se discordar doutrinariamente dessa visão conservacionista que parece excluir o homem (e, justiça seja feita, Wilson claramente dela se afasta em outras passagens), mas não há como negar que a exortação vai direto ao ponto da responsabilidade humana.
Ocorre que "O Futuro da Vida" contém mais do que meras metáforas de fundo religioso. Apesar de todo o realismo e toda a racionalidade que o Wilson homem de ciência destila, o moralista disfarçado de sociobiólogo não pode ser reprimido e aflora em vários trechos, sobretudo no capítulo 6 ("Por amor à vida"), em que o biólogo de Harvard apresenta uma versão resumida da interessante - e altamente especulativa - teoria da biofilia. É o raciocínio da sociobiologia dos anos 70 em estado puro: os homens teriam uma espécie de apreço instintivo, uma compaixão inata pelos animais, provavelmente inscrita nos próprios genes, pois a preservação do ambiente aumentaria as chances de sua sobrevivência como grupo.
A ciência, no pensamento desse conservador assumido e paradoxal, não nega a religiosidade - antes explica a sua emergência como compulsão genética para comungar com a biosfera, uma realidade superior à da espécie e do individuo. "Outro valor moral extremamente importante é a responsabilidade pelas outras formas de vida, que parece surgir de emoções programadas nos próprios genes do comportamento social humano", escreve Wilson. Mais adiante: "Um sentido de unidade genética, de parentesco, de vida em comum, nos une às outras espécies que habitam a Terra. Elas são mecanismos de sobrevivência para nós e nossa espécie. Conservar a diversidade biológica é investir na imortalidade".
Interferência sociobiológica
Se a via natural, automática e irrecorrível da predeterminação genética para o comportamento moral não funcionar, como o próprio Wilson parece intuir como possibilidade real (de outro modo, não escreveria seu evangelho pro-Criação), resta sempre o recurso de uma presciente intervenção da ciência biológica na ordem social: "Dentro de algumas décadas, acreditam muitos neurocientistas, conheceremos as bases biológicas da mente e do comportamento. Isto, por sua vez, levará a grandes progressos nas ciências sociais e a uma melhor capacidade de prever e evitar desastres políticos e econômicos", escreve Wilson, como quem não quer nada, no capítulo final ("A solução").
A pregação preservacionista do papa da biodiversidade, totalmente defensável de um ângulo racional, ganharia muito em força se renunciasse a incluir no pacote -ainda que entre as dobras do papel de embrulho - especulações marginais sobre a natureza humana. Mas essa é uma leitura algo paranóica e nada generosa de "O Futuro da Vida", que permanecerá como um libelo necessário e corajoso a favor da biosfera.
Edward O. Wilson
Imagine como será o mundo daqui a cem anos se as tendências atuais continuarem:
Em 2100, ainda existem belezas naturais em muitas partes do mundo. As pessoas ainda apreciam picos nevados, promontórios batidos pelas ondas e corredeiras nas montanhas. O que dizer, porém, dos seres vivos? A imensa população humana, estabilizada finalmente em 9 a 10 bilhões de pessoas, ocupa toda a superfície habitável do planeta, que foi transformada em um mosaico de plantações, estradas e cidades. Graças aos grandes programas de dessalinização da água do mar, recentemente implantados, e a novos métodos de irrigação, as regiões áridas estão cobertas de verde. A produção de alimentos por hectare é muito maior do que no ano 2000. Mais de 50 mil espécies de plantas comestíveis estão sendo cultivadas, enquanto a engenharia genética foi usada para aumentar consideravelmente a produtividade das espécies tradicionais.
Uma civilização técnico-científica surgiu a partir do caldeirão de conflitos étnicos e sociais, que, no entanto, continua a borbulhar. Os indivíduos do ano 2100 são mais bem-alimentados e educados que no ano 2000, mas a grande maioria habita países em desenvolvimento e permanece pobre mesmo pelos padrões dos países industrializados do século anterior. Em um planeta destinado a permanecer com excesso de população pelo menos até meados do século 22, persiste o conflito entre os países ricos e os países pobres. A guerra é rara e o terrorismo diminuiu, mas o mundo é tenso, ainda perturbado pelas contradições angustiantes da natureza humana. A humanidade está envelhecendo rapidamente no ano 2100. A medicina conseguiu eliminar a maioria das doenças, incluindo as causadas por defeitos genéticos. A assistência médica melhorou consideravelmente. A maior expectativa de vida, porém, foi acompanhada por um aumento assustador das despesas médicas. Muitas pessoas já conseguem chegar aos cem anos de idade.
As causas do envelhecimento são conhecidas e os índices de natalidade diminuíram consideravelmente, especialmente nos países mais ricos, nos quais a mão-de-obra é obtida cada vez mais através do recrutamento de jovens nascidos nos países em desenvolvimento. A homogeneização genética da população mundial através da miscigenação, uma tendência que já era visível no ano 2000, está ocorrendo em ritmo acelerado. Existe maior variedade genética nas populações locais, mas menor variedade entre as populações, do que no século anterior. As raças biológicas estão ficando mais indistintas a cada geração.
Nenhuma dessas mudanças teve qualquer efeito sobre a natureza humana. Por mais sofisticadas que sejam nossa ciência e nossa tecnologia, por mais avançada que seja nossa cultura, por mais poderosos que sejam os nossos robôs, o Homo sapiens continua a ser, no ano 2100, praticamente a mesma espécie biológica que nos séculos anteriores.
É aí que está a nossa força e também a nossa fraqueza. É natural para qualquer espécie multiplicar-se e expandir-se sem freios até que o ambiente reaja. A reação consiste em circuitos de retroalimentação - epidemias, fomes, guerras, competição por recursos escassos -, que se tornam mais frequentes, até que a pressão sobre o ambiente seja aliviada. Ao contrário das outras espécies, porém, o Homo sapiens pode contar com um arculto de retroalimentação muito poderoso, capaz de superar todos os outros: a renúncia voluntária. A continuação das tendências do ano 2000, que imaginei neste exercício de futurologia, significa que esse mecanismo falhou.
Em 2100, a natureza está sofrendo terrivelmente. As florestas de fronteira desapareceram - a flora nativa da Amazônia, do Congo e da Nova Guiné foi totalmente destruída - e com elas a maior parte dos refúgios de biodiversidade. Os recifes de corais, rios e outros habitats aquáticos estão seriamente deteriorados. Metade das espécies vegetais e animais da Terra já desapareceu. Apenas alguns fragmentos de ecossistemas nativos persistem como relíquias aqui e ali, guardados por governos e proprietários privados suficientemente ricos para protege-los da maré humana que inundou o planeta.
Como a diversidade genética humana, a biodiversidade fragmentária que sobreviveu até o ano 2100 também se tornou muito mais simples do ponto de vista geográfico. O tráfego cosmopolita de organismos alienígenas misturou de forma irreversível todas as faunas e floras. Viajar pelo planeta mantendo a mesma atitude é encontrar em toda parte o mesmo conjunto de pássaros, mamíferos, insetos e micróbios. Essas espécies favorecidas compõem um pequeno exército de companheiros de viagem que melhor se adaptaram aos nossos sistemas comerciais de transporte e aos habitats simplificados que criamos. Uma população humana mais velha e sábia compreende, tarde demais, que a Terra se tornou um lugar mais pobre do que era no ano 2000, e que não há retorno possível.
Este será provavelmente o mundo de 2100—se as tendências atuais continuarem. A herança mais memorável do século 21 será a Era da Solidão que aguarda a humanidade. O testamento que deixaremos a este mundo poderia ser escrito mais ou menos assim:
"Nós vos deixamos as selvas sintéticas do Havaí e algumas árvores raquíticas onde outrora existiu a prodigiosa floresta amazônica, juntamente com pequenas ilhas de vegetação nativa que não chegamos a destruir totalmente. Vosso desafio será criar novas formas de plantas e animais por engenharia genética e de alguma forma integrá-las em ecossistemas artificiais auto-sustentáveis. Compreendemos que talvez isto se revele impossível. Estamos certos de que, para alguns de vós, a simples idéia de fazer algo semelhante causará repugnância. Desejamo-vos boa sorte. Se conseguirdes sucesso, lamentamos que vossa obra jamais possa ser tão satisfatória quanto a Criação original. Aceitai, nossas desculpas e esta biblioteca audiovisual que mostra quão maravilhoso costumava ser o nosso mundo".