Questionamento é base da inteligência espiritual
Psicólogos, filósofos e teólogos identificam competência do homem para refletir sobre a existência para dar sentido à vida
MÁRCIA DETONI
-
DA REPORTAGEM LOCAL – Folhaequilíbrio, 11 de outubro de 2001
Durante muito tempo, o mundo viveu uma verdadeira obsessão por testes para medir o quociente de inteligência (QI), baseados na compreensão e manipulação de símbolos matemáticos e linguísticos. Nos anos 90, descobriu-se, no entanto, que QI elevado não era sinônimo de sucesso. Para se dar bem na vida, era preciso ter também inteligência emocional (QE), ou seja, ter autoconhecimento, autodisciplina, persistência e empatia. Agora, o que psicólogos, filósofos e teólogos estão dizendo é que QI e QE podem trazer crescimento profissional e financeiro, mas, para ter paz interior e alegria, o ser humano precisa ter também inteligência espiritual. Precisa ter capacidade de encontrar um propósito para a própria vida e de lidar com os problemas existenciais que surgem em momentos de fracasso, de rompimentos e de dor.
"Do contrário, por que tantas pessoas inteligentes e sensíveis às necessidades dos outros sentem um vazio em suas vidas?", pergunta a psicóloga e filósofa americana Danah Zohar, autora do livro "Inteligência Espiritual", lançado no ano passado em vários países, inclusive no Brasil.
Formada na Universidade de Harvard e no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Zohar descobriu a importância da inteligência espiritual durante seu trabalho como professora da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e como consultora de liderança estratégica para grandes empresas como Shell, Philip Morris e Volvo. "Eu estava falando com um grupo de de executivos bem-sucedidos, e um deles, com cerca de 30 anos, disse que tinha um alto salário, uma família legal, mas sentia um buraco no estômago. E todos os outros fizeram um gesto com a cabeça, concordando com ele", contou Zohar.
O consultor de relações humanas e comunicação João Alberto Ianhez, que desde 1999 já deu cursos sobre inteligência espiritual para funcionários de cerca de 20 empresas brasileiras, diz que o materialismo e o egocentrismo do mundo moderno provocaram uma grande crise existencial. As pessoas passaram a buscar a felicidade em bens materiais e não conseguem mais encontrar um sentido para suas vidas. "Elas estão caminhando em busca do nada", comenta.
É em situações como essa que a inteligência espiritual, segundo os especialistas, tem um papel importante. "Ela nos permite encontrar um senso de propósito e direção", garante o rabino Nilton Bonder, que acaba de lançar o livro "Fronteiras da Inteligência, a Sabedoria da Espiritualidade". O rabino ressalta, no entanto, que inteligência espiritual não tem nada a ver com religiosidade. Muitas pessoas religiosas, segundo ele, têm uma sabedoria espiritual baixíssima porque buscam na religião apenas certezas e "salvação"; não percebem a importância da dúvida e do questionamento. Bonder diz que a religião é apenas uma das linguagens que podem ser usadas para o desenvolvimento da espiritualidade. Em seu livro, o rabino usa textos de várias religiões ocidentais e orientais para ajudar a despertar a reflexão ou, como diz ele, para ajudar a fazer "cair a ficha".
A inteligência espiritual, também chamada de QS (do inglês "spiritual quocient"), é a inteligência que leva o ser humano, segundo Zohar, a criar situações novas, a perceber, por exemplo, a necessidade de mudar de rumo, de investir mais num projeto ou de dedicar mais tempo à família. Enquanto o QI resolve primordialmente problemas de lógica e o QE nos ajuda a avaliar as situações e a reagir a elas de forma adequada, levando em conta os próprios sentimentos e os dos outros, o QS nos leva a indagar, de início, se queremos estar nessa situação, se o nosso trabalho, por exemplo, está nos dando a satisfação de que necessitamos ou se essa é a vida que queremos levar.
"Nós usamos a inteligência espiritual quando nos sentimos num impasse, quando enfrentamos as armadilhas de velhos hábitos ou quando temos problemas com doenças ou sofrimentos. O QS nos mostra que temos problemas existenciais e nos aponta os meios de resolvê-los", explica Zohar.
Provas científicas Embora a expressão inteli- gência espiritual só tenha surgido na virada do século, a necessidade humana de encontrar um sentido mais amplo para a vida acompanha o homem desde o seu surgimento, afirma Zohar. A novidade, agora, é que alguns cientistas americanos estão começando a encontrar evidências de que o cérebro humano foi programado biologicamente para fazer perguntas como: "Quem sou?", "Por que nasci?", "O que torna a vida digna de ser vivida?".
No início dos anos 90, o neuropsicólogo americano Michael Persinger e, mais recentemente, em 1997, o neurologista Vilayanu Ramachandran, da Universidade da Califórnia, identificaram no cérebro humano um ponto chamado de "ponto Deus" ou "módulo Deus", que aciona a necessidade humana de buscar um sentido para a vida.
Esse centro espiritual localiza-se entre conexões neurais nos lobos temporais do cérebro. Escaneamentos realizados com topografia de emissão de pósitrons (antipartícula do elétron) mostraram que essas áreas se iluminam toda vez que os pacientes discutem temas espirituais ou religiosos.
Essa atividade do lobo temporal tem sido ligada há anos às visões místicas de epilépticos e de usuários do alucinógeno LSD. Mas a pesquisa de Ramachandran mostrou, pela primeira vez, que o centro espiritual também está ativo nas demais pessoas. "O "ponto Deus" mostra que o cérebro evoluiu para fazer perguntas existenciais, para buscar sentidos e valores mais amplos", diz Zohar.
O médico terapeuta José Ângelo Gaiarça não integra o grupo de estudiosos da inteligência espiritual, mas reconhece a importância de o ser humano ter um propósito maior na vida. "Isso não é novidade, é uma idéia muito antiga", comenta.
Gaiarça acha, no entanto, que o questionamento existencial por si só não basta para acabar com o vazio da vida moderna. O importante, segundo ele, é as pessoas começarem a perceber que não estão sozinhas no mundo, que fazem parte de um todo e que estão ligadas a tudo que as cerca. Ter espírito de cooperação é, na opinião dele, a forma mais elevada de inteligência espiritual.
Cidadãos modernos não questionam a vida, diz estudiosa
A psicóloga e filósofa americana Danah Zohar, 57, autora de "Inteligência Espiritual", diz que a falta de um sentido mais profundo na vida é a crise básica do mundo contemporâneo. Zohar, que ensina na Universidade de Oxford, no Reino Unido, não vê nenhuma boa resposta, no momento, para essa crise existencial, mas acha que as pessoas estarão mais perto da solução se começarem a se questionar. Leia a entrevista de Zohar à Folha.
Folha - O que a levou a pesquisar a inteligência espiritual?
Danah Zohar - Foi a minha vida. Fui criada numa família bastante religiosa, mas perdi a fé no cristianismo quando eu tinha 11 anos e passei o resto da vida buscando respostas para essa perda, pois não acredito em nenhuma religião. Religiões são sobre crenças, coisas que nos são passadas de fora. E eu estava procurando algo mais profundo em nós, procurando valores espirituais porque precisamos de um senso de propósito na vida.
Folha - E você o encontrou?
Zohar - Eu tendo a pensar que o importante é fazer as perguntas certas. Não acho que haja nenhuma boa resposta no momento. Mas, se fizermos grandes perguntas, estaremos mais perto da nossa natureza espiritual. Uma das coisas que nos esquecemos de fazer hoje em dia são boas perguntas. Poucos encontram tempo para perguntar qual é o propósito de sua vida, qual é o seu grande projeto, qual é o sentido do que está fazendo. As próprias perguntas já são um tipo de resposta.
Folha - Isso não seria uma retomada das grandes questões filosóficas?
Zohar - É o tipo de coisa que costumava ser filosofia até a filosofia perder o seu caminho, como tudo no século 20. Filosofia virou uma discussão sobre o significado das palavras e outras coisas bobas. Mas os grandes filósofos do passado faziam esse tipo de pergunta. Sim, eu acho que nós precisamos ficar mais filosóficos, indagar mais.
Folha - O que a inteligência espiritual acrescenta?
Zohar - Ser espiritualmente inteligente nos ajuda a entrar em contato com o verdadeiro propósito de nossa vida. Se uma pessoa, empresa ou nação entrar em contato com seu propósito mais profundo, encontrará fonte de energia e inspiração.
Folha - Ter inteligência espiritual ajuda as pessoas a lidar melhor com adversidades ou com tragédias como os atentados ocorridos nos EUA?
Zohar - Eu acho que essa tragédia, por mais terrível que seja, pode ser algo bom para os EUA, porque está fazendo os americanos pararem e se perguntarem pelo que estão dispostos a lutar, que tipo de país eles querem ter, em vez de verem os EUA apenas como um país conveniente para se viver porque eles ganham um monte de dólares, vivem em casas grandes e têm três carros. Os americanos deixaram há muitos anos de pensar nos valores centrais dos EUA.
Folha - Por que isso aconteceu?
Zohar - Fomos simplesmente distraídos pelo barulho e pelo materialismo da vida diária. Isso se deve também à falta de grandes líderes, porque líderes são pessoas que nos inspiram para uma qualidade de vida melhor, para os valores mais profundos. A vida ficou muito fácil e confortável, e paramos de fazer perguntas existenciais.
Folha - Com o mercado editorial saturado de dicas sobre como viver melhor, não há o risco de suas idéias sobre inteligência espiritual não serem levadas a sério?
Zohar - As pessoas que dizem que isso não é sério estão seriamente equivocadas. Se não sabemos quais são os nossos maiores propósitos, os nossos valores, como podemos agir criativamente? Só zanzamos ao redor como abelhas. Isso é o que está acontecendo na nossa sociedade. As pessoas só fazem barulho e zanzam sem objetivo.
Saiba como desenvolver a inteligência espiritual
Para aprimorar a inteligência espiritual, o fundamental, segundo os especialistas, é se questionar, fazer perguntas a si mesmo. Alguns exemplos: de que gosto em mim? De que não gosto? Quais os meus limites? Por que certas coisas me incomodam? Qual o meu propósito de vida? Estou sendo verdadeiro com esse propósito ou o estou traindo? Indagar a si mesmo leva ao autoconhecimento e permite a escolha de caminhos mais acertados.
A psicóloga e filósofa americana Danah Zohar cita algumas práticas que favorecem a comunicação das pessoas consigo mesmas. Exemplos: a meditação ou a leitura de poemas e trechos de livros que nos emocionaram para descobrir os motivos disso.
Outra forma eficaz de obter o autoconhecimento, segundo Zohar, é fazer um diário dos acontecimentos do dia e refletir sobre eles: quais as coisas que mais me afetaram? De que mais gostei? De que me arrependo? De que outro modo eu poderia ter me sentido ou me comportado e que efeito isso teria produzido?
O conceito de inteligência espiritual também vai contra atitudes comodistas. Para desenvolvê-la, é preciso, segundo os especialistas, assumir a responsabilidade pela própria vida e tentar transcender a dor e os obstáculos.
Em vez de culpar a empresa por um trabalho sem sentido, por exemplo, pode-se tentar melhorar o trabalho ou procurar outro emprego.
"Podemos considerar a dor, o sofrimento ou as dificuldades como ameaçadoras ou incapacitantes, mas também como desafios e mesmo como oportunidades", afirma Zohar.
Alguns sinais de inteligência espiritual elevada
* Capacidade de ser flexível
* Grau elevado de autoconhecimento
* Capacidade de enfrentar a dor
* Capacidade de aprender com o sofrimento
* Capacidade de se inspirar em idéias e valores
* Relutância em causar danos aos outros
* Tendência para ver conexões entre realidades distintas
* Tendência a se questionar sobre suas ações e seus desejos, com perguntas como "por que agir de tal maneira?" ou "o que aconteceria se agisse de outra maneira?"
* Capacidade de seguir as próprias idéias e ir contra as convenções
QS é base para outras inteligências
A expressão QI (quociente de inteligência) entrou no vocabulário mundial no início do século 20, quando o psicólogo francês Alfred Binet (1859-1911) desenvolveu, em 1905, o primeiro teste para medir a capacidade intelectual. O teste, aplicado em escolas de Paris, visava apenas identificar crianças com necessidades especiais de aprendizado. Mas acabou servindo de base em novos testes para medir as competências lógico-matemática e linguística.
Durante muito tempo, só era inteligente quem entendia de matemática. Mas essa percepção começou a mudar nos anos 80, a partir da teoria das inteligências múltiplas do psicólogo e pesquisador americano Howard Gardner, da Universidade de Harvard. Ao acompanhar o desempenho profissional de pessoas que haviam ido mal na escola, Gardner surpreendeu-se com o sucesso de várias delas. O pesquisador verificou que havia outras capacidades importantes na vida de uma pessoa além das competências lógico-matemática e linguística. Gardner passou, então, a definir inteligência como a "capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos valorizados em um ambiente cultural e comunitário".
O pesquisador identificou sete tipos de inteligência: lógico-matemática, linguística, musical, interpessoal, intrapessoal, pictórica-espacial e cinético-corporal (leia quadro ao lado). Mas deixou claro que esse número não era definitivo.
Em 1995, o psicólogo americano Daniel Goleman, autor do best-seller "Inteligência Emocional", popularizou pesquisas realizadas por numerosos neurocientistas e psicólogos mostrando que capacidades como autoconhecimento, autodisciplina, persistência e empatia têm repercussão muito maior na vida de uma pessoa do que o QI.
Desenvolver a inteligência emocional (QE) virou febre no final dos anos 90, principalmente no mundo empresarial. Mas, no ano passado, a psicóloga e filósofa americana Danah Zohar e o co-autor Ian Marshall lançaram o livro "Inteligência Espiritual", afirmando que havia um outro tipo de inteligência ainda mais importante que o QI e o QE: a inteligência com que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS (quociente espiritual), segundo eles, é a base necessária para o funcionamento eficaz das demais inteligências.