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Genismo · Genismo - um novo paradigma

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A expressao das emocoes no homem e nos animais   Message List  
Reply Message #469 of 8116 |
A expressão das emoções no homem e nos animais
Charles Darwin

Prefácio
O grande biólogo e meu altamente reputado mestre Jacob von Uexküll,
disse certa vez, um tanto quanto pessimista, que a verdade de hoje nada
mais era do que o erro de amanhã. Ao que um outro grande biólogo, também
um de meus mais admirados professores, Otto Koehler, respondeu: “Não, a
verdade de hoje é o caso particular de amanhã!” Certamente, essa segunda
afirma-ção contém uma verdade muito mais profunda do que a primei-ra.

Em ciência, e particularmente em biologia, o descobridor de um novo
princípio explicativo está sempre sujeito a superesti-mar o alcance de
sua aplicação.

Quando Jacques Loeb descobriu o princípio do tropismo, chegou a
acreditar, e esperar, que todo comportamento humano e animal pudesse ser
explicado com ba-se na interação dos tropismos. Quando 1. P. Pavlov
descobriu a resposta condicionada, pensava aproximadamente o mesmo de
seu princípio explicativo.
Os escritos de Sigmund Freud estão cheios de generalizações semelhantes.

Podemos indulgentemen-te considerar essa pequena fraqueza como uma
merecida prerrogativa do gênio, pois os alunos dos grandes homens,
apesar de não tão bons descobridores, serão melhores na verificação do
que seus inspirados mestres, e podemos confiar neles para segurar as
asas do gênio quando este ameaça voar alto demais.

Somente quando os alunos degeneram em discípulos que aceitam sem
questionamento as afirmações ambiciosas do mestre é que surge o perigo,
e que o recém-nascido monstro epistemófago (devorador de conhecimento),
mais um “ismo”, ergue sua cabeça horrenda.

Entretanto, o maior dos descobridores no campo da biologia não cometeu
esse erro: quando Charles Darwin descobriu a seleção natural — o
princípio explicativo que estaria destinado a mudar nossa concepção do
homem e do mundo mais do que qualquer outro antes dele — decididamente
não superestimou a quantidade de fenômenos que poderiam ser explicados
por seu intermédio.

Se errou, foi ao não completar sua teoria. Por essa razão, incomoda-me
profundamente o termo “darwinismo”. É uma calúnia injusta que acusa o
grande homem de um pecado que, mais do que qualquer outro, ele
abominaria.

Os biólogos modernos são muito mais “darwinistas” do que Darwin, e com
razão.

Somos mais insistentes em nossa busca por uma pressão seletiva mais
definida sempre que alguma construção mais elaborada da natureza
desperta nossa curiosidade e nossa demanda por uma explicação causal.

A partir de Darwin, re-petidos sucessos tornaram-nos confiantes de que,
sempre que mais um dos intrigantes produtos da evolução trouxer-nos um
enigma, uma diligente e rigorosa busca por pressões seletivas
especificas nos fornecerá uma solução.
Arrisco-me a afirmar que qualquer forma de estrutura ou comportamento,
mesmo as mais provocantemente inacreditáveis, pode ser entendida, pelo
menos em princípio, como o resultado da pressão seletiva exercida por
sua função de sobrevivência específica.
Estamos sempre prontos a perguntar “Para quê?”, o que para nós não
implica professar uma teleologia mística. Quando perguntamos: “Para que
o gato tem unhas curvas e retráteis?”, e respondemos: “Para pegar ratos
com elas!” Estamos simplesmente afirmando, de maneira resumida, que
pegar ratos era a função primordial cuja enorme importância para a
sobrevivência criou gatos com essa particular formação das unhas, e que
ela o fez pelo mesmo processo de seleção por meio do qual um criador
humano produz linhagens de galinhas capazes de ter uma enorme produção
de ovos, ou pequineses com minúsculos focinhos.

Como todos os descobridores científicos verdadeiramente grandes, Darwin
possuía uma habilidade que chegava a ser intrigante para raciocinar
sobre hipóteses não só provisórias e vagas como também subconscientes.

Ele deduziu conseqüências acertadas a partir de fatos mais suspeitados
do que propriamente conhecidos, e verificou tanto a teoria quanto os
fatos pela óbvia veracidade das suas conclusões.
Em outras palavras, um homem como Darwin sabe muito mais do que pensa
saber, e não surpreende que as conseqüências de seu conhecimento cheguem
tão longe em diferentes direções. Diferentes áreas da pesquisa biológica
foram inspiradas por ele, e cada uma delas o considera, com razão, seu
originador e pioneiro.

O que surpreende é a extensão com que pesquisas adicionais, baseadas em
hipóteses de Darwin e estendendo-as em todas as direções imagináveis,
têm invariavelmente confirmado seu acerto em todos os pontos essenciais.

A área do estudo do comportamento comumente chamada etologia, que pode
ser definida resumidamente como a biologia do comportamento, tem um
direito especial de considerar Charles Darwin como seu santo padroeiro.

Ela é mais dependente do enfoque selecionista do que qualquer outra
ciência biológica que eu pudesse citar, e cumpriu sua parte na
verificação das teorias de Darwin.

Mais ainda, em seu livro A expressão das emoções no homem e nos animais
Charles Darwin anteviu, de forma verdadeiramente visionária, os maiores
problemas com que se defrontam os etologistas atualmente, e traçou uma
estratégia de pesquisa que eles ainda utilizam. Lendo nas entrelinhas é
possível perceber que Darwin estava perfeitamente consciente de um fato
que, apesar de simples, é tão fundamental para o estudo biológico do
comportamento que sua redescoberta por Charles Otis Whitman e Oskar
Heinroth é considerada, com justiça, o ponto de partida da etologia.

Esse fato, ainda ignorado por muitos psicólogos, consiste simplesmente
em que padrões comportamentais são características tão confiáveis e
conservadas nas espécies quanto as formas dos ossos, dos dentes, ou de
qualquer outra estrutura corporal.
Semelhanças entre comportamentos hereditários unem membros de uma
espécie, de um gênero, e mesmo de unidades taxonômicas maiores,
exatamente da mesma maneira como o fazem as características corporais.

A persistência conservativa de padrões comportamentais, mesmo depois de
sobreviverem na evolução de uma espécie à sua função original, é
exatamente a mesma dos órgãos; em outras palavras, eles podem tornar-se
“vestigiais” ou “rudimentares” da mesma forma que estes últimos. Ou
então, ao perder uma função, podem desenvolver outra, como ocorreu com a
primeira fenda branquial ao transformar-se no meato acústico quando
nossos ancestrais passaram da vida aquática para a terrestre.

Darwin demonstra, de maneira perfeitamente convincente, que processos
análogos ocorreram na evolução de padrões motores, como no caso, por
exemplo, do “rosnar” em que um movimento expressivo com função puramente
comunicativa se desenvolveu a partir do padrão motor da mordida, que,
como forma de agressão, praticamente desapareceu na espécie humana.

Admitir que padrões comportamentais têm evolução exatamente igual à dos
órgãos leva ao reconhecimento de outro fato: eles também têm o mesmo
tipo de transmissão hereditária. Em outras palavras, a adaptação dos
padrões comportamentais de um organismo ao seu meio se dá exatamente da
mesma maneira que a de seus órgãos, isto é, mediante as informações que
a espécie acumulou, ao longo de sua evolução, pelo antiqüíssimo método
da seleção e mutação.
Isso se aplica não só a padrões relati-vamente rígidos de forma e
comportamento, mas também aos complicados mecanismos de modificação
adaptativa, entre os quais estão aqueles geralmente incluídos na
concepção de aprendizado.

Em minha opinião, é no campo do estudo do comportamen-to que as
incontestáveis verdades contidas em A expressão das emoções no homem e
nos animais alcançam suas conseqüências mais abrangentes, no plano
teórico, prático e até político.

É nessa convicção que se apóia minha justificativa interior para
escrever este prefácio. Não duvido, no entanto, que muitos outros
biólogos, trabalhando em campos diferentes, poderiam dizer o mesmo com
igual direito. Acredito que mesmo hoje ainda não percebemos precisamente
o quanto Charles Darwin sabia.

Konrad Lorenz





Fri Jul 27, 2001 7:00 pm

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