Convivência na infância eleva altruísmo e inibe incesto
Estadão
Artigo publicado na edição desta semana da revista científica Nature
sugere que o cérebro humano se vale de pistas, assimiladas na infância,
para calcular o grau de parentesco com outras pessoas, e que a reação a
essas pistas regula tanto a atração sexual quanto a tendência ao
comportamento altruísta, como a disposição de fazer favores ou doar um rim.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores, psicólogos das
universidades da Califórnia e do Havaí, avalia
ram as respostas de centenas de pessoas a questionários sobre disposição
altruísta, repugnância à idéia de incesto com o próprio irmão ou irmã e
oposição moral ao incesto entre terceiros.
Os fatores que, segundo a análise dos psicólogos, mais elevam o
altruísmo e inibem a atração sexual são o período de co-residência - o
tempo que os irmãos moraram juntos sob os cuidados dos pais - e, mais
importante no caso dos sentimentos dos irmãos mais velhos em relação aos
mais novos, a associação com a mãe: o altruísmo e a repulsa sexual
mostraram-se fortemente ligados ao fato de um filho ver a mãe cuidando
do outro, menor.
O grau de altruísmo foi avaliado pelo número de favores prestados ao
longo de um mês, e pela disposição para fazer uma doação de rim, numa
escala de zero (nem um pouco disposto) a seis (extremamente disposto).
O artigo mostra, ainda, que esses fatores parecem mais fortes do que a
consciência de que não existe parentesco de sangue: mesmo quando os
irmãos são adotivos ou filhos de um padrasto ou madrasta, o tempo de
co-residência na infância ainda permite prever a disposição altruísta e
a aversão ao sexo.
Os autores do trabalho destacam que mecanismos para detectar parentes já
foram descobertos em diversas outras espécies de animais, e fazem
sentido do ponto de vista evolucionário. De acordo com o artigo, a
alocação de altruísmo "de forma eficiente com respeito ao parentesco
vence, na competição, variações que falham em regular o comportamento"
de acordo com os laços de sangue.
Os dois critérios revelados no levantamento, segundo os pesquisadores,
são coerentes com a forma de vida que, acredita-se, era adotada pelas
primeiras populações humanas: grupos nômades, nos quais os filhos
pequenos viviam ao redor da mãe.
A inibição do incesto também oferece uma vantagem em termos de seleção
natural, dizem os cientistas, ao reduzir a probabilidade de acúmulo de
características genéticas negativas e de vulnerabilidades a parasitas
http://tecnocientista.info/noticia_detalhe.asp?cod=4573