+ciência
NATUREZA X CRIAÇÃO
Folha de São Paulo, domingo, 13 de outubro de 2002
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Depois de ciclo de impopularidade, os estudos com gêmeos voltam à moda
com o uso das novas ferramentas da genética
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Kristin Ohlson
da "New Scientist"
Mais de 2.000 gêmeos e milhares de espectadores curiosos participaram
dos Dias dos Gêmeos deste ano, o maior encontro de gêmeos do mundo,
realizado anualmente em Twinsburg, Ohio. A cidade teve a idéia de criar
o evento, ótimo para atrair turistas, 27 anos atrás, para comemorar os
gêmeos famosos que lhe deram seu nome: os irmãos Wilcox, mortos há
muitos anos, que se casaram com irmãs e morreram no mesmo dia, da mesma
causa. Este ano, como em outros, pares de gêmeos vieram de longe e de
perto para ostentar sua semelhança. Havia desde menininhas vestidas como
pirulitos do mesmo sabor até senhores de cabelos grisalhos, passeando
numa bicicleta feita para duas pessoas.
Onde se vêem grupos de gêmeos, também se vêem pesquisadores médicos. No
final da parada, os gêmeos formaram fila para entrar numa área repleta
de barracas de comida, entretenimento -e cientistas. Algumas das
barracas de pesquisa ofereciam brindes a quem topasse participar; outras
chegavam a oferecer dinheiro. De qualquer maneira, os gêmeos se
mostravam ansiosos por participar, e havia longas filas para entrar e
sair das barracas. Dez equipes montaram estandes para registrar os nomes
de voluntários para participar de estudos sobre gêmeos, a maneira
clássica de investigar se uma característica médica ou psicológica
específica é determinada pela natureza ou pela criação.
É uma ferramenta de pesquisa que está vivendo uma explosão de
popularidade. Hoje em dia, os estudos de gêmeos são usados para calcular
até que ponto pode ser herdado tudo, do câncer de mama às posições
políticas. No ano passado, por exemplo, pesquisadores do hospital St.
Thomas, em Londres, declararam que um aspecto chave da facilidade para a
música, a percepção tonal, se deve em 76% a nossos genes. Jornalistas
tiraram disso a conclusão de que as aulas de música são perda de tempo
para certas crianças.
Um sinal da popularidade do campo é a existência de cerca de 20
importantes registros de gêmeos em todo o mundo, incluindo um que
abrange 150 mil pares de gêmeos. Em março, a Comissão Européia e outros
organismos receberam uma verba de US$ 18 milhões para unir sete bancos
europeus de gêmeos num megarregistro composto de 600 pares, que será
usado para estudar a obesidade, os acidentes vasculares cerebrais e a
enxaqueca, entre outras doenças.
Mas nem todos vêem os estudos de gêmeos com bons olhos, e algumas
pessoas são abertamente hostis a eles. Os críticos afirmam que toda a
discussão de natureza versus criação é equivocada e seria motivada por
pessoas que querem provar que as desigualdades sociais se devem a nossos
genes, não a nossa cultura. E eles a desafiam também por motivos mais
fundamentais. Indagar se uma característica se deve à natureza ou à
criação não faz sentido, dizem, já que quase todas as características
são afetadas por ambos os fatores. Seriam os estudos de gêmeos, uma
invenção do século 19, suficientemente sofisticados para pesquisar tais
interações na era da biologia molecular e do projeto Genoma Humano?
Afinal, o esquema clássico do estudo de gêmeos ainda é muito básico. Os
cientistas analisam dois grupos: os gêmeos idênticos (ou univitelinos),
que vêm do mesmo óvulo fertilizado e compartilham todos os genes, e os
fraternos (ou bivitelinos), que nascem de dois óvulos diferentes e têm
em comum só metade de seus genes.
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Se os gêmeos idênticos forem mais semelhantes entre si do que os
fraternos, conclui-se que a hereditariedade exerce um papel no traço
estudado
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Se os gêmeos idênticos forem mais semelhantes entre si do que os
fraternos, os pesquisadores concluem que a hereditariedade exerce um
papel na característica estudada, papel esse cuja magnitude eles podem
estimar. O cientista britânico Francis Galton deu início aos estudos de
gêmeos, há mais de cem anos. Seus estudos o levaram à conveniente
conclusão de que, por trás da hegemonia das classes altas britânicas,
havia inteligência herdada, e tomaram um rumo mais sinistro quando ele
pediu a criação de programas governamentais para incentivar pessoas de
talento a se reproduzirem como coelhos e dissuadir os indivíduos sem
dons de ter filhos. Depois da 2ª Guerra Mundial, o psicólogo londrino
Cyril Burt estudou gêmeos idênticos criados separadamente e constatou
que seus QIs eram muito semelhantes, apesar das diferenças entre eles em
termos dos ambientes socioeconômicos nos quais tinham sido criados.
Durante algum tempo, a natureza ficou por cima na discussão ente
natureza e criação -até que o psicólogo americano Leon Kamin declarou
fraudulento o trabalho de Burt. Descobriu-se que, independentemente do
número de grupos de gêmeos que Burt afirmasse ter estudado, as cifras
que ele apresentava em favor da influência genética se mantinham iguais
-resultado altamente improvável, em termos estatísticos. Kamin mantém
até hoje sua postura crítica em relação aos estudos de gêmeos, embora
outros pesquisadores tenham voltado a endossá-los. ""O consenso atual
não é tanto uma função do "poder" dos estudos, quanto da ideologia
prevalecente", diz Kamin. Ele receia que as estimativas quanto ao grau
em que a inteligência é herdada sejam exploradas para difundir a idéia
de que investir em educação para pessoas de QI baixo é uma perda de
dinheiro público.
Colegas de útero
Outra crítica feita aos estudos de gêmeos é que as semelhanças entre
gêmeos idênticos podem ser causadas pelo ambiente que compartilharam no
útero, alem dos genes que eles possuem em comum. A chamada ""hipótese de
Barker", apresentada nos anos 1980, diz que a dieta seguida pela mulher
grávida ""ensina" a seu filho sobre o ambiente que ele pode encontrar
fora do útero, e, desse modo, afeta seu metabolismo e sua saúde
posterior. Se uma mulher tem uma dieta deficiente, por exemplo, seu
filho que ainda não nasceu passa a achar que a vida é dura e, assim,
terá tendência maior a armazenar calorias sob a forma de gordura. A
teoria foi ganhando corpo porque se observou que crianças com baixo peso
ao nascer apresentam probabilidade maior de tornar-se adultos com
sobrepeso, sofrendo de diabete e problemas cardíacos. Mas os
pesquisadores de gêmeos defendem seus métodos com vigor. Os gêmeos
idênticos muitas vezes apresentam diferenças de saúde geral e de peso ao
nascer, mas, mesmo assim, têm índices semelhantes de ataques cardíacos e
diabete, o que sugere que a hipótese de Barker não seja tão importante
assim, afirmam. Em vista de tais diferenças pré-natais, é surpreendente
que os gêmeos idênticos sejam tão parecidos, diz Nancy Segal, diretora
do Centro para Estudos de Gêmeos na California State University, em
Fullerton. Quando o assunto é ideologia, os defensores dos estudos de
gêmeos afirmam que enxergar esse modelo de pesquisas como ferramenta
para pessoas com visões políticas suspeitas já é superado. Robert
Plomin, do Instituto de Psicologia de Londres, diz: ""As pessoas se
preocupam com a genética, mas duvido que a genética fosse capaz de
causar tanto dano quanto causou a mania de atribuir a culpa pelo autismo
à mãe do autista", fazendo referência à hoje desacreditada teoria da
""mãe geladeira". Na verdade, é graças a estudos de gêmeos que os
cientistas hoje pensam que o autismo é geneticamente determinado em
cerca de 90% dos casos. ""Os estudos com gêmeos se tornaram muito
importantes para modificar as percepções das pessoas quanto às causas
das variações humanas e para criar agendas sociais e de pesquisas mais
racionais", disse Nick Martin, diretor de epidemiologia genética do
Instituto Queensland de Pesquisas Médicas, na Austrália, e editor do
periódico ""Twin Research". E os estudos com gêmeos têm sido
extraordinariamente úteis nas pesquisas de doenças que, de outro modo,
teriam sido enigmas genéticos. Desordens de genes únicos, tais como a
fibrose cística e a anemia falciforme, podem ser estudadas com relativa
facilidade. Mas desordens mais comuns, tais como osteoporose, obesidade
e a condição maníaco-depressiva, surgem quando as pessoas herdam vários
genes ""de vulnerabilidade". Os estudos simples feitos com famílias
comuns não revelam o grau de envolvimento dos genes, já que não é
possível distinguir os efeitos genéticos do meio ambiente familiar. Mas
os gêmeos idênticos herdam todos os mesmos conjuntos de genes, de modo
que os estudos feitos com gêmeos podem revelar até que ponto essas
doenças complexas se devem a
fatores genéticos.
A chegada em cena de novas técnicas moleculares de estudo da genética
não quer dizer que os estudos com gêmeos tenham sido superados. Na
verdade, estão se mostrando mais úteis do que nunca. Agora os cientistas
podem usar novas formas de estudos de gêmeos para decifrar os mecanismos
precisos existentes por trás das diferenças individuais.
A dimensão do DNA
Uma técnica investiga os gêmeos idênticos que diferem numa doença ou
característica específica, usando sofisticadas técnicas de disposição de
DNA, com as quais é possível examinar milhares de genes com rapidez e
eficácia. Os pesquisadores procuram disparidades na expressão dos genes
dos gêmeos, esperando encontrar um gatilho ambiental ou uma única
mutação nova que provocou a condição. Os estudos com gêmeos estão se
mostrando uma ferramenta poderosa para a pesquisa de cada gene expresso,
em um único par de gêmeos, quando só um deles tem determinada doença. No
mês passado, por exemplo, Jeff Murray, da Universidade do Iowa,
descobriu uma das causas genéticas do lábio leporino ao estudar dois
gêmeos idênticos, dos quais só um tinha o problema.
A aplicação de técnicas de biologia molecular à pesquisa com gêmeos pode
lançar luz sobre uma das áreas menos conhecidas da genética. Os críticos
dos estudos com gêmeos às vezes acham que não faz sentido estimar o grau
em que qualquer característica dada pode ser herdada, já que isso pode
variar com o ambiente.
Por exemplo, calcula-se que as variações de obesidade se devam em cerca
de 70% a fatores genéticos e 30% a fatores ambientais. No entanto, em
regiões em que os humanos têm dificuldade para garantir sua
subsistência, é muito mais provável que as pessoas sejam magras, seja
qual for sua herança genética. Nesse caso, a contribuição do ambiente
seria superior a 30%. E uma pessoa que tivesse sofrido uma mutação
genética incomum talvez nunca engordasse, por mais que comesse. Para
ela, a contribuição ambiental seria menor.
Mas os pesquisadores de gêmeos respondem que ainda é possível fazer
generalizações úteis sobre o grau em que a maioria das características
pode ser herdada ou não, dado o ambiente médio de uma população e seu
pano de fundo genético típico. E os gêmeos estão emergindo como a
ferramenta ideal para pesquisar essas interações complexas entre genes e
meio ambiente.
A razão é que, sem gêmeos, é difícil separar os efeitos de genes
""normais" que afetariam diretamente o nível de uma característica dos
""genes de sensibilidade ambiental", que modificam o grau em que uma
característica é sensível a influências externas. Os gêmeos idênticos
quase sempre têm todos seus genes iguais, de modo que, quando um é mais
gordo do que outro, isso deve ser atribuído exclusivamente a efeitos do
ambiente. Se determinadas versões (""alelos") do gene X estiverem
ligados a uma discordância de peso grande ou pequena, então você terá
encontrado o que procura.
Um dos primeiros exemplos conhecidos desse fenômeno é a relação entre os
níveis de colesterol e os grupos sanguíneos MN -uma classificação
diferente do sistema mais conhecido de tipos sanguíneos ABO. Por meio de
estudos com gêmeos, a equipe de Martin mostrou que pessoas do grupo
sanguíneo N têm níveis de colesterol muito mais variáveis do que as do
grupo M. Para as pessoas do grupo N, mudar de dieta, adotando um regime
com baixo teor de gordura -em outras palavras, uma mudança em seu
ambiente- era mais eficaz para reduzir os níveis de colesterol presentes
no sangue do que era para as pessoas do grupo M.
Esse trabalho parece estar a anos-luz do estudo de gêmeos clássico de
Galton. Mas quem sabe se e quando todos os enigmas serão decifrados?
Quando um par de gêmeas jovens em Twinsburg começou a seguir as
instruções de pesquisadores que estudavam diferenças de paladar, a mãe
deles, Joanie Cuff, de Buffalo, Nova York, riu enquanto as via engolir
frascos de líquido e fazer caretas. Até um estudo de DNA mostrar que
suas filhas eram gêmeas idênticas, ela imaginara que fossem fraternas.
""Uma delas é perfeccionista, a outra é bagunceira", ela contou. "Uma
delas estuda muito, enquanto a outra não faz o dever de casa. Mas, nas
provas, elas tiram as mesmas notas." E isso, como se explica?
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Kristin Ohlson é jornalista free-lancer de Cleveland, Ohio
Tradução de Clara Allain