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HISTÓRIA
3 gerações e 1 teste genético
Há 15 anos, cerca de 40 pessoas da família decidiram fazer
um exame genético para descobrir se eram portadores de Huntington,
doença sem cura
Membros de três gerações da família Miranda,
que sofre de doença genética rara
FERNANDA BASSETTE
DA REPORTAGEM LOCAL
Por 14 anos, a servidora pública Edília Ferreira Miranda Paz, 59,
guardou segredo, num cofre dentro de casa, sobre os resultados de um
teste genético que envolviam cerca de 40 pessoas da família, entre
irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos.
Os papéis revelavam quais deles tinham a alteração genética que causa
Huntington, doença hereditária que ataca o sistema nervoso central. A
condição se manifesta a partir dos 40 anos, provoca problemas motores e
mentais, não tem cura e, em geral, leva o paciente à morte por volta
dos 50 anos.
O histórico de Huntington apareceu na família na década de 1960, quando
o professor Marcondes Miranda, então com 56 anos, começou a apresentar
os primeiros sintomas: movimentos corporais irregulares e
involuntários, falta de coordenação motora, alterações bruscas de humor
e dificuldades para andar e engolir.
Diagnosticado com a doença em 1969, Marcondes logo se tornou totalmente
dependente dos familiares, parou de andar e de falar. Morreu em 1974.
Pouco tempo depois, dois filhos do professor começaram a apresentar
sinais da doença. Em 1978, uma das filhas, com pouco mais de 40 anos,
casada e com sete filhos, foi diagnosticada com Huntington e morreu
seis anos mais tarde.
Logo em seguida, um dos filhos homens também teve sintomas da doença.
"Foi nessa época que começamos a olhar com olhos clínicos para todos
nós. A essa altura, eu já tinha dois filhos. Estávamos totalmente
perdidos", conta Edília.
Por se tratar de uma doença dominante, as chances de uma pessoa com
Huntington transmitir o gene doente para o filho são de 50%. Até 1994,
quando chegou ao Brasil o teste capaz de identificar o gene com o
problema, não havia nenhum exame que apontasse a existência da doença
-o diagnóstico era sempre clínico.
Convencida por um neurologista de Brasília, a família Miranda juntou
dinheiro com a ajuda de um amigo e pagou cerca de R$ 80 mil para fazer
o exame genético em todos. Eles foram a primeira família do país a
fazer o exame de Huntington.
Amostras de sangue de recém-nascidos, crianças, adolescentes e adultos
foram encaminhadas a um laboratório em Curitiba -o único do país a
fazer os testes para essa doença naquela época.
Quando os resultados ficaram prontos, Edília foi convocada a ir ao
consultório receber os diagnósticos. E o que era para ser um motivo de
alívio para a família tornou-se um drama.
Dos 14 filhos de Marcondes, oito eram portadores do gene e, em algum
momento, desenvolveriam a doença -Edília não era portadora. Mais da
metade das crianças e adolescentes tinha o gene alterado.
"Meu mundo caiu. Só quando eu peguei os resultados nas mãos é que tive
noção do tamanho do drama que viveríamos a partir daquele dia. Não
sabia se ficava feliz por não ser portadora ou se me desesperava vendo
que meus sobrinhos, ainda crianças, eram portadores."
Edília diz que só então se deu conta de que o teste genético apontaria
quem eram os portadores da doença, mas não traria possibilidades de
cura. "Eu enlouqueci. De que adianta fazer teste para saber se você tem
uma doença se não há nada a ser feito depois?", diz.
Com os exames em mãos, Edília ligou para duas cunhadas e perguntou se
elas queriam saber os resultados. Elas disseram que não. Outros
familiares também não quiseram saber e pediram a ela que se desfizesse
dos documentos. Edília guardou o segredo por todo esse tempo e há pouco
mais de um ano tirou os documentos do cofre e os queimou.
"Olhar aqueles exames foi como receber a condenação de uma doença que
não tem cura e que o tratamento só ameniza os sintomas. Se eu tivesse
um inimigo, não queria que ele estivesse na minha pele", conta.
Uma das irmãs de Edília, casada e com quatro filhos, foi a única que
quis saber os resultados. Foi ao consultório com a família, e o filho
de 19 anos foi recebido pelo médico. "Ele começou a gritar
desesperadamente. Minha irmã pensou que ele tinha o gene, mas, na
verdade, ele soube que a mãe e os três irmãos eram portadores e ele
não", lembra.
Edília critica o despreparo dos médicos que sugeriram a realização dos
exames sem indicar um tratamento psicológico para a família. "Posso
dizer que existe um marco da doença de Huntington no Brasil antes e
depois da família Miranda."
O geneticista Salmo Raskin, que enviou a Brasília os exames da família,
reconhece que, há 15 anos, a falta de experiência com a doença provocou
a dificuldade de lidar com o diagnóstico.
"Hoje a gente sabe que o teste deve ser feito com acompanhamento
psicológico. A experiência com essa família foi um grande aprendizado",
afirma.
Dos 14 filhos de Marcondes Miranda, sete morreram -cinco deles com a
doença. Dos sete vivos, três são portadores do gene. Os descendentes
que herdaram a doença e querem ter filhos podem fazer a seleção do
embrião sem o gene doente.
"Para mim, essa é a única justificativa para alguém fazer o teste
genético, pois não temos o direito de passar essa dúvida para os nossos
herdeiros."
Segundo Maria Gorette Marques, coordenadora da ABH (Associação
Huntington Brasil), estima-se que a doença afete entre 70 e 100 pessoas
em cada grupo de 1 milhão.
No mês passado, a entidade lançou dois livros: "Doença de Huntington -
Guia para Família e Profissionais de Saúde" e "Doença de Huntington -
Relatos e Depoimentos". Os exemplares estão disponíveis no site (www.abh.org.br) e podem ser
adquiridos por meio de uma doação à associação.
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