O Princípio Destrópico
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Jocax/ Março-2008
Resumo: O "Princípio Destrópico" é um argumento que estabelece que
todo universo é equiprovável, e a possibilidade de vida não é uma
característica mais especial que uma outra qualquer. Isso vai de
encontro ao "princípio antrópico" quando este é utilizado para
argumentar que existe a necessidade de uma divindade, ou de
múltiplos universos para explicar a configuração de nosso universo,
em particular, a de poder abrigar vida.
Vou colocar uma nova refutação ao "princípio antrópico" quando este
é utilizado como argumento da necessidade de uma deidade, ou de
múltiplos universos, para explicar a vida em nosso universo. O
argumento que irei elaborar eu já havia esboçado no meu artigo
anterior sobre o tema: "O Principio Antrópico e o Nada-Jocaxiano"
[1], mas agora irei aprofundar um pouco mais na análise do argumento.
O argumento não é muito intuitivo, e por isso lançaremos mão de uma
analogia para entendermos a idéia que está por trás. Antes, porém,
vou resumir o que é o principio antrópico, e como ele é utilizado
pelos criacionistas, e religiosos em geral, para justificar Deus:
Introdução
As leis da física, geralmente escritas em forma de equações
matemáticas, são consideradas as responsáveis pelas características
do universo e sua evolução no tempo. Estas leis, como as conhecemos
hoje, são compostas por equações em que aparecem algumas constantes
numéricas (parâmetros). Entre estas constantes podemos citar, entre
outras: a velocidade da luz, a massa do elétron, a carga elétrica do
próton etc...[2]
Argumenta-se, - sem demonstração -, que uma pequena alteração
(também não se esclarece qual a magnitude desta alteração) em alguma
destas constantes inviabilizaria a possibilidade de vida no
universo. Os que argumentam isso também concluem que um universo
criado com constantes físicas geradas ao acaso, dificilmente poderia
proporcionar vida.
Colher de chá
A bem da verdade, precisamos observar que um universo com leis
aleatórias não precisariam seguir o padrão de leis físicas que temos
em nosso universo, isto é, as equações matemáticas que definiriam um
universo gerado aleatoriamente, poderiam ser totalmente distintas
das que temos no nosso universo atual (em princípio tais universos
nem precisariam ser descritos por equações matemáticas), de modo que
os parâmetros que temos hoje não se aplicariam em nenhuma das
equações deste universo aleatório. Dessa forma, é totalmente FALSO
alegar que todos os universos possíveis podem ser descritos mantendo
as mesmas equações do nosso universo particular, e variando apenas
as constantes que nele aparecem.
Entretanto, para podermos refutar o "princípio antrópico", em sua
própria base de sustentação, iremos aqui considerar como verdade que
todos os universos possíveis mantenham a mesma estrutura de equações
de nosso universo. Também iremos supor que estas equações sejam
verdadeiras, mas sabendo de antemão que isso não é verdade, uma vez
que há incompatibilidade teórica entre a teoria da relatividade e a
mecânica quântica. Além disso, também suporemos que seja verdade,
embora ninguém ainda tenha demonstrado, que qualquer alteração de
uma das constantes fundamentais inviabilize a possibilidade de vida.
Uma analogia
Para entendermos a idéia do "Princípio Destrópico", faremos uma
analogia das equações que regem os vários universos possíveis, com
os números reais. Vamos supor que cada um dos universos possíveis
possa ser representado, por um número real entre 0 e 10. Podemos
justificar isso se pensarmos que podemos concatenar todas as
constantes fundamentais num único parâmetro numérico.
Nessa nossa analogia, o parâmetro "4,22341", por exemplo,
representaria um universo U1, que por sua vez seria diferente de um
universo U2, representado pelo parâmetro "6,123333...", e assim por
diante. Assim, cada um desses parâmetros numéricos definiria
completamente as características do universo por ele representado.
Vamos supor que exista uma máquina que gere, aleatoriamente, números
reais entre 0 e 10. Cada número gerado seria o parâmetro que
definiria um universo. Podemos perceber que é ínfima, praticamente
nula, a possibilidade de prevermos qual número a máquina irá gerar.
Entretanto, certamente a máquina irá gerar um número.
Suponha que nosso universo seja representado por U1 ("4,22341").
Podemos então perguntar: qual a probabilidade de que o número do
nosso universo seja escolhido, sendo que há uma infinidade de outros
possíveis? Há infinitos números reais entre 0 e 10, assim é
praticamente impossível prever que o número "4,22341" que é o
parâmetro que define as características de nosso universo, seria
escolhido.
Assim, quando a máquina gerar um número, representando um parâmetro
do universo, a resposta à pergunta: "Quão provável seria a geração
de um universo como o nosso?", deverá ser "Tão provável quanto a de
gerar qualquer outro universo específico".
Equiprovável
Nesse nosso modelo de geração aleatória de universos, todos os
universos são equiprováveis: qualquer número real entre 0 e 10 teria
a mesma probabilidade de ser gerado. Nenhum universo é mais provável
de ser gerado que um outro qualquer. Dessa forma, qualquer que fosse
o número gerado pela máquina, ele seria tão improvável de ser
previsto ou acertado como qualquer outro número. Podemos então
concluir que o nosso universo é tão provável de ser gerado como
qualquer outro.
Vida
Mas alguém pode retrucar:
"-O nosso universo é o único em que há possibilidade de vida".
A possibilidade de vida é uma peculiaridade de nosso universo.
Qualquer outro universo gerado também teria suas peculiaridades
específicas. Por exemplo: talvez algum deles poderia ser formado por
minúsculas bolinhas de cristais coloridos cintilantes, outro poderia
formar gosmas elásticas, outros esferas perfeitas, e assim por
diante etc. Se, por exemplo, o universo gerado produzisse bolinhas
de cristais cintilantes de cor azul, então poderíamos fazer a mesma
exclamação:
"- Apenas nesse universo se produz bolinhas cintilantes"
Ou:
"-Apenas neste universo há possibilidade de produzir estas gomas
elásticas"
E assim por diante. Para nós humanos a vida pode ser mais importante
do que bolinhas cintilantes ou do que gosmas elásticas, mas isso é
apenas uma valoração humana não há nenhuma razão lógica para supor
que um universo com vida seja mais importante do que um universo que
produza bolinhas de cristais cintilantes, ou gosmas elásticas.
Portanto, não podemos alegar que nosso universo seja especial e
único, pois ele é tão especial e único quanto qualquer outro
universo que fosse gerado aleatoriamente. Todos teriam suas
características únicas, geradas por suas constantes físicas também
únicas.
Outro Formalismo
Para clarear esta idéia vamos refazer nosso argumento utilizando um
outro formalismo:
Suponha que os universos sejam descritos por 6 constantes
fundamentais, (o número exato não importa, o raciocínio que faremos
serve para qualquer número de constantes).
Assim, qualquer Universo U poderia ser definido com um sistema de
equações que depende de 6 constantes. Vamos representar isso da
seguinte forma:
U= U( A, B, C, D, E, F )
Particularmente, o nosso universo, U1, é descrito neste formalismo
como:
U1= U(A1, B1, C1, D1, E1, F1 )
Agora, considere um Universo U2 com constantes diferentes de U1:
U2 = U(A2, B2, C2, D2, E2, F2 )
Como U1 contém os parâmetros do nosso universo, ele vai gerar um
universo que pode abrigar "VIDA", mas não pode gerar uma "VODA", da
mesma forma U2 pode gerar "VODA" mas não pode gerar "VIDA".
Um "VODA" é uma característica qualquer de U2, como por exemplo, ser
um grupo de partículas onde a densidade é exatamente 0,12221 (um
número qualquer). Apenas U2 pode gerar um "VODA" e qualquer mudança
de parâmetros inviabilizaria a geração de "VODA".
Claro que, da mesma forma, um outro universo, U3, com outras
constantes:
U3 = U(A3,B3,C3,D3,E3,F3 )
Também não viabilizaria "VIDA" nem "VODA", mas viabilizaria "VUDA".
"VUDA" é uma condição física que ocorre quando as partículas estão
submetidas ao regime de forças geradas pelas constantes de U3
(A3...F3). E qualquer alteração nnuma destas constantes de U3
inviabilizaria "VUDA".
Note que não existe uma importância INTRÍNSECA se o universo irá
gerar VIDA, VODA ou VUDA. Para a máquina geradora ou para o próprio
universo tanto faz, mesmo por que o universo ou a máquina aleatória
não tem consciência ou desejos próprios. É irrelevante para a
máquina geradora e mesmo para o universo gerado se ele poderá
abrigar vida, voda, vuda ou apresentar qualquer outra peculiaridade.
Cada universo tem sua própria característica. Se U1 permite VIDA ele
não permite VODA nem VUDA, se U2 permite VODA ele não permite VIDA
nem VUDA, se U3 permite VUDA ele não permite VIDA nem VODA. E assim
ocorre para qualquer universo gerado.
Desta forma podemos perceber que nosso universo não tem nada de
especial porque nada é intrinsecamente especial. VIDA é tão
importante como VODA ou VUDA. O universo não está preocupado se
VODA gera consciência ou não , nem se VUDA gera um aglomerado de
brilho amarelo incrível que nunca existiria em U1. Ou que VODA gera
micro pirâmides coloridas de brilho próprio de incrível beleza. Isso
pode importar para os humanos, pequenos seres egocêntricos de U1
que dão importância à VIDA porque também são vivos.
Assim, a probabilidade de gerar um universo que tenha VUDA é
equivalente a um outro que possua VIDA ou VODA. Não há nada de
miraculoso ou mágico em nosso universo que o torne REALMENTE
especial. Portanto não tem sentido dizer que a probabilidade de
nosso universo ser assim seja obra de alguma divindade, qualquer que
fosse o universo gerado a probabilidade dele ser daquela forma seria
a mesma que a de nosso ser como é.
É como escolher aleatoriamente um número real entre 0 e 10: Todos
são igualmente prováveis e difíceis de serem escolhidos, nenhum é
mais especial ou menos especial que os outros.
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[1]O Principio Antropico e o NJ
http://groups.yahoo.com/group/Genismo/message/5608
[2] Constantes Fundamentais da Fisica:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Constante_fundamental