44. A origem
do otimismo, artigo de Fernando Reinach
“É
bem sabido que, independentemente de nosso nível de educação, temos uma
enorme tendência de acreditar que o futuro será róseo”
Fernando Reinach é biólogo. Artigo publicado no “Estado de SP”:
O
ser humano é naturalmente otimista. É bem sabido que, independentemente
de nosso nível de educação, temos uma enorme tendência de acreditar que
o futuro será róseo. As pessoas superestimam sua longevidade e
subestimam sua probabilidade de morrer. Acreditar que o Brasil é o país
do futuro parece estar nos nossos genes.
Essa característica
de nosso cérebro faz sentido biológico. Sem ela, provavelmente seria
mais difícil sobreviver em um ambiente em que impera a competição e a
seleção natural. Uma das características da depressão é exatamente a
redução desse otimismo e uma dificuldade em imaginar que o futuro é
promissor.
Por esse motivo, muitos neurologistas têm tentado
descobrir em que área de nosso cérebro se origina o otimismo. Eles
acreditam que essa tendência ao otimismo nada mais é que uma distorção
sistemática da imaginação quando ela é aplicada a eventos que ainda
estão por ocorrer, portanto no futuro.
Agora, parece que um grupo de cientistas conseguiu mapear no cérebro a
região responsável pelo otimismo.
Voluntários
foram colocados em uma máquina de ressonância magnética capaz de medir
a cada instante a atividade de cada área do cérebro. Uma vez na
máquina, eram instruídos a imaginar um evento no futuro ou relembrar um
evento do passado.
Quando terminavam de imaginar, a máquina era
desligada e eles respondiam a um questionário sobre o que haviam
imaginado. O evento era positivo ou negativo? Parecia distante ou
próximo ao presente? A pessoa estava muito ou pouco envolvida no
evento? Nos eventos que se relacionavam ao passado, fossem eles
negativos ou positivos, ambos geravam respostas semelhantes.
Nos
relacionados ao futuro, sempre que o evento era positivo (vou ganhar um
prêmio, vou me apaixonar), ele era mais intenso, imaginado mais perto
do presente e a pessoa se via intimamente envolvida. Era o esperado,
afinal somos otimistas.
Na última parte do experimento, a
atividade cerebral dos voluntários durante o tempo que imaginavam um
evento positivos no futuro (vou comer um pernil ótimo amanhã) era
comparada com a atividade cerebral quando as pessoas imaginavam eventos
positivos no passado (ontem comi um pernil ótimo), um pensamento
negativo no futuro (o pernil que vou comer amanhã vai me dar diarréia)
ou um pensamento negativo no passado (o pernil que comi ontem me fez
vomitar).
O resultado é que sempre que a imaginação se dirigia
para o futuro e focava em um pensamento positivo, duas regiões do
cérebro eram ativadas de maneira específica: a região da amígdala e a
parte anterior do córtex cingulado rostral.
Esses dados
indicam que provavelmente é nessas partes do cérebro que se origina o
otimismo. As duas regiões apresentam anomalias em pessoas afetadas por
depressões profundas e pacientes com lesões nessas áreas tendem a
apresentar depressão. Ficam incapazes de pensamentos otimistas.
Esse
experimento é um bom exemplo de como aos poucos estamos descobrindo
como nosso cérebro cria nossa mente. Afinal, da mesma maneira que o
coração bomba sangue e o intestino digere os alimentos, a função do
cérebro é criar e manter a mente.
Mais informações em: Neural Mechanisms Mediating Optimism Bias. Nature,
volume 450, página 102, ano 2007.
(O Estado de SP, 15/11)
JC e-mail 3391, de 16 de Novembro de 2007. 44. A origem do otimismo, artigo de Fernando Reinach "É bem sabido que, independentemente de nosso nÃvel de...