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Genismo · Genismo - um novo paradigma

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Amor de mãe   Message List  
Reply Message #705 of 8116 |
Olá!
Este artigo do Varella, publicado na Folha de São Paulo, 8 de
setembro de 2001 tem por trás deste título simplista uma abordagem
de temas discutidos nesta lista, sobre vantagem evolutiva, como:"
Qualidade X Quantidade" e "monogamia". Vale a pena dar uma lida ...
Abraços
Tânia

"Amor de mãe

DRAUZIO VARELLA
Para a mãe, todo filho é santo. Os outros podem considerá-lo sem-
vergonha, de caráter torpe, ladrão contumaz e assassino abominável.
Ela nunca. Por mais absurdo o ato por ele cometido, ela sempre
encontrará desculpa, dirá que no fundo é bom rapaz, dono de
sentimentos nobres, e, se por acaso errou, foi culpa das más
companhias.
A dedicação das mulheres aos filhos não encontra paralelo no
comportamento masculino. Um pai é capaz de romper relações com os
filhos, dizer-lhes que não o procurem mais e não irá se arrepender. A
mãe jamais conseguirá fazê-lo.
As filas que se formam nas portas das cadeias para as visitas dos
finais de semana ilustram o que acabamos de falar. Para cada dez
senhoras que chegam com sacolas de supermercado carregadas de
refrigerante tamanho família e com as comidas de que o filho gosta,
aparece um pai para visitá-lo.
Anos atrás, uma dessas senhoras me disse a respeito do filho, que
havia matado cinco pessoas numa chacina: "Dizem que o meu menino fez
coisas horríveis, mas, quando olho nos olhos dele, vejo ele
pequenininho no meu colo, rindo, e não consigo acreditar que seja
verdade".
Talvez seja essa a principal estratégia de sobrevivência da criança
pequena: ter olhos encantadores e pele tão macia que dá vontade de
apertar. Dependentes dos pais para as mais insignificantes tarefas,
os bebês fazem da beleza a arma irresistível para atrair a atenção
que exigem dia e noite durante a demorada fase de desenvolvimento.
Longos períodos de cuidados com a prole são característicos de todos
os primatas. O cavalinho acabado de nascer já sai trôpego, um
pássaro, aos 30 dias, consegue voar, mas nos primatas a independência
só será alcançada depois de muito tempo: uma criança leva um ano para
começar a andar, um filhote de orangotango precisa de sete ou oito
anos para se aventurar sem a mãe pelos galhos das árvores e
desaparecer na floresta. Gorilas e chimpanzés só na adolescência
criam coragem para deixar o grupo.
A vulnerabilidade da infância criou forte pressão seletiva no passado
da espécie humana. Por prováveis fatores de natureza social e sutis
reações bioquímicas que os hormônios sexuais estabelecem com os
neurônios no cérebro, desde sempre coube à mulher o peso maior do
fardo que é cuidar dos filhos. Aceitamos esse fato com tanta
naturalidade que cobramos do amor materno uma coerência jamais
exigida dos homens.
Por exemplo, pai abandonar filho é comportamento aceito socialmente,
considerado normal hoje em dia, motivo até de orgulho para os que se
gabam de seduzir muitas mulheres. Mãe que abandona bebê na porta da
igreja, ao contrário, é execrada. Por quê? Se do pai que abandonou o
mesmo filho ninguém fala, por que todos condenam a mãe?
É provável que a resposta esteja nos mecanismos de seleção natural.
Nossos antepassados machos adotaram estratégias reprodutivas
diferentes das estratégias das fêmeas porque podiam ter um número de
filhos genéticos incomparavelmente maior do que elas. Nossa
estratégia é baseada na ejaculação de centenas de milhões de
espermatozóides. A delas, na produção de um único óvulo por mês. São
econômicas, a gravidez lhes consome energia, e os cuidados
necessários para criar o filho, muito mais.
Com base nessa fisiologia, os machos primitivos vislumbraram duas
estratégias sexuais: fecundar o maior número possível de fêmeas ou
passar a vida restrito a uma só. Embora pareça que os primeiros
levaram franca vantagem competitiva, não podemos esquecer os riscos
de tal opção: as doenças sexualmente transmissíveis num mundo sem
antibióticos e a chance de ser assassinado por um rival na disputa da
parceira, por exemplo. Além disso, sem o pai por perto, a
probabilidade de sobrevivência de uma criança é certamente menor.
O comportamento monogâmico chegou aos nossos dias porque, se um casal
mantém duas ou três relações por semana, durante um ano, em mais de
70% dos casos a gravidez acontece. Se o casal continuar junto e
investir energia dobrada na criação da família, a possibilidade de
sucesso reprodutivo aumentará significativamente. Nesse caso, devagar
se vai mais longe.
No lado feminino, levaram vantagem na competição nossas antepassadas,
que se dedicaram de corpo e alma à criação dos filhos e dos netos
quando viviam tempo suficiente para tê-los. Num mundo inóspito como
aquele, as mulheres desapegadas dos filhos não conseguiram transmitir
sua herança genética. Somos todos descendentes de mães exemplares na
tarefa de cuidar da prole, obededientes à ordem ancestral de amar aos
filhos sobre todas as coisas. É por isso que o povo diz: amor, só de
mãe!"








Sat Sep 8, 2001 3:17 pm

dra_savat@...
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Message #705 of 8116 |
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Olá! Este artigo do Varella, publicado na Folha de São Paulo, 8 de setembro de 2001 tem por trás deste título simplista uma abordagem de temas discutidos...
dra_savat@... Send Email Sep 8, 2001
3:17 pm
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