Folha de São Paulo, domingo, 30 de setembro de 2001
Periscópio
Número de espécies vivas
José Reis
especial para a Folha
Se perguntarmos a alguém quantas espécies vivas existem no
mundo, ele provavelmente responderá: "Não sei". Obteremos
talvez a mesma resposta do mais douto dos taxonomistas -os que
descrevem e classificam os seres vivos. Assim acontecerá porque
o leigo talvez nunca haja dado atenção ao assunto e porque o
especialista, havendo especulado sobre ele a vida toda, tenha
encontrado resultados tão pouco fidedignos que, no fundo,
equivalem à ignorância.
O primeiro esforço para catalogar os seres vivos foi realizado pelo
sueco Carolus Linneus, no século 18. Ele criou a nomenclatura
binária, que usa os nomes latinos do gênero e da espécie, e
publicou o "Systema Naturae", onde arrolou e ordenou as
espécies até então conhecidas. A décima edição dessa obra,
publicada em 1758, registrava cerca de 9.000 espécies.
Esse trabalho estimulou o acréscimo de novas espécies em grande
quantidade, de forma que meio século depois já estava registrada
metade das 9.000 espécies de aves. A era vitoriana favoreceu a
descrição de aracnídeos e crustáceos, mas depois veio um
período de relativa estagnação, só quebrado nas duas últimas
décadas. Segundo Robert M. May, a variação na quantidade de
seres registrados em diversas épocas deve-se ao tamanho da
força de trabalho de taxonomistas. Atualmente 10 mil deles atuam
na América do Norte, devendo ser três vezes maior o número em
todo o mundo. Sua distribuição não corresponde à riqueza de
espécies dos vários grupos.
Essa catalogação completa e global é tarefa realmente gigantesca.
Alguns propõem um trabalho concentrado comum, no qual se
aproveitem todas as possibilidades, desde os "taxonomistas de
pés descalços", com formação superficial, para as primeiras
triagens, até os grandes especialistas e a informática, que muito
ajudará na interpretação, comparação e controle dos dados
obtidos.
Diversas estratégias têm sido utilizadas para a contagem das
espécies. Cada estratégia fornece, porém, resultados
contraditórios, desde 10 até 100 milhões de espécies. Este último
valor foi obtido por May a partir do pressuposto de que cada
espécie de artrópode (insetos, crustáceos, etc.) ou planta vascular
(que não abrange algas, cogumelos e musgos), que juntos
representam a maioria das espécies registradas, abriga pelo menos
um nematóide, um protozoário, uma bactéria e um vírus. May
multiplicou então o número mais aceito das espécies por cinco,
perfazendo 100 milhões, que ele mesmo acha um tanto
exagerados.
Outros especialistas têm estabelecido regras que orientam a
contagem, como a de ser o número de espécies inversamente
proporcional ao seu tamanho, norma que não funcionaria abaixo
de um centímetro. As menores estimativas indicam a existência de
três milhões de espécies, enquanto outras, mais confiáveis,
apontam seis ou sete milhões. Há, todavia, as que avaliam 30
milhões só de insetos!
O grande objetivo do registro da diversidade biológica é construir
base de fatos para responder perguntas fundamentais sobre
evolução e ecologia. As listas taxonômicas servem de ponto de
partida, explica May, para estudar a estrutura das cadeias
alimentares, a abundância relativa das espécies, seu número ou o
total de organismos de vários tamanhos, assim como as tendências
gerais quanto ao número e à distribuição dos seres vivos. Parece
indiscutível a necessidade dessas listas, das quais, em última
análise, depende a conservação do meio ambiente -tarefa que
constitui um dos maiores desafios da humanidade.