EVOLUÇÃO- Folha de São Paulo, 19 de outubro de 2001
Experimento com moscas-das-frutas mostra que reprodução assexuada
dificulta difusão de boas características
Sexo ajuda a espalhar mutação benéfica
STEVE CONNOR
DO "THE INDEPENDENT"
A angústia feminina para entender a finalidade dos homens pode ter sido
resolvida por uma experiência que mostrou como os machos são vitais para
a evolução.
Há muito tempo biólogos se deparam com o enigma da função dos machos na
natureza e tentam descobrir por que o sexo é tão comum no reino animal,
uma vez que parece desvantajoso para as fêmeas. Se as fêmeas recorressem
à reprodução assexuada, produziriam duas vezes mais descendentes com
genes idênticos aos seus.
Em uma visão matemática simples, o sexo não faz sentido, e a produção de
machos -que normalmente contribuem pouco para criar a prole- parece ter
sido desperdício de recursos valiosos.
Um estudo com moscas-das-frutas (drosófilas) publicado hoje na revista
americana "Science" (www.sciencemag.org) oferece uma explicação para o
papel dos machos: jogar fora mutações maléficas da união genética e
preservar características boas.
William Rice e Adam Chippindale, biólogos da Universidade da Califórnia
em Santa Barbara, descobriram que a difusão de "evoluções progressivas",
em que os traços benéficos se acumulam, foi mais rápida em populações de
moscas que se reproduziam sexuadamente, em comparação com outras
"forçadas" a se reproduzir sem cruzamento.
Segundo Rice, porém, as desvantagens do sexo se aplicam tanto a machos
quanto a fêmeas. "Meu filho só tem metade dos meus genes. A outra metade
é da mãe dele. Apenas metade do meu genoma está sendo incorporada à
população", diz.
"Mas, se fosse uma fêmea assexuada, minha prole herdaria todo o meu
genoma. Eu poria duas vezes mais genes na próxima geração. Com
reprodução assexuada, você consegue o dobro de descendentes e de genes
na população."
A explicação clássica para o sexo é que ele mistura genes entre machos e
fêmeas e cria diversidade genética. Existem poucas evidências, porém,
que sustentem uma teoria tão generalizada.
Agora, Rice mostrou, em 34 experimentos distintos com moscas-das-frutas,
o quanto o sexo pode resultar no aumento de mutações benéficas. Dividiu
as moscas em dois grupos, um com genes misturados e outro sem.
Ele introduziu nas duas populações a mutação responsável por criar olhos
vermelhos, tidos como melhores que os olhos brancos, e monitorou sua
difusão por um período de 18 meses, que envolveu centenas de gerações.
Nos grupos em que a reprodução sexuada foi permitida, o gene dos olhos
vermelhos chegou a um ponto em que quase se "fixou" permanentemente em
100%, substituindo completamente a alternativa para olhos brancos.
Os grupos assexuados, por outro lado, não conseguiram se livrar da
"bagagem evolutiva" da mutação para olho branco.
"Nós sabíamos que havia vantagens na diversidade sexual, mas ainda não
estava claro por quê", disse Rice. "Agora temos evidências de que a taxa
de difusão de evoluções progressivas é mais rápida em populações
sexuadas."